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Maja Escher: finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2025

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Paula Ferreira

Escutar, demorar, semear. Observar os corpos que se inclinam para a terra, a dança das plantas à mercê do vento, os polinizadores a carregar as suas sementes, as mãos a cavar novos caminhos para a água e a partilha da sabedoria aprendida pelo ofício da agricultura: uma atenção dedicada às coreografias das tramas visíveis e invisíveis que pertencem ao funcionamento da natureza. É nesse ritual de reconhecimento e aprendizagem da cultura vinculada ao solo, à água, ao ar, aos ecossistemas e às presenças humanas e além-de-humanas que o trabalho de Maja Escher desperta. Pelo cuidado, pela colaboração e consciente da pertinência de fomentar uma ecologia da escuta, a artista tece criações a partir das relações que nutre, sejam elas com os lugares, as pessoas, as matérias ou os objetos.

Sua prática incorpora um processo lento de enraizamento — com frequência, em residências artísticas, situações em que a convivência é tornada possível, tendo mantido uma semelhante metodologia ao conceber a obra apresentada na corrente edição dos Prémios da Fundação EDP, para a qual trabalhou em uma relação direta com o espaço. Na reclusão possibilitada pelos dias em que o museu esteve fechado ao público, Maja Escher desenhou, esboçou, experimentou com e no espaço, sustentando uma interação dialógica com as curvas das estruturas tubulares, com o metal presente na arquitetura do edifício, com o silêncio que manifestava a lembrança das presenças do dia anterior. A comunicação com o entorno é fundamental à leitura do trabalho da artista — necessidade que possivelmente surge influenciada pelas memórias e pelos aprendizados assimilados na experiência de crescer em Odemira, bem como à sua participação em movimentos por justiça ambiental.

Na nostalgia das lembranças do cotidiano na vila do Baixo-Alentejo, a artista discorre sobre o cotidiano profundamente marcado pelos ritmos de uma natureza menos domesticada que a da cidade, pela experiência das estações do ano determinando práticas diárias e suscitando rituais coletivos, e pela partilha de saberes provenientes da estreita ligação com a terra. A sua descrição das vivências no monte alentejano, quase idílica, conflitua com a fratura no tecido social e com a devastação ecológica, oriunda principalmente da monocultura do eucalipto e das estufas de agricultura intensiva, que persistem dentro do mesmo território. Ao abordar o assunto, Maja Escher percorre com uma coerente criticidade os desafios de lidar com essa complexa realidade e trazê-la à sua prática artística. Como disputar o imaginário do lugar? Como o gesto artístico poderá entrar em comunhão com os outros, se tornando um locus para um fazer que se quer dialógico? Em que medida o trabalho da artista discursa sobre uma ideia de cuidado? Como contrariar a lógica da monocultura, que substitui a diversidade por repetição?

Nesse limiar entre tensões e encantamentos, sua obra se inscreve enquanto uma forma de celebração da persistência das formas de vida que resistem à homogeneização, seja cultural ou vegetal. Um ponto de encontro, como o mastro-sol que irradia um amarelo-ocre (pigmentado com as “tintas” retiradas do solo), elemento central na instalação árvore espinho = pássaro trovão. Gravitando ao seu redor, peças de chão, tingidas com outros minerais terrestres, convidam à permanência. A obra se transforma em um espaço para estar em companhia, proximidade e conversa. Viabiliza pausas, encontros, cultiva a presença e a atenção enquanto práticas regenerativas. Relembra a função essencialmente política da celebração. Reconhece o valor das práticas resilientes, das sabedorias não codificadas e da escuta como forma de conhecimento.

No microcosmos dessa instalação, pigmentos da terra conferem tonalidades específicas a cada objeto costurado em tecido; plantas ressequidas fazem companhia às sementes guardadas em corpos-esculturas de cerâmica; o barro, produto do solo, molda ora contrapesos para arcos fluídos, ora objetos de parede que mimetizam as ferragens presentes na arquitetura do museu; estruturas por vezes antropomórficas, por vezes geométricas, caem desde o “céu” das tubulações da galeria; espinhas (de peixe ou vertebrais) oscilam com as correntes do vento. Tudo está em relação e em conflito simultâneo. A negociação dos corpos no espaço gera interesse, é a proposta de um espaço essencialmente relacional. Ao mesmo tempo, cada elemento que constroi árvore espinho = pássaro trovão tem um passado em comum, como relembra a artista. Animal, vegetal, mineral e humano: há um passado geológico que une a todos e que não deve ser esquecido — arriscando esquecermos também a nossa interdependência fundamental e originária.

Através desse e de outros gestos de percepção do entorno, Maja Escher compõe uma prática artística atenta ao valor dos conhecimentos vernaculares, à oralidade como forma viva do saber, às atividades comunitárias, à terra. Em uma ecologia de sensibilidades e da escuta, que entrelaça corpo, território, linguagem e saberes situados, sua obra exerce a função de dispositivo de encontro — entre espécies, temporalidades, formas de habitar o mundo e de conhecê-lo. Afirma a importância das pequenas alianças para a (nossa) existência em comum e das formas de vida que, resilientes, escapam à lógica extrativista. Propõe uma alternativa à monocultura, não apenas a do eucalipto, mas do pensamento, da linguagem e da experiência estética.

Em seu trabalho, os elementos não são imagens, mas relações. Negociam as suas presenças no espaço, permitindo a interação, acolhendo a conversa improvisada, o silêncio partilhado, a escuta atenta, o gesto espontâneo. A prática artística de Maja Escher é aquela que, no fim do dia, celebra o encontro como forma de resiliência.

 

Maja Escher

 

MAAT

 

 

Paula Ferreira é escritora, fotógrafa e pesquisadora independente. Nascida em São Paulo, atualmente vive em Lisboa. É pós-graduada em Fotografia pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e em Estética pela FCSH NOVA. É fundadora de Aos Cuidados, projeto que abrange publicações impressas, exposições e workshops dentro de temáticas relacionadas ao acesso à saúde e aos direitos aos cuidados, sempre por uma perspectiva feminista, interseccional e transdisciplinar. Em 2023, realizou a curadoria da exposição Bandeira Branca, na Galeria Irmã Feia, e o ciclo de cinema Escrever a Liberdade, no Museu do Aljube. Foi assistente curadora na Anozero: Bienal de Coimbra, edição de 2024.

 

Este texto foi escrito em português do Brasil.

 

 

Capa: Vista da exposição © Bruno Lopes. Cortesia de MAAT/Fundação EDP.

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Vistas da exposição ©Joana Linda. Cortesia de MAAT/Fundação EDP.

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