Ana Vieira: Cadernos de Montagem

Primeiro Conservar
Segundo Continuar
Ana Vieira: Cadernos de Montagem é a primeira de quatro exposições a integrar um projecto inédito, numa curadoria tripartida. Abraçada por Antonia Gaeta, Astrid Suzano e Sofia Gomes, a tarefa em mãos foi, e ainda é, conservar o legado de Ana Vieira (1940-2016) para que a obra continue.
Acolhida no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira, Cadernos de Montagem dá a ver, a ler e a escutar, um conjunto de onze instalações e esculturas pontuadas por anotações escritas e/ou desenhadas feitas por Ana Vieira.
Do começo: "Projeto Ana Vieira"
Exposta uma única vez, na extinta Sala do Veado, Museu de História Natural, a instalação Ensaio para uma paisagem, de 1997, encerra Ana Vieira: Cadernos de Montagem. Constituída por sete grandes paralelepípedos, ora transparentes, ora opacos, nos quais se vê fumo, vapor de água, ou luz intermitente, e se escuta o ruído da areia batida pelo vento, a instalação abre para as exposições vindouras e, não obstante, desencadeou este inédito projecto.
Em 2017, quando Paula e Miguel Nery, filhos e herdeiros de Ana Vieira, foram solicitados a emprestarem Ensaio para uma paisagem, para a Bienal de Lyon, aperceberam-se de que não possuíam informação suficiente para remontar a instalação. A escassa documentação, a nível técnico, confrontou-os com vários obstáculos, nomeadamente, a impossibilidade de a obra continuar. E, para mais, não era caso isolado. Das vinte e oito instalações realizadas entre 1977 e 2016, vinte delas ficaram sob a tutela dos herdeiros. Para protegerem o espólio da artista e mãe contactaram Astrid Suzano (formada em Arquitectura; trabalhou com Ana Vieira na Galeria Graça Brandão e com ela manteve amizade) com a urgência de voltarem a remontar as instalações que lhes coube em herança, dando, assim, continuidade a uma obra ainda por cuidar. Desse modo, em 2020, formalizaram o “Projeto Ana Vieira” que assentava em quatro pilares: estudar, conservar, divulgar e gerir o espólio da artista. Em paralelo, e desde 2017, Sofia Gomes, no âmbito do seu Doutoramento em Conservação de Arte Contemporânea, acompanhava já a montagem de algumas obras de Ana Vieira, com propósito de documentar e estudar o processo; juntando-se ao projecto em 2021. E, por fim, Antonia Gaeta (curadora e marceneira) alia-se ao projecto, propondo uma apresentação experimental no espaço da Appleton — com apoio da Fundação Carmona e Costa, em parceria com o Banco de Arte Contemporânea —, que serviria, desde já, para colocar à prova as diferentes tarefas. Andreia Magalhães, directora do Centro de Arte Oliva, que anteriormente já tinha sido contactada, acolhe o projecto e, num curto espaço de tempo, consegue parceiros expositivos — gnration, Braga; Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães; MACE, Elvas. Apoiado pela Rede Portuguesa de Arte Contemporânea, o projecto ganha concretização no espaço físico.
Conservar para Continuar
Conservar no sentido de preservar a obra, a história, a memória, é sempre um gesto de amor. A dedicação para ver o que não está à vista, ou para descobrir o que não existe, pressupõe um mergulho profundo na vida e na obra daqueles que partiram. Não se trata só de seguir as pegadas de um percurso, numa determinada orientação, mas de apanhar, unir, traçar e refazer, o que resistiu à passagem dos anos.
Na conservação do património há uma acção primitiva: observar e estudar, antes de passar à prática. Mais adiante é preciso restaurar: limpar, consolidar, repor o que falta à obra, ou conjunto. Por fim, preencher os espaços vazios que o tempo danificou, reconstituindo o desenho. E, talvez, não seja por acaso que, na primeira sala do Centro de Arte Oliva, somos agraciados com o desenho feito a tinta-da-china para a instalação O desenho da menina a fugir do seu suporte, de 2014. Exposta pela primeira vez na Galeria Graça Brandão, agora, no Centro Oliva, durante a montagem, surgiu uma questão na adaptação da obra ao espaço, nomeadamente, na construção de elementos arquitectónicos, como as colunas e/ou o desenho da porta. Esses elementos não só abrangem as figuras/meninas que correm, fogem do suporte, como também dão a ver claramente o tamanho de cada uma. E, contudo, quando se observa o estudo sobre papel compreendemos a aproximação ao cinema, lembrando um zootrópio. O movimento, agarrado à vida, desdobra-se em cada uma destas figuras, livres do engradamento da tela. Se aqui o movimento é imagem activa, em Santa paz doméstica, domesticada?, de 1977, a imagem está suspensa. A encenação desta obra é uma composição, quase fotográfica, dedicada ao espaço do ócio feminino, da mulher doméstica que, rodeada por revistas, flores, crochet, inscreve uma imagem disponível a ser (des)activada. Aquilo que não está activo, mas a qualquer momento é mote de engrenagem, dirige o nosso olhar para a possibilidade de preenchimento, ausente de movimento. Como na instalação Antecâmara, onde o visitante é convocado por uma voz e por passos de alguém, sem corpo. Não se vê, escuta-se.
A ilusão estimulada pela ausência, por espaços vazios, ou concavidades, são dispositivos que chamam a vida, ou seja, no interior da forma oca, desejam encontrar uma disposição para a sua ‘vivência’. Lembrando as duas caixas-objecto Sem título, 2007 e Sem título, 2002 — restauradas também pelas curadoras —, que nelas, fixam essa ilusão, através do molde em ligações opostas: interior-exterior, côncavo-convexo, e/ou cheio-vazio. Estas ligações, associadas à ilusão, funcionam como mecanismos que, estimados por Ana Vieira, activam o desejo de envolver o espaço, vivendo-o. De certa maneira, salvaguardam um espaço que já-não está disponível ao corpo, mas ainda-é vivo: uma transparência da vida sobre a sombra da morte.
Há uma semelhança entre a obra de Ana Vieira e o acto de conservar e restaurar: o preenchimento dos ‘vazios’ ganha uma projecção para o futuro, recuperando e preservando as coisas juntas. E foi isto que Antonia Gaeta, Astrid Suzano e Sofia Gomes fizeram em conjunto: mergulharam até ao fundo e trouxeram à tona o que precisava de ser reunido, observado, estudado, conservado e restaurado. O que as uniu em Cadernos de Montagem foi o amor à obra de Ana Vieira.
Cadernos de montagem
As anotações escritas e desenhadas, ao longo da exposição, são observações feitas pela artista. Elas foram (e são) as primeiras pistas a ter em conta no estudo da obra de Ana Vieira. Em primeiro lugar, convém referir que estas observações não são propriamente cadernos de montagem, mas um espólio documental depositado no Banco de Arte Contemporânea — o primeiro a ser recebido e inventariado —, do qual faz parte não só as suas anotações, como também correspondência, reflexões, entrevistas, artigos e/ou imagens fotográficas. Em segundo, os cadernos de montagem são aquilo que foi investigado, observado e testado, por Sofia Gomes, Antonia Gaeta, e Astrid Suzano. Antes da elaboração de cada caderno de montagem houve muito trabalho realizado previamente, não só no arquivo depositado no BAC, mas sobretudo nos contactos feitos para compreender o processo criativo da artista no espaço expositivo. Assim, foi imperativo falar com curadores, equipas técnicas, assistentes de montagem, com o objectivo de estudar e apreender a forma como a artista montava cada instalação, adaptando-a ao espaço que a recebia.
A título de exemplo: da instalação Antecâmara, 2002, exposta na Galeria Giefarte em Lisboa, restava apenas o som. O desenho do espaço, as medidas da porta, onde a cortina está instalada, o tecido da cortina, a luz que incide nela, e tudo o que diz respeito ao trabalho de investigação, à escolha e compra dos materiais, foi agora recuperado, testado e avaliado, dando origem a um caderno de montagem — que reúne a história da instalação e, também, se acrescenta, um desenho técnico feito por Astrid Suzano. Em Le Déjeuner sur L’Herbe, de 1977, uma obra tão conhecida de Ana Vieira, tantas vezes adaptada pela artista, em cada montagem a favor do espaço que a recebia, e, posteriormente, adaptada pelas instituições que a expõem, colocou em causa, por exemplo, a maneira como o lençol é estendido no chão: esticado ou com dobras?
No Centro de Arte Oliva, numa sala preta, observa-se a peça: num lençol colocado no chão, uma imagem da pintura de Édouard Manet é projectada. Sobre o lençol estão colocados outros elementos — uma paleta, pincéis, copos, pratos, garrafas. O nosso olhar incide na imagem da pintura de Manet e, no entanto, é através das dobras do tecido, que somos conduzidos a percorrer o corpo na obra de Ana Vieira.
Os cadernos de montagem são construídos a partir de uma elaborada investigação: antes, durante e depois. Aquilo que ainda não existia, ou simplesmente existia como elemento disperso, agora, reunido, configura um percurso que se colocou à prova. Fixado, com instruções, cuidadosamente detalhadas, escritas e desenhadas, feitas pelas curadoras, esse percurso dará a ler o caminho percorrido. Trata-se, inclusive, de um processo semelhante ao do artista: antes de começar, num espaço onde já há vestígios, mas sem configuração, o começo é apanhá-los, de modo a serem fixos. Caso contrário, perdem-se. Durante o processo de fixação, coloca-se à prova: uns vestígios ficam, outros transformam-se e ainda, outros, voam. Depois, com ou sem resultado final, dar-se-á continuidade ao trabalho, à obra seguinte.
Evidentemente, os cadernos de montagem irão orientar um trabalho futuro. Lidos por outros interlocutores, poderão vir a ser interpretados de forma diferente. Possam eles ser uma mais valia numa tarefa que estava por fazer: cuidar para continuar.
A lembrar
Desde os tempos de estudante, na Faculdade de Belas Artes em Lisboa, Ana Vieira sempre desejou distanciar-se daquilo que não era a sua matriz — ser pintor, ser escultor —, procurando uma relação entre permanência-impermanência, um processo de atar a vida com a arte. Daí, preferir a palavra ‘vivência’ à palavra ‘memória’, porque “viver as coisas deixa mais marca.”[1]
Cristina Robalo vive e trabalha em Lisboa. Artista, doutorada em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra
(2021-2011), mestre em Filosofia, na área de Estética pela Universidade Nova de Lisboa (2010-2008), frequentou o Plano de Estudos Completo em Desenho e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo Ar.Co, Lisboa (2000/1994). Em 2019 iniciou o projecto editorial, “Conversa em
torno do desenho com Cristina Robalo”, em parceria com a Sistema Solar/Documenta.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.
Ana Vieira: Cadernos de Montagem. Vistas da exposição no Centro de Arte Oliva. Fotos: Dinis Santos. Cortesia Centro de Arte Oliva.
Imagem sobre a Biografia da obra Le Dejeuner sur L'Herbe, de 1977, de Ana Vieira. Cortesia das curadoras.
Nota:
[1] Numa entrevista a Hans Ulrich Obrist, em 2011, em anavieira.com
