Jean Painlevé

Óptica Submersa
Cruzando a observação científica com a óptica moderna e uma sensibilidade ímpar, Jean Painlevé (1902–1989) foi um cineasta Francês cujos filmes ficaram conhecidos pelo seu experimentalismo e olhar curioso. Ao longo da sua prolífera carreira desenvolvida em parceria com laboratórios científicos, Painlevé desenvolveu métodos de filmar inovadores, com o apoio de microscópios, câmeras subaquáticas e outros aparelhos que permitiram aceder a camadas mais profundas do mundo observável. Um mundo natural também ele tecnocientifíco e moldado por formas de observação e métodos de análise a estas circunscritos. Modos de análise que se situam dentro e fora do frame, da placa de pétri e do campo limite da experiência científica.
Moldado por um olhar que funde o seu percurso nos domínios da medicina e biologia, Painlevé criou mais de duzentos filmes institucionais, animações e outros filmes documentais que registram em pormenor o mundo natural circundante, como nunca antes havíamos visto. Sejam estas criaturas microscópicas, diatomáceas, embriões, ou estruturas celulares em desenvolvimento, ou ainda animais subaquáticos, como nudibrânquios, moluscos, ou cavalos marinhos. Alguns destes foram vistos em pormenor pela primeiríssima vez pelas mãos de Painlevé, que com o acesso aos primeiros filmes de película colorida nos consegue transmitir um sentimento de irreverente proliferação de sentidos no mundo minucioso e mágico que existe ao nosso redor.
Criando filmes de uma extrema sensualidade, que se assemelham a um planetário subaquático e implodem com a escala da vida e do visível, Painlevé regista os movimentos minuciosos da locomoção e reprodução de espécies, convidando o espectador a penetrar na sua narrativa morfogenética. Parecem oriundos porventura de truques de magia, que as possibilidades de uma câmera irreverente e novas formas de filmar permitem, mas também de um sentido profundo de abertura à sua contemporaneidade, e às expressões tecnológicas e culturais que o rodeiam. Após a invenção dos primeiros escafandros, Painlevé teve a oportunidade de fazer mergulho no Mediterrâneo, juntando-se a um clube de naturalistas e amadores que buscavam desenvolver técnicas de recolha de imagens subaquáticas, antecedendo narrativas de registo e comunicação científica que ficaram mais tarde afamadas por pessoas como Jean Jacques Cousteau, ou David Attenborough. Colaborou também muitas vezes com compositores de jazz e electroacústica para compor as suas bandas sonoras, tão ritmadas quão surpreendentes.
A exposição de Jean Painlevé com curadoria de Ampersand — colectivo fundado por Alice Dusapin e Martin Laborde, aqui acompanhado por Baptiste Pinteaux — está patente da Galeria 2 da Culturgest, em Lisboa, até 3 de Março de 2025. Na mesma podemos encontrar uma selecção de filmes do cineasta, bem como séries fotográficas expostas ao longo de sete salas, sob papéis de parede desenvolvidos a partir de guaches originais de padrões de cavalos marinhos e caranguejos de Geneviève Hamon — companheira e colaboradora próxima de Painlevé. Toda a exposição é constituída por materiais documentais da fundação que preserva o seu legado, o Archives Jean Painlevé, em Paris.
Nesta exposição podemos encontrar em destaque algumas das suas obras centrais, como Les Amours de la Pieuvre (A Vida Amorosa do Polvo) (1967), animal sujeito a várias incursões cinematográficas, aqui retratado num filme que levou cerca de uma década entre a rodagem e a finalização de edição; ou L’Hippocampe (O Cavalo-Marinho) (1931) que introduz uma perspectiva única sobre estes animais nunca antes reportados tão intimamente e que se sublimam em padrões e várias outras aparições ao longo da sua obra. Mas encontramos também outros sujeitos de tal íntimo olhar, que aqui se revela na incursão magnética dos seus ciclos da vida e reprodução hermafrodita, como o caso dos moluscos representados no grande ecrã, numa sala dedicada ao filme Acéra ou le bal des sorrires (Akeras ou o Baile das Bruxas) (1978). Vemos corpos em curso, e experiências de registo de movimento em película que se assemelham ao surrealismo tardio de Man Ray e à perspectiva fotográfica analítica de Etienne-Jules Marey, sentindo-se a cadência do gesto e morfologia dos corpos, como no filme L’Écriture du Mouvement (Notação do Movimento) (1949), ou a filmagem de experiências médicas e documentação de avanços no domínio da cirurgia plástica, presente em outros filmes.
Encontramos também em menor destaque, mas não menos relevante, um dos seus grandes filmes, Transition de phase dans les cristaux liquids (Transição de Fase em Cristais Líquidos) (1978) com música de François Roubaix. Transition de phase dans les cristaux liquids foi filmado com uma câmara de alta velocidade e um microscópio fotográfico que documentam a forma como as mudanças na pressão e na temperatura afetam a aparência dos cristais líquidos enquanto estes percorrem estados de cor transitórios. Painlevé, que defendia o valor do cinema para documentação dos avanços da ciência, documenta pela primeira vez os cristais líquidos em movimento, ampliando o debate científico que a sua descoberta trouxe e traduzindo-o para o grande ecrã, expandindo considerações sobre o animismo e a definição da vida. Como Esther Leslie escreve no seu recente livro, Liquid Crystals: The Science and Art of a Fluid Form (2016) os cristais líquidos trouxeram “um debate mais amplo sobre se a vida é um processo vital, não físico ou, ao invés, um processo físico-mecânico, dependente das leis da física e química.” Nos escritos alquímicos de Esther Leslie sobre tecnologias visuais, a autora aborda como a representação de cristais líquidos reformulou as discussões científicas e tecnológicas na viragem do século XIX, quando a concepção da matéria orgânica estava a “ser debatida segundo bases mecanicistas, contra o vitalismo e a conversa mística de um élan vital, ou energeia” que se espalhava pelo cosmos. Na época, acreditava-se que o cristal líquido era, na verdade, uma máquina que vivia. Estes são alguns dos mistérios que os filmes de Painlevé nos desvendam, abrindo a curiosidade do espectáculo de massas ao olhar para o mundo mágico que circula nas dimensões mais ínfimas que nos rodeiam.
Na exposição patente na Culturgest podemos aceder também a elementos do arquivo fotográfico que acompanha a sua obra cinematográfica. Denotando uma consciência pictórica que se destaca pela aproximação às artes visuais através da prática do registo fotográfico, em Painlevé sentimos o aflorar de uma grande capacidade de composição e jogos de ritmo e cor. Morfologias que explodem em protuberâncias cristalinas, fogos de artifício da vida em movimento, anémonas que tacteiam o olhar, pálpebras misteriosas e sedutoras que se abrem perante nós. Submergimos na dimensão aquática dos seres ondulantes que se acoplam às pedras, aos fluidos e ao ar, jorrando cristais em fluxo. São seres mágicos que nos olham e tacteiam o vidro do aquário, da lente fotográfica, e da moldura, gestuando de volta. Estas fotografias, são elementos exploratórios de uma prática que busca modos de ver e desenha novas tecnologias do olhar, mesmerizando-se com o acaso da experiência e a perenidade da matéria.
Esta é uma exposição que surge ao mesmo tempo que a Painlevé são dedicadas uma série de mostras expositivas internacionais que têm circulado na Europa, tais como Jean Painlevé — Les pieds dans l’eau comissariada por Pia Viewing no Musée Jeu de Paume, Pairs (2022), ou Jean Painlevé, comissariada por Marie Jager and Jonathan Atkins, Ikon Gallery, Birmingham (2017), entre outras. Curatorialmente, a exposição comissariada por Ampersand opta por criar um espaço em suspensão, onde as narrativas da forma introduzem os seres viventes e o olhar do cineasta, que se expande através da narrativa antropomorfizante dos seus filmes. Opta por uma componente arquivista que dá primazia à dimensão visual e fotográfica como estratégia editorial, tomando decisões de instalação e uma estética pop permeada por narrativas formais mais do que informativa. Vemos poucos indícios sobre o processo de realização dos filmes, ou mesmo imagens de Painlevé em trabalho de campo, além de uma foto sua de pés imersos num riacho com um camaroeiro nas mãos. Terminamos a visita deslumbrados pelas imagens partilhadas, mas sem dúvida desejando poder aprender mais sobre o seu inovador processo de construção cinematográfica.
Margarida Mendes é curadora e investigadora. A sua pesquisa — com enfoque no cruzamento das humanidades ambientais, filme experimental e artes sonoras — explora as transformações dinâmicas do ambiente e o seu impacto nas estruturas sociais e no campo da produção cultural. Integrou a equipa curatorial da 11th Gwangju Biennale "The 8th Climate (What Does Art Do?)", 4th Istanbul Design Biennial "A School of Schools", e 11th Liverpool Biennale "The Stomach and the Port". É consultora de ONGs ambientais que trabalham sobre a mineração no mar profundo e dirigiu também diversas plataformas educacionais, como escuelita, uma escola informal do Centro de Arte Dos de Mayo - CA2M, Madrid (2017); O espaço de projectos The Barber Shop em Lisboa dedicado à pesquisa transdisciplinar (2009-16); e a plataforma de pesquisa curatorial sobre ecologia The World In Which We Occur/Matter in Flux (2014-18). Margarida Mendes é doutoranda no Centre for Research Architecture, Visual Cultures Department, Goldsmiths University of London.
A autora não adopta o novo acordo ortográfico.
Jean Painlevé, vistas gerais de exposição na Culturgest, Lisboa, 2024-205. Fotos: António Jorge Silva. Cortesia de Culturgest.
