Lisbon Roundup #17

É o último RoundUp do ano, que se fecha com a sensação de que — e segundo a possibilidade avançada pela própria ciência, não se trata apenas de uma percepção subjectiva — tudo se precipitou rapidamente, como se o tempo acelerasse os eventos, os dias e as vivências. Foi um ano com muitas propostas artísticas, naturalmente de validade e interesse distintos, como a diversidade o implica. Escolhemos quatro exposições que têm a uni-las, além do interesse intrínseco que despertaram, uma matriz de superação da distância entre a Arte (artifício) e a Natureza (natural), na sua interpelação técnológica, criativa e mesmo fantasiosa. O mundo continua sem sinal de retoma da sua humanidade e pacificação. Quanto a nós, continuamos a habitá-lo, ancorados numa esperança necessária e homeopática que nos faz, apesar de tudo, ainda ceder à generosidade do maravilhamento.
Carlos Bunga
Habitar a Contradição
@CAM—Fundação Calouste Gulbenkian
Entra-se no espaço e percebe-se, de imediato, a surpresa e a coerência que procuramos numa exposição e que permite, passado determinado tempo, ainda ser recordada. A maioria dos eventos expositivos apaga-se na memória e os que, pelo contrário, conservam viva uma lembrança e a vontade de regressar merecem referência. Esta é uma dessas exposições, a mais bem conseguida na área de ocupação correspondente à Nave do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian desde a sua reabertura, no ano passado. Carlos Bunga (n. 1976) traz-nos Habitar a Contradição, um conjunto expositivo composto por vários núcleos mais circunscritos, tais como a série escultórica Nómadas, ou objectos que tomam a casa como referente ou o ainda as peças resultantes do convite para dialogar com a colecção do CAM/FCG. Destacamos, contudo, dois conjuntos: a magnífica série fotográfica Maternidade e o núcleo central da mostra, em site-specific, Bosque.
Carlos Bunga nasceu em Portugal, para onde a sua Mãe — a sua primeira casa, como o artista refere — veio grávida, de Angola, em 1975. Após o 25 de Abril de 1974, iniciou-se a descolonização. Em 11 de Novembro de 1975, Angola tornou-se independente. O clima beligerante e perigoso agudizou-se com a entrada numa longa guerra civil que envolveu potências estrangeiras e, como praticamente todas as guerras, acarretaria consigo milhões de mortos e deslocados, minas terrestres, assim como a destruição de infraestruturas importantes, como a estutura basilar da vida: a habitação. Os números nunca foram exactos, mas estima-se que retornaram a Portugal — antiga metrópole — mais de meio milhão de pessoas. Foram tempos difíceis, caracterizados pela pobreza, a incerteza, a descoordenação e incapacidade governamentais, pela desconfiança face a quem retornava e pelo racismo. Foi neste contexto que a vida de Bunga se iniciou. Possivelmente, esta instabilidade terá ressonância nas suas casas e arquitecturas de cartão, metáfora existencial do provisório.
Mas voltemos à série fotográfica que representa a Mãe de Carlos Bunga jovem, bela e em trajes festivos noctívagos. As fotografias foram tiradas num local de diversão nocturna no Cais do Sodré onde a Mãe de Bunga trabalhava para conseguir sustentar a família. As ampliações fotográficas tomam a escala do retrato clássico e dignificante. O olhar directo a aberto para o espectador recorda Olympia (1863), de Manet, cujo modelo foi a pintora Victorine Meurent, na sua poderosa condição de “fille de joie” que tanto desafiou a conservadora sociedade francesa da época, na sua pacata hipocrisia moral. As imagens são belas e esteticamente sofisticadas, evocando uma Olympia, agora mulher negra dos anos 80 em Portugal, numa redefinição dos valores e na sublimação da efectiva desvantagem do ponto de partida.
Bosque é impactante e assume a reunião da inteligência com o sentido estético no domínio do espaço expositivo. A espacialidade é absolutamente coerente e possui a capacidade de, como nas boas decisões curatoriais e expositivas, fazer o espaço enaltecer a obra, e não, pelo contrário, diminuí-la ou confundi-la. O título remete, claro, para uma floresta onde o espectador se pode perder e encontrar e tudo voltar ao início. O dispositivo do cartão evoca historicamente a prática da Arte Povera dos anos 60 e 70, por exemplo, e entre outras obras, o clássico Labirinto (1969) em cartão de Michelangelo Pistoletto. A simplicidade do material opera a ligação evidente com a sua simbologia provisória. Mas este bosque de árvores também nos remete para as colunas clássicas, numa referência à história da própria arquitectura ocidental. E regressamos à casa, ao abrigo, sobretudo relevante numa época de precaridade e de crise grave na habitação. O cartão é a casa das brincadeiras das crianças, assim como o material usado pelas pessoas em condição de sem-abrigo, que são cada vez em maior número. Apesar do estado do mundo, foi um prazer entrar neste bosque de Outono.
Daniela Ângelo
Quimera
Quimera é título da peça central que confere o nome à exposição de Daniela Ângelo (n. 1996) na Galeria Francisco Fino. Na mitologia, quimera reporta-se a um monstro, porque se apresenta estranhamente composta por partes de diferentes animais, normalmente corpo de leão, cabeça de cabra e cauda de serpente ou de dragão. Neste caso, trata-se de uma montagem fotográfica com uma cabeça de papagaio e corpo de gato. Também do ponto de vista da biologia, quimera é um organismo que possui células com material genético diferente, ou seja, combina duas linhagens genéticas distintas no mesmo corpo. No verso desta imagem, surge uma citação visual de um livro de de Nobuyoshi Araki (n. 1940), conhecido fotógrafo japonês cuja trabalho surge ligado sobretudo a duas temáticas: o erotismo, muitas vezes associado ao Shibari, e as flores. É precisamente uma destas belas flores que, numa escala agigantada, constitui o verso da primeira imagem, formando, no seu todo, uma peça escultórica de vulto redondo montada numa estrutura de metal.
O trabalho de Daniela Ângelo desenvolve-se na interseção entre fotografia expandida, como é o caso desta fotografia-instalação, assim como práticas de arquivo, propondo estratégias de deslocamento e de recontextualização do olhar. As peças, frequentemente de cariz instalativo, produzem um campo de percepção no qual a imagem deixa de ser vector de direcção única para se transformar em dispositivo relacional, incorporando a presença física do espectador, contribuindo, a seu modo, para uma reflexão sobre as condições de produção, circulação e recepção das imagens. A imagem torna-se, paradoxalmente, corpórea, dominando o espaço e convidando para novos sistemas de fruição. Como entendia Henri Bergson, na obra Matière et mémoire: essai sur la rélation du corps a l’esprit (1896), quando procurava dar resposta à supressão do dualismo entre corpo e espírito, considerando que a matéria seria um conjunto de imagens, entendendo a imagem como “uma certa existência que ia além do idealismo de uma representação e que seria menos do que uma coisa”. Por outras palavras, a imagem situa-se entre a representação e a coisa. Quimera é uma bem conseguida fusão sintética de todos estes elementos.
Diogo Evangelista
Core
Seguimos para a sala contígua e deparamo-nos com um jogo visual de formas ovaladas e coloridas. Core, de Diogo Evangelista (n. 1984), como o título o evoca — assim como todos os seis títulos das peças que constituem o conjunto —, remete para algo centrípeto, uma espécie de punctum imagético contundente e inalienável na sua ontologia e função. O centro é o próprio centro, a essência, o núcleo, o ponto de convergência e de explosão. Evangelista desenvolve uma prática multidisciplinar, explorando escultura, desenho, pintura e vídeo. Outro aspecto a assinalar no seu trajecto prende-se com a relação entre arte, ciência, natureza e tecnologia, propondo narrativas em que a ficção e a realidade se diluem.
Core aponta para todos estes aspectos e possibilidades operatórias, trazendo uma elegância visual ao espaço expositivo e uma cadência cromática que é reconfigurada com a presença do espectador no seu reflexo, sempre, portanto, mutável. Trata-se, por conseguinte, de uma obra que se torna aberta, participada, complexificada, sem, todavia, deixar de ser una na sua essência, ou seja, no seu ponto central. Mas é de notar que, por definição, o punctum não se reporta apenas à obra/imagem, mas sobretudo à relação do espectador com ela. O que significa que o punctum não é necessariamente objectivo, mas mutável, envolto na subjectividade da relação estética com o sujeito. O punctum é o detalhe que toca, fere ou que se destaca na percepção, seja literal ou emocional. Olhamos as peças de Evangelista e também nos olhamos reflectidos e mutáveis. O ponto é o início e o fim de todas as possibilidades.
Susanne S. D. Themlitz
História Natural
É num espaço encantado de criação especulativa que o espectador é recebido na Galeria Vera Cortês pela acção de Susanne S. D. Themlitz (n. 1968). Por entre um magnífico canguru azul sem uma orelha e, já agora, com o corpo em forma de cone colorido (Canguru/monumento, 2025), ou uma coelha também sem uma orelha (Coelha-orelha/monumento, 2025), ou ainda por entre formas antropomórficas ou peças de mobiliário convertidas em escultura ou assemblage, quer dizer, retiradas da sua condição original de objecto de uso quotidiano para serem transformadas em peças impactantes, imaginativas e plenas de pormenores a descobrir. O trabalho de Themlitz caracteriza-se pela criação de instalações multidisciplinares que articulam desenho, escultura, pintura, vídeo e objectos diversos, concebidas como ambientes imersivos, centrando-se, como nesta exposição é bem visível, na construção de universos ficcionais que evocam paisagens naturais, lugares interiores ou sistemas orgânicos imaginários.
O recurso ao objet trouvé, na sua ontológica condição transformadora do percurso da arte contemporânea, é um denominador comum aos trabalhos expostos. Themlitz utiliza frequentemente materiais simples ou precários — como argila, madeira, papel, metal e, claro, objectos encontrados — valorizando ao mesmo tempo a manualidade e o processo, que resulta em obras com uma estética deliberadamente inacabada, que evidencia o gesto e reforça uma ideia de transformação contínua, ou seja, aberta e em movimento e organicidade. Tanto este projecto como outros de sua autoria são desenvolvidos a partir de referências à história natural, à literatura, ao cinema e à cultura visual, entrecruzando-se com a observação atenta do mundo. As estruturas arquitectónicas improvisadas e as figuras híbridas funcionam como metáforas de relações entre natureza, ficção e construção cultural, propondo leituras expandidas onde cada elemento contribui para um conjunto maior. A sua prática destaca-se pela coerência conceptual, pela atenção ao espaço expositivo e pela capacidade de criar experiências visuais que combinam rigor formal com liberdade.
Voltando a situar-nos neste espaço, a condição que nos é imediatamente proposta é o espanto do mise en abyme na sua possibilidade de comportar uma obra dentro de outra, ou de um espelhamento infinito, como uma narrativa que se replica ou se reflecte dentro de si mesma. Prática, aliás, frequentemente usada em literatura, cinema ou artes visuais, precisamente para criar camadas de realidade e de imaginação, ao mesmo tempo. Quase ao modo de Alice, na célebre obra de Lewis Carroll, a sala de exposição desmaterializa a sua brancura sem referência espacial através de figuras, imagens e universo. O universo é um aspecto determinante em Susanne S. D. Themlitz, convidando o espectador a celebrar essa riqueza e criatividade. Abandonamos a sala com um capote visual e fantasioso capaz de nos proteger da agreste chuva lá fora. O ano chega, assim, ao seu final.
Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.
Imagens:
Carlos Bunga, Habitar a Contradição. Vistas da exposição no CAM-Fundação Calouste Gulbenkian. Fotos: Pedro Pina, excepto imagem (da capa) referente à montagem da exposição por Fábio Cunha. Cortesia do artista e Fundação Calouste Gulbenkian.
Daniela Ângelo, Quimera. Vistas da exposição na Galeria Francisco Fino. Fotos: Carbonara Studio. Cortesia da artista e Galeria Francisco Fino.
Diogo Evangelista, Core. Vistas da exposição na Galeria Francisco Fino. Fotos: Carbonara Studio. Cortesia do artista e Galeria Francisco Fino.
Susanne S. D. Themlitz, História Natural. Vistas da exposição na Galeria Vera Cortês. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Galeria Vera Cortês.
