Priscila Fernandes: Fanfare 2025

Fanfare 2025, de Priscila Fernandes, é uma obra absurda, cómica, ruidosa e repleta de contradições. Patente no Batalha Centro de Cinema, no Porto[1], a exposição individual resiste a interpretações claras. Em vez disso, deixa-me com palavras e sentimentos desconexos que se perdem nas minhas tentativas de compreender o que se esconde por trás das fortes emoções das fanfarras comunitárias, reais e imaginárias, nas duas obras em exibição: There Are No Radical Futures [Não há futuros radicais] (59', 2025) e Fanfare 2025 (22', 2025). Habitualmente focada na liberdade individual e coletiva, Fernandes mergulha na música como resistência política dentro do contexto europeu, um contexto onde a divisão e a opressão parecem estar a levar a melhor sobre nós. Tanto a ficção de Fanfare 2025 como o trabalho documental de There Are No Radical Futures deixam-nos a lutar com as relações, cada vez mais fadadas ao fracasso, entre poder e resistência, sucesso e falha, unidade e divisão.
Imaculadamente exibidas, as peças de Fernandes são poderosas e magnéticas na sua vivacidade. Ecoando as palavras do cineasta Fatih Akin, “Quando uma plateia está a rir, isso de alguma forma abre-lhes a alma, e quando se tem uma plateia com a alma aberta, é muito melhor atingi-los com uma faca” [2], por detrás da sua primeira impressão alegre escondem questões mais profundas, e um desconforto que Fernandes oferece ao seu público apenas após uma reflexão mais aprofundada. No texto que acompanha a exposição, Isabella Lenzi escreve que as peças compõem uma “polifonia que ressoa entre ruínas e os vestígios da esperança”[3]. E, de facto, as obras imploram-nos que abramos os olhos à procura de uma réstia de esperança por um futuro melhor, mesmo em lugares onde as afinidades e os laços de comunidade estão por um fio.
Para começarmos a tentar compreender o significado e o contexto por detrás de Fanfare 2025, devemos primeiro voltar-nos para o significado de fanfarra: um floreado musical executado por uma banda filarmónica (militar ou civil) com percussão associada, para ocasiões cerimoniais, militantes e comunitárias. São ruidosas, pomposas, celebratórias, e uma tradição de origem predominantemente europeia. Quando se trata do tipo comunitário e popular, as bandas filarmónicas com que a exposição se ocupa podem ser vistas como descendentes das bandas de trovadores medievais e, como tal, ligadas ao carnaval e às tradições populares de alegria comum, usando o humor como ferramenta para subverter relações de poder. Por outras palavras, o seu poder reside na sua sonoridade e na capacidade da música para ocupar espaço, aumentar a energia e unir as pessoas — exatamente aquilo de que estas obras em vídeo falam que precisamos tão desesperadamente.
Prática de narrativa videográfica no seu melhor, Fanfare 2025 é projetada no foyer da segunda sala do Batalha, num enorme ecrã que coloca as personagens em tamanho real a apenas alguns metros do espetador. Um remake absurdo da comédia (igualmente absurda) Fanfare (1958) de Bert Haanstra, a peça em vídeo replica o argumento do clássico, onde a tentativa de uma banda de vila para ganhar um concurso se vê autossabotada por lutas internas. Descrita como uma ficção distópica, Fanfare 2025 mostra uma banda filarmónica local na fictícia cidade aquática holandesa de Lagerwiede, a caminho do concurso. Lutas internas, inseguranças e desarmonia marcam a sua desorientada viagem. Filmada no mesmo local, em Giethoorn, a Fanfare de Haanstra apresenta uma banda de vila dividida por uma rixa que reflete a sua familiaridade, união e parentesco entre si. Já a banda de cidade que Fernandes apresenta em Fanfare 2025 remete antes a brigas familiares sintomáticas de problemas mais profundos não resolvidos. Se pensarmos em estar sentados numa celebração de feriado depois de um grande drama familiar, aproximamo-nos da sensação da banda a tentar chegar ao concurso num pequeno barco. No entanto, os problemas parecem ser os mesmos, como narra a introdução de Fanfare 2025:
Em Lagerwiede, uma hora dura mais do que em qualquer outro lugar.
É tempo suficiente para que divisões, antigas e novas, se desenrolem.
Quanto mais óbvia a resposta lhe parecer,
mais se opõe o seu vizinho.
…
A vida é assim aqui há 70 anos.
Tudo mudou,
mas os problemas permaneceram.
Fecha os olhos às mudanças e poderás ficar encantado.
Olha para outro lado e terás de te convencer de que ficará tudo bem.
Desvia o olhar uma terceira vez e poderá ser tarde demais.[4]
Com este pano de fundo, o enredo de Fanfare 2025 leva-nos ao próprio concurso, onde encontramos o juiz, vendado, sentado numa mesa no meio da água. Os membros da banda saem dos seus barcos e começam a tocar, semi-submersos. O juiz recusa-se a ouvir a sua atuação por mais de alguns segundos, interrompendo com “Parem, parem, parem! Segundo lugar.” À medida que tentam repetidamente levar a atuação avante, o juiz interrompe-os, atribuindo o terceiro lugar e depois uma menção honrosa, até que a banda finalmente desiste num caos de tropeções, vagueando sem rumo com água pelos joelhos e soprando os seus instrumentos agora meio cheios de água.
O final feliz da Fanfare de Haanstra, no qual as diferenças da banda são superadas numa bela atuação conjunta que leva o público ao delírio, é substituído em Fanfare 2025 por uma distopia onde aqueles no poder aprofundam divisões e instabilidades existentes, e os laços entre as pessoas não são suficientemente fortes para as manter unidas. Os conflitos têm sabores diferentes: em vez de uma rixa entre vizinhos cujas vidas estão inextricavelmente interligadas, como no clássico de Haanstra, na versão de 2025 de Fernandes o individualismo, a ganância e a competição interna levam a melhor. Enquanto Haanstra coloca o público, que acorre ao palco após a atuação, numa posição superior à do juiz, o filme de Fernandes retira o público para colocar o juiz como líder solitário, superior e indiferente, de um julgamento que desestabiliza mentalmente a banda. “Desvie o olhar uma terceira vez e poderá ser tarde demais”, adverte Fernandes ao público no início do filme. Por outras palavras, não podemos, como o juiz, ver tudo isto como algo que não nos diz respeito.
Contrapondo-se à ficção distópica de Fanfare 2025, There Are No Radical Futures revela-se simultaneamente esperançoso e condenado, ao documentar o encontro europeu de fanfarras ativistas, organizado pela La Fanfare Invisible em Paris em maio de 2025. Na sala-filme do Batalha, de forma alongada como um corredor, encontramos dois ecrãs lado a lado, que seguem intermitentemente as atuações de dezanove bandas durante os dias do encontro, e cuja música preenche o espaço, transbordando para o bar no piso inferior. Mais ao fundo da sala, um segundo monitor com auscultadores documenta as reflexões das fanfarras sobre as suas experiências, táticas e desafios[5].
A filmagem é próxima e cuidada, dando a cada indivíduo espaço para expressar a sua personalidade e a cada instrumento para revelar o seu caráter. Enraizadas nas lutas sociais, as fanfarras de toda a Europa são aqui formulações de organização coletiva inovadoras. Embora os membros das bandas tendam a ser de um contexto privilegiado, como os próprios referem, ouvimo-los refletir sobre as tentativas de tornar as suas ações mais inclusivas, comuns e relacionáveis. As estruturas organizativas de cada banda diferem, e o mesmo acontece com as suas opiniões políticas: uma chega mesmo a comentar o seu desconforto relativamente a uma ação pela Palestina que realizaram em conjunto durante o encontro. Em Espanha, as fanfarras juntam-se a ações de bloqueio como forma de atenuar a violência policial; na Alemanha, as fanfarras apoiam estas ações apenas a partir das laterais, considerando-as demasiado perigosas; as fanfarras napolitanas estão preocupadas com redes de ajuda mútua, uma vez que a sua comunidade é muito vulnerável; enquanto outra fanfarra fala da diferença entre participar num protesto organizado e ir tocar para bairros rurais, questionando o que terá maior impacto. As suas histórias são genuínas e honestas, refletindo a sua aprendizagem coletiva e uma adaptação contínua às suas circunstâncias únicas.
Um membro de uma fanfarra cita Franco Basaglia (parafraseado): “o fascismo cresce no cérebro sem cultura, música e ideias”. Enquanto nos debatemos com questões de resistência comunitária no contexto atual da ascensão da extrema-direita, em comparação com os tempos dos movimentos de massas, e com o papel que a arte pode desempenhar nisto, esta frase — e a peça de vídeo no seu todo — toca uma corda desconfortável. Algures por detrás das palavras, do riso e do cuidado, há um palpite perturbador de que isto não é suficiente. Tal como Fanfare 2025 se encontra, 67 anos depois, muito distante do otimismo do pós-guerra, There Are No Radical Futures fala do fim de uma época em que tocar música em ações e organizar manifestações chega tão longe quanto lhe é necessário.
Será esta a crise da radicalidade na Europa, ou serão as crises ecológicas, sociais e económicas do capitalismo a chegarem ao coração da ordem imperial global? Por detrás da resistência alegre e poderosa das fanfarras radicais, encontramos contradições e desacordos, lutas por espaço e diversidade, à medida que as estruturas para ação comunitária são cada vez mais invadidas e cerceadas. Na Fanfare de Haanstra, encontrámos uma cidade que, tanto no conflito como na alegria, está unida por laços de parentesco e comunhão. Por sua vez, em Fanfare 2025 de Fernandes, tal como em There Are No Radical Futures, encontramos conexões efémeras, instabilidade e incerteza. Ao tentar deslindar o potencial da música como resistência política, a exposição Fanfare 2025 de Fernandes surge com a necessidade premente de reconstruir as ruínas do parentesco comunitário e enfrentar a nossa distopia de olhos bem abertos. Talvez até possamos enfrentá-la com uma fanfarra.
Nota: Esta exposição pode ser vista no Batalha Centro de Cinema, no Porto, até ao próximo dia 29 de Novembro e esteve patente na Solar Galeria Cinemática em Vila do Conde, de 20 de Setembro a 8 de Novembro.
Maria Kruglyak é investigadora, crítica e escritora especializada em arte e cultura contemporânea. É editora-chefe e fundadora de Culturala, uma revista de arte e teoria cultural em rede que experimenta uma linguagem direta e accessível para a arte contemporânea. É mestre em História da Arte pela SOAS, Universidade de Londres, onde se focou na arte contemporânea do Leste e Sudeste Asiático. Completou um estágio curatorial e editorial no MAAT em 2022. Atualmente trabalha como redatora freelancer de arte.
Tradução do EN por Marta Espiridião.
Notas:
[1] Outra versão da exposição pode ser visitada na Solar - Galeria de Arte Cinemática em Vila do Conde.
[2] Wendy Mitchel and Fatih Akin, “Going to Extremes: Fatih Akin on His Turkish-German Love Story ‘Head-On,’ Indiewire, 19 de Janeiro 2005: indiewire.com/features/general/going-to-extremes-fatih-akin-on-his-turkish-german-love-story-head-on-78433/ (visitado a 19 de Novembro de 2025).
[3] Isabella Lenzi, “When the Water Rises, You Have to Play Louder,” por ocasião das exposições individuais na Solar Galeria de Arte Cinemática e no Batalha Centro Cinema, Setembro de 2025: priscilafernandes.net/projects/fanfare-2025/text (visitado a 19 de Novembro 2025).
[4] Excerto do guião de Fanfare 2025 (2025), de Priscila Fernandes, inspirado no guião de Jan Blokker para Fanfare (1958) de Bert Haanstra.
[5] There Are No Radical Futures é protagonizado por: Banda Basaglia (Nápoles, Itália), Banda Comunale e Fiatelle Braskapelle (Dresden, Alemanha), XR Block Brass (Holanda), Beatprotest (Munich, Alemanha), Acabanda (Bologna, Itália), Antifafare (Bruxelas, Bélgica), Fanfare van de Eerste Liefdesnacht (Amsterdão, Holanda), Banda Ramua (Munich, Alemanha), Street Noise Orchestra (Innsbruck, Áustria), Fonc (Milão, Itália), Strampalabanda (Turin, Itália), Ottoni a Scoppio (Milão, Itália), Fanfarria Transfeminista (Madrid, Espanha), La Fanfare Invisible (Paris, França), Clé de Lutte (França) Fanfare Militante / Fa-mi-le (Lausanne, Suíça, Flûte des Classes (Paris, França) e La Locomotive Fanfare (Paris, França).
Primeira sequência de imagens:
Priscila Fernandes: Fanfare 2025. Vistas da exposição no Batalha Centro de Cinema, Porto, 2025. Fotos: Dinis Santos. Cortesia da artista e Batalha Centro de Cinema.
Segunda sequência de imagens:
Priscila Fernandes: Fanfare 2025. Vistas da exposição na Solar — Galeria Cinemática, Vila do Conde, 2025. Fotos: João Brites. Cortesia da artista e Solar — Galeria Cinemática.
