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Mauro Cerqueira: Canções para um burro morto  

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Paula Ferreira

 

Um burro morto descansa sobre uma cadeira de plástico. O corpo diminuto do animal, outrora forte, parece se diluir na aridez desbotada da paisagem, seus pêlos sem brilho se confundindo com o vermelho escuro do sangue. A cena reverbera desde uma passagem da infância do escritor Mohamed Choukri, contada ao início do romance autobiográfico Pão Seco. Nas páginas iniciais do livro, assim como na pequena tela repousada sobre a cadeira, as carcaças de burros estão abandonadas no pó da estrada. Duas imagens afastadas por um vasto hiato cronológico se aproximam, como se fossem um contínuo que se reproduz na paisagem, fora do tempo. Gostaria de propor um exercício que pensasse o que, apesar desse hiato, mantém viva uma relação de correspondência. Ainda que, ao fazê-lo, inevitavelmente deixe escapar nuances da intrincada relação que todo passado mantém com o presente.

A primeira imagem do animal — ou segunda, se considerarmos o tempo uma linearidade inescapável — repete-se em frames de Amazigh - Tecer Estradas a Caminhos, vídeo que integra Canções para um burro morto, exposição do artista Mauro Cerqueira, com curadoria de João Terras, patente no Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Reproduzido a partir de um dispositivo móvel que repousa sobre a cadeira de plástico, dentro de uma das salas, o burro inerte é visto em loop. A tela de pequenas dimensões parece querer deslocar o tempo e o espaço, e a câmera que filma a cena parece desejar dissipar-se na presença do animal. Escondendo que há, ali, uma mediação, forja a impressão de ser uma testemunha senciente, um portal que traz notícias (imagens) de longe. Já a segunda imagem — ou primeira, se o tempo teimar em ser uma linearidade inescapável —, surge plasmada nas páginas iniciais do romance Pão Seco, compondo a linguagem rica em descrições visuais do autor marroquino Mohamed Choukri. Na primeira travessia de sua vida até Tangier, ponto de partida do livro, o êxodo familiar se descreve na figura de uma exaustiva berma de estrada onde perecem burros, vacas, cavalos e membros de outras famílias migrantes.

Pão Seco chegou ao público pela primeira vez em 1973, através de uma tradução do árabe original para o inglês, realizada pelo escritor norte-americano Paul Bowles, o que fez com que o livro assumisse contornos dramatizados em relação à escrita original. Auto-didata, Mohamed Choukri aprendeu a escrever quando já era adulto, resgatando as memórias do início de sua vida no romance que narra com uma frontalidade singular as passagens de negligência e violência que atravessaram a sua vida e perduraram até o fim da adolescência. Incontornável testemunho dos modos com que a violência colonial se infiltra nas subjetividades e nos detalhes mais triviais do cotidiano das populações colonizadas,  se torna imprescindível pensar o que uma obra deste gênero pode suscitar ao ser evocada em um espaço institucional, em Portugal, em 2025. Porém, antes de percorrer esse raciocínio, convém situar Pão Seco dentro da exposição Canções para um burro morto, uma vez que tal relação poder não ser explícita para o público.

Na verdade, o livro só surge ao tecer os fios da relação entre o seu autor e Jean Genet, outro cânone da literatura existencial e de resistência. São os caminhos e espaços onde a amizade entre ambos os escritores teve lugar que Mauro Cerqueira e Babi Badalov perseguem e registram em O Suor do Deserto, filme que compõe o corpo de trabalho apresentado no CIAJG. No filme, a presença de Mauro Cerqueira se torna quase espectral, o artista se desfaz atrás da câmera — e essa, por sua vez, se desfaz na presença de Babi Badalov cantando, dançando, julgando perfis no Grindr, conversando com pessoas nas ruas e contornando muros de cemitérios, sempre absorto na romântica busca pelos espaços que resguardam a memória desvanecida da amizade entre Choukri e Genet. O cenário que testemunha essa deriva se confunde com a voz grave de Babi Badalov a recitar os versos do poema O Condenado à Morte, de Genet, compondo um Marrocos simultaneamente onírico e dolorosamente real.

De todas as imagens que se cruzam e se interpelam na confluência de temporalidades distantes revisitadas em O Suor do Deserto e Amazigh, o burro se afirma como símbolo das relações literárias que Mauro Cerqueira sustenta em seu trabalho. Ele é a própria imagem-oráculo, que suplanta distâncias para fazer lembrar as dívidas que o passado mantém com o presente. Ele é o epicentro do encontro do presente de Mauro Cerqueira e Babi Badalov com o Marrocos, ainda colônia, de Mohamed Choukri e Jean Genet. A relação de correspondência existe porque o burro morto na berma da estrada da infância de Choukri é o mesmo da árida paisagem em decomposição nos frames de Amazigh, os mesmos burros que, mal-cuidados, se alimentam de lixo em O Suor do Deserto, e o mesmo que dá título à exposição. As suas imagens são, na verdade, uma única imagem que se “atualiza” no tempo através da repetição dos vícios da História. E, por assim serem, interessa situá-las criticamente dentro dos contextos pelos quais circulam.

Nesse sentido, não parece antagônico que tenha sido construída uma obra-estrutura lúdica para a fruição de O Suor do Deserto. Projetado em uma tela de dimensões espetaculares, o filme convida o público a deitar ou sentar sobre uma rampa de skate “cortada” ao meio — as almofadas disponíveis no espaço são um inequívoco convite à permanência. Aconchegados pela obra-estrutura e pelo escuro da sala, é possível perceber uma relação conflituosa que se estabelece entre o conforto da nossa posição enquanto público e a crueza das imagens que são projetadas. As mesmas não remetem ao Marrocos do turismo, ao mágico horizonte azul de Chefchaouen. Pelo contrário, vemos a repetição de burros mortos ou mal-cuidados, dos espaços marginalizados e das praias poluídas visitadas em Pão Seco. Vemos um vórtice temporal ao qual continuamos subjugados — uns mais agressivamente que outros [1]. Ainda que sejam poéticas as canções ouvidas no filme, belos os azulejos que adornam o interior das casas filmadas, calorosas as conversas e afáveis as ajudas oferecidas pelas pessoas ao longo dessas derivas, permanecemos diante de reminiscências de uma História mal resolvida consigo própria.

Mauro Cerqueira parece buscar constantemente a experiência estética desse conflito entre o conforto e a higienização dos espaços institucionais da arte e a brutalidade da realidade. Ao trazer imagens de uma geografia longínqua, como do Marrocos, ou próxima, como dos arredores de seu ateliê no Porto, parece haver um método que se replica, mesmo que de maneira relativamente errática. É aquele do artista enquanto uma espécie de mediador, sempre em busca de um Outro — ou melhor, das ínfimas reminiscências dos diversos outros que povoam o mundo. Tal método se revela notavelmente mais explícito na sua postura diante da câmera (em O Suor do Deserto, Mauro Cerqueira só deixa de ser fantasma em uma cena, através do espelho), mas está igualmente presente nas telas cobertas por piche e objetos encontrados nas ruas que “esbarram” no ready made; nos espelhos que têm as suas superfícies reluzentes escurecidas por cera de vela; na pequena arena esvaziada de cadeiras de plástico; e na música que preenche o ambiente, composta, tocada e gravada na mesma paisagem marroquina dos filmes, mas reproduzida como um eco fantasmático no centro da exposição.

É justamente nesse conflito que se produz o ruído tão poético do seu trabalho. Que, em sua prática artística múltipla e polissêmica, irrompe nas salas cheias de luz do CIAJG, turvando o branco de quase todas as suas paredes. Que compõe a exposição Canções para um burro morto através dos “restos” recolhidos do mundo. Que, a partir dessas tantas camadas, projeta um universo estético próprio, alimentado pelo conflito, mas também pelo encontro. E que, por fim, perturba o silêncio do espaço expositivo com o barulho contido nas imagens que cria — e também com a concepção de uma obra-rampa-sofá que, desde a inauguração, transformou-se em um escorrega para crianças, onde se compôs uma nova, pueril e feliz canção para burros mortos.

 

Mauro Cerqueira

CIAJG:  Centro Internacional das Artes José de Guimarães

 

Paula Ferreira é escritora, fotógrafa e pesquisadora independente. Nascida em São Paulo, atualmente vive em Lisboa. É pós-graduada em Fotografia pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e em Estética pela FCSH NOVA. É fundadora de Aos Cuidados, projeto que abrange publicações impressas, exposições e workshops dentro de temáticas relacionadas ao acesso à saúde e aos direitos aos cuidados, sempre por uma perspectiva feminista, interseccional e transdisciplinar. Em 2023, realizou a curadoria da exposição Bandeira Branca, na Galeria Irmã Feia, e o ciclo de cinema Escrever a Liberdade, no Museu do Aljube. Foi assistente curadora na Anozero: Bienal de Coimbra, edição de 2024.

 

Este texto foi escrito em português do Brasil.

 








Mauro Cerqueira, Canções para um burro morto. Vistas da exposição no CIAJG, Guimarães, 2025. Fotos: Filipe Braga. Cortesia do artista e CIAJG.

 

Nota:

[1] A ideia de vórtice temporal abordada neste texto tem relação com as teorias do tempo que interseccionam questões de raça e de classe. Trata-se de um campo de estudo que lança o olhar sobre a experiência do tempo dentro da realidade de pessoas racializadas, mas também de populações colonizadas. São referências neste assunto autores como Barbara Adam e Rasheedah Phillips.

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