Lisbon Roundup #15

A esperança alimenta a nossa crença na possibilidade de reinvenção de mundos melhores num mundo caótico, dominado pela guerra, pelos extremismos, pela intolerância, pelo capitalismo desenfreado. Este capitalismo transforma tudo, naturalmente, num negócio e numa competição intrínseca. A arte também, claro. Mas, é também nela que reacende sempre a nossa capacidade de espanto e de humanidade. As três exposições selecionadas têm em comum o estabelecimento de um território artístico no qual estes aspectos, a seu modo, encontram eco, além de, em nosso entender, representarem das propostas mais válidas do momento, por motivos que a seguir explanaremos.
Ali Kazma
Lisboa-Istambul. Dois Retratos na Orla
Istambul, antiga Bizâncio e depois Constantinopla, é das cidades mais mágicas e historicamente relevantes. Bizâncio foi uma antiga cidade grega, que mais tarde se tornaria numa das mais importantes capitais: Constantinopla, nome trazido do imperador romano Constantino, que a renomeou. A história de Istambul é quase mítica, uma vez que cruza a Antiguidade Clássica com os mundos cristão ortodoxo e islâmico, além de representar a ponte histórica entre o Oriente e o Ocidente, tanto geograficamente quanto culturalmente. A tomada de Constantinopla pelos turcos não só assinalaria historicamente o início da Idade Moderna (1453), como marcaria o fim da ligação ancestral ao Oriente através do Mediterrâneo. Istambul foi um dos maiores centros comerciais do mundo medieval. Foi também o berço do cristianismo ortodoxo, com grande influência nos Bálcãs, na Rússia ou no Médio Oriente, estes dois últimos territórios actualmente com cenários de guerra grotescos.
Istambul é o limite oriental da Europa e Lisboa o limite ocidental. É desta constatação geopolítica e das complexidades que acarreta consigo a vários níveis —histórico, cultural, artístico, religioso, migratório, miscigenação — que Ali Kazma (n. 1971, Turquia) produz esta bela e poética instalação composta por vídeo e por imagens montadas em caixas de luz. A curadoria é assinada por Maurizio Bortolotti e trata-se, em nosso entender, da melhor proposta da galeria dos últimos tempos. Por seu lado, Lisboa é das capitais mais antigas do mundo, ponto de convergência de povos e de culturas, como a romana, a céltica, a visigoda ou a mourisca, resultando daqui, por exemplo, uma matriz arquitectónica moçárabe e mudéjar. Trata-se de confluências e diversidades únicas que em tempos de desconfiança face ao Outro e ao Mundo importa recordar e recolocar em análise.
Entre imagens arquitectónicas, paisagísticas, de pessoas e de pequenas acções do quotidiano, de textos ou de objectos variados, de taxidermia, desenvolve-se um cardápio visual intimista e pleno de significado. Nesta reflexão visual são trazidos à colação e colocados em diálogo os universos dos escritores Orhan Pamuk (turco) e Alberto Manguel (argentino residente em Lisboa). Mas também Fernando Pessoa e a sua Lisboa. A disposição das obras é sofisticada, tanto na colocação das peças de vídeo como na cadência, agrupamento e elegância das caixas de luz. A ligar as duas salas encontra-se uma excelente peça de vídeo com os dois rios (Tejo e Bósforo) a correrem em direcções opostas, num movimento perpétuo e de renascimento, que é urgente pensar. A arte é um território de abertura e de diálogo, mesmo quando todos os outros falham.
Rui Toscano
Ra
@Cristina Guerra Contemporary Art
Ra — título da exposição individual de Rui Toscano (n. 1970) — era considerado o deus do Sol e, consequentemente, uma das divindades mais relevantes do Antigo Egipto. Como símbolo solar, Ra era geralmente representado com um disco solar sobre a cabeça de falcão e a serpente sagrada (uraeus). Acreditava-se que todos os dias cruzava o céu num barco solar e fazia a jornada inversa pelo mundo subterrâneo durante a noite. Na verdade, Ra incorporava a própria manifestação da luz, da energia vital, da criação. A luz de Ra era vista como sustentáculo da vida na Terra e como poder combativo das forças do caos e da escuridão, trazendo clareza, sabedoria, verdade e poder divino. A passagem do Sol pelo céu, ou seja, a presença de luz, simbolizava a jornada de Ra, a ordem no mundo, num ciclo eterno de renovação, consciência e despertar. Esta é a contextualização racional, objectiva, se preferimos, da exposição em análise. Mas esta exposição é muito mais do que isto.
Ra é um golpe conceptual notável, porque se trata de uma exposição de quatro projecções geometrizantes de luz colorida (vermelho, dourado/amarelo, branco), ou seja, objectivamente, uma exposição do nada, da imaterialidade. E é este nada que a torna surpreendente, impactante e distinta. Na verdade, é isto que se procura quando se visita uma exposição: algo que, num hipotético balanço do que o ano deu a ver, posteriormente se recorde com interesse e com sensação de originalidade. A exposição é ainda constituída por um pequeno núcleo pictórico, mas, efectivamente, são as projecções da sala principal que a tornam singular e que marcam a sua identidade estética e conceptual. Há todo uma visualidade abstracta que permite a contemplação e que extrapola para a possibilidade metafísica de compreensão do mundo.
A prática artística de Toscano é ecléctica e de matriz conceptualista, com uma forte tendência para a utilização de imagens de arquivo, colagens visuais e sonoras, ou objectos de componente simbólica, fundindo elementos tecnológicos com aspectos mitológicos, numa proposta de reconstrução da História e da cultura ocidentais. A título de exemplo, a instalação Eu Sou o Cosmos (2018), também apresentada na galeria Cristina Guerra Contemporary Art, marcou o seu percurso nesta interpelação da ideia de matéria e de infinito, ou, e regressando a Ra, numa combinação de depuramento tecnológico com uma alusão à metafísica transcendental. Esta fusão é desafiante, porque podia não funcionar e criar zonas de repetibilidade ou de parca substância. Mas Toscano nesta exposição arrisca bem e com consistência. Ra é um eterno recomeço ao nível da relação do Homem no Mundo.
Susan Hiller
Dedicado ao Desconhecido
Com curadoria de Andrew Price, trata-se da primeira exposição individual da artista britânica Susan Hiller (n. 1940) desde a sua morte, em 2019. Dedicado ao Desconhecido é um poético e oportuno título para esta mostra. Vejamos. Hiller estudou arte e antropologia, acabando por considerar a antropologia demasiado voltada para a ciência, ao passo que a arte proporcionaria espaços mais complexos e ricos do ponto de vista humano, emocional e fantasioso. Este aspecto é relevante, uma vez que acabaria por estar na base da criação do conceito de “paraconceptual”, um termo que resulta da união das práticas minimalistas e conceptuais com o universo paranormal. Neste sentido, a artista interessou-se vivamente por rituais iniciáticos, escrita automática, Objectos Voadores Não Identificados (OVNI), aspectos sobrenaturais, além de práticas sociais colectivas, práticas feministas, entre outras. Efectivamente, o seu trabalho cruza as fronteiras entre a arte contemporânea, a antropologia, a psicologia e as culturas populares, tornando-se conhecido por explorar temas como a memória, o inconsciente colectivo, as experiências paranormais, a linguagem e o papel das mulheres na sociedade, frequentemente com uma abordagem influenciada por métodos antropológicos.
Neste sentido, Hiller recolhia e arquivava objectos e vozes de culturas e práticas frequentemente ignoradas tanto pela arte contemporânea como pelas rotinas da investigação académica, incluindo cartas psicografadas, gravações de vozes de fantasmas, histórias de abduções alienígenas, entre outros. No seu percurso, e nesta senda, podemos destacar: Dedicated to the Unknown Artists (1972–1976), uma colecção de postais de mares revoltos britânicos, produzidos por artistas anónimos e que eventualmente estará na base do título da exposição em análise; Automatic Writing (1974–1975), uma série na qual explora experiências mediúnicas e a linguagem automática, desafiando os limites da racionalidade; From the Freud Museum (1991–1996), um conjunto de caixas com objectos simbólicos, que funcionam como um museu pessoal e subconsciente; ou Witness (2000), uma instalação imersiva com centenas de relatos de avistamentos de OVNIs.
As suas práticas, como esta exposição permite — e bem — acompanhar, vão desde a fotografia, à escrita, ao desenho, ao filme, ou à instalação, plenamente problematizantes da cultura visual e dos pressupostos codificantes que lhe estão subjacentes. Além, claro, da relação, iniciada logo na década de 60, no âmbito das coordenadas artísticas experimentais e de ligação arte-vida amplamente incrementadas pela neovanguarda internacional e pelos seus diversos movimentos artísticos mais específicos. Dedicado ao Desconhecido é uma cuidada exposição em que estas obras respiram e na qual a espacialidade se encontra bem organizada e cadenciada, permitindo ao espectador uma percepção e fruição sofisticada da densa e vasta obra de Susan Hiller. O destaque vai para os postais de tempestades, para as notáveis caixas de luz com símbolos linguísticos ou para a instalação de vários ecrãs com imagens de natureza diversa, inclusivamente, de filmes de culto, como E.T. the Extra-Terrestrial (1982), o famoso filme de Steven Spielberg que marcou uma geração. Susan Hiller transporta-nos para um universo singular e para as suas práticas, cuja materialização esta exposição consegue trazer consigo.
Ali Kazma: Lisbon-Istanbul. Two Portraits on the Edge. Vistas da exposição na galeria Francisco Fino, Lisboa, 2025. Fotos: ©carbonara.st. Cortesia do artista e galeria Francisco Fino.
Rui Toscano, Ra. Vistas da exposição na Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, 2025. Fotos: © Vasco Stocker Vilhena. Cortesia do artista e Cristina Guerra Contemporary Art.
Susan Hiller, Dedicado ao Desconhecido. Vistas da exposição na Culturgest, Lisboa, 2025. Fotos: © António Jorge Silva. Cortesia da Culturgest.
