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Pedro Barateiro: Folklore

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Marta Espiridião

uma enciclopédia de monstros, ou o Folklore de Pedro Barateiro

A vasta, e múltipla, obra de Pedro Barateiro (n. 1979, Almada) desenvolve-se nas diversas intersecções entre a ficção e a análise crítica das estruturas sociais, económicas e simbólicas que moldam o mundo contemporâneo. Através de uma prática profundamente reflexiva, de si e do mundo que habita, o artista propõe-nos, a cada nova exposição, novos dispositivos poéticos e ensaísticos que questionam a circulação do conhecimento, a violência do capital e o papel das imagens e da linguagem na formação das subjetividades contemporâneas. Habitando um espaço de suspensão entre a realidade e a imaginação, onde imagens são pensamentos e palavras são corpos, as suas obras constróem paisagens mentais onde a história e o presente se enredam num mesmo fôlego criativo. A sua prática é um gesto de observação e auscultação — do tempo, das estruturas invisíveis que organizam a vida, dos olhares, gestos e palavras que ora nos prendem, ora nos libertam.

Em Folklore, exposição patente na Appleton, em Lisboa, encontramos quatro desenhos que formulam um comentário crítico às movimentações políticas da actualidade, utilizando símbolos apropriados da cultura popular contemporânea entrelaçados com uma certa mitologia que perpassa a obra de Barateiro — os seus pequenos monstrinhos do costume, com as suas múltiplas pestanas, mas também novas figuras maléficas apenas resquicialmente antropomórficas. A forma como Barateiro decidiu expor estes quatro desenhos de grande escala é tão curiosa quanto intencional: pode parecer simples, mas colocar um desenho no centro de cada uma das paredes que conformam o cubo da Appleton dá a sensação de estarmos cercados. De forma natural, quase automática, o meu corpo entrou no espaço e deslocou-se até ao centro da sala, onde dei lentas voltas sobre mim mesma até ficar zonza, entrando e saindo destas paisagens desoladoras. Parecem poesias viscerais, esboçadas em faixas de papel, revertendo a incapacidade das falhadas tentativas da pintura para encapsular a poética da paisagem na tela, ao entender que a poesia agora necessária é a que tenta imaginar a ínfima possibilidade de um poema dos dias. Que outra poesia se poderia fazer no fim do mundo?

Os desenhos apresentados são habitados por diversas personagens, elas mesmas indecifráveis na sua relação com um referente do real, que podiam remeter para qualquer das personalidades (quiçá várias) que hoje assombram o espectro político e social que vivemos. Mas é inegável que, no traço de Barateiro, estes monstros materializam, nos seus sorrisos maliciosos, a pulsão de renegar qualquer forma de humanidade em prol de algum tipo de poder. Se destroem a árvore do conhecimento, é também porque lhes demos os machados e lhes apontámos o caminho, e ficámos a vê-los marchar ritmadamente na direcção da destruição do que nos é mais essencial: as construções comunitárias e empáticas que erigimos na procura da convivência. São pesadelos capitais, de dentes afiados, prontos a despedaçar o que resta da democracia e da natureza; são expressões abjectas do lado-sombra da humanidade, alavancados pelos instrumentos tecnocráticos da ideologia capitalista que servem, demónios em esteróides prontos para empreender uma razia total de todos os valores afectos à vida, a todas as vidas.

Em Attack to the Tree of Knowledge, um pequeno duende segura o que parece ser um livro, o seu único olho focado na follha que acaricia com a ponta da sua comprida língua, como se assim pudesse absorver o conhecimento que ela guarda — completamente alheio à presença de uma figura disforme que descreveria como uma harpia, brandindo uma espada no que se subentende ser um ataque à florida árvore senciente que possivelmente dá o nome à obra. Free Speech / Free Trade não me deixa parar de pensar na questão da “liberdade”, seja de mercado ou de expressão — mas que liberdade é essa, afinal? Liberdade de explorar, abusar, enganar, escravizar, destruir, desenraizar, é essa a liberdade que anda nas bocas do mundo agora? The Three Powers (Europe) traça-nos uma paisagem desoladora, de montanhas de betão e mãos cujos dedos tacteiam, quais sanguessugas, por algo mais que mate a sua sede insaciável de poder. A aridez de um continente vergado à força do capital, onde até a resistência natural tem dificuldade em encontrar terreno para lançar as suas raízes. Em The Transformation, corpos em mutação observam-se mutuamente com uma fome antiga no olhar, reinando sobre um principado de folhas de papel e territórios raptados onde a autodeterminação não tem lugar, subjugada por linhas imaginadas no ocidente.

Ao contrário desses monstros, não vos vou mentir e dizer que sei entender tudo o que se está a passar nesses desenhos. A maioria das personagens está em acção, embrenhada em vários fluxos, mas as suas intenções ou propósitos são inescrutáveis, embora indubitavelmente nefastos, os seus gestos dúbios, e os seus movimentos pesados mas direccionados. A folha de sala fornece algumas pistas, que avidamente colecto para tentar entender a smaller picture, os detalhes minuciosos, as intersecções entre tudo o que verte do papel. Pedro Barateiro quer falar connosco, seus espectadores, e escreve-nos uma carta. Feitos “nos últimos dois anos nos Coruchéus (em Alvalade, local de residência de Marcello Caetano, como informa o artista), estas “composições sem plano definido” recuperam o formato horizontal — que preteriu nos últimos anos ao vertical, espelhando a alteração direccional introduzida pelos smartphones — “pelo carácter histórico e evocativo que tem”, de alguma forma representam a mesma “falta de noção do passado” que torna a arte necessária pela possibilidade do “questionamento do mundo e das narrativas que se vão construindo”. Pedro Barateiro quer abrir-se, e partilha connosco uma bela carta que lhe foi escrita por Els Silvrants-Barclay. Dela, uma ideia fica comigo de forma profunda: imagens instáveis. Que, imagino, contêm movimento, mas não uma direcção, e por isso não se deixam domar pela paralisia colectiva que parece ter tomado conta de nós, em face da destruição da Terra, dos valores humanos, da empatia, de Gaza, das formas de resistência visível, da possibilidade de sobreviver.

Estas obras de Pedro Barateiro são imagens instáveis, talvez as que são ainda possíveis numa existência cada vez mais desamparada pela instabilidade: tão ilegíveis e ao mesmo tempo tão realistas na relação com o absoluto surrealismo que estamos a viver neste momento (e aqui sou recordada da sensação perturbadora que sinto no fundo da barriga que me avisa que algo não está bem, mas não tenho palavras para dizer o quê). É quase visceral, algo nestas paisagens artificiais e monstruosas está profundamente errado, o corpo arrepia-se e prepara-se para um embate. Mapas traçados a esquadro e lâmina, a união europeia e uma chávena de chá, edifícios quase saídos de qualquer um dos Blade Runner, anéis brilhantes em mãos retorcidas, alguém sussurra “tomemos o que é nosso”, olhos, muitos olhos, que nos olham de todos os lados. Olhos que aguardam, expectantes, a transformação, bocarras escancaradas salivando nas margens, esperando o momento de saquearem os despojos coloniais do fim da batalha, abutres que são. Contra estes quatro cavaleiros do apocalipse, e contra a força do capital, só nos resta descolonizar a nossa imaginação, que ainda nos tentam vender como absolutamente perdida: desfigurar a realidade, descascar as suas camadas, envolver o seu cerne com mãos quentes e sangue na guelra. Para mim estas são imagens bélicas, entre a crítica e a ficção, com que Barateiro nos convoca para uma espécie de vigília activa: juntemo-nos pois para observar como o poder se infiltra nas formas sociais, como a tecnologia se confunde com a natureza, como a violência se torna quotidiana. Não nos deixemos levar pela apatia e pelo fim da esperança, mas tomemos de volta o direito a imaginar, sejam as formas monstruosas que os poderes poderiam encarnar, seja o fim do capitalismo, seja o fim do mundo. Depois do fim, vem sempre um princípio.
 

 

Pedro Barateiro

Appleton
 

 

Marta Espiridião é curadora, crítica, tradutora, e doutoranda em estudos artísticos com um projecto sobre vídeo, movimentos feministas e identidades queer.  Aliando a curadoria tanto à investigação como à programação, tenta trazer para os espaços artísticos outras formas de criação e conhecimento. Além destes temas, interessa-se profundamente por coisas como bruxaria, literatura, arquitectura e espaço público, condições sociais contemporâneas, ficção científica e jardinagem.

 

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Pedro Barateiro, Folklore. Vistas da exposição na Appleton Square, Lisboa, 2025. Fotos: Pedro Tropa. Cortesia do artista e Appleton.

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Pedro Barateiro, Folklore. Vistas da exposição na Appleton Square, Lisboa, 2025. Fotos: Rita Baleia. Cortesia do artista e Appleton.

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