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Entrevista a Joana Villaverde

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Sérgio Fazenda Rodrigues

Esta entrevista surge na sequência da exposição que Joana Villaverde apresentou no Pavilhão Branco das Galerias Municipais de Lisboa, comissariada por António Pinto Ribeiro, durante o final de 2024 e o princípio de 2025, e visa perceber o percurso da artista, assim como o papel que estas exposição assumiu no desenvolvimento do seu trabalho.

Joana Villaverde frequentou o Atelier Livre / AtRe da Escola Artística António Arroio e o ArCo: Centro de Arte e Comunicação Visual, tendo ainda uma colaboração reiterada (desde 2011) com o Teatro do Bairro, em Lisboa, e a permanência em várias residências artísticas que a levaram de Nova Iorque (Location One), a Ramallah (Qattan Foundation) e a Jericho (European Union National Institutes for Culture). A sua vida passou ainda por Madrid, em colaboração com a Galeria Formato Comodo, e Avis, onde sediou o seu atelier Officina Mundi que, desde 2018, desenvolve uma programação cultural com exposições, conferências e residências artísticas, em estreita proximidade com o município e a comunidade local.

 

Sérgio Fazenda Rodrigues (SFR): Joana, apresentaste o teu trabalho individualmente e de forma colectiva em Lisboa, Coimbra, Madrid, Nova Iorque, Londres, Jericó e São Paulo, entre outras cidades, no que podemos pensar como uma colecção de experiências, em proximidade com culturas e hábitos diferentes. Mencionaste recentemente que a tua vida se pauta pela vontade de contacto e aprendizagem com diferentes pessoas, costumes e modos de fazer, e que isso é, reiteradamente, um motor para a tua produção. Pedia-te que, em termos gerais, explicasses o teu percurso até chegar a esta exposição, e o que é que ela é para ti neste momento.

 

Joana Villaverde (JV): Podia referir tanta coisa e ir por tanto caminho, mas quero apontar a escola António Arroio e o grupo do Atelier Livre: AtRe. Nesses anos, não estando propriamente obcecada com o trabalho, foram as pessoas, os encontros e as conversas que me deram a ver muita coisa. Trabalhava sim, mas de modo livre. De seguida estive no Arco, onde fiz desenho, e depois fui mãe muito cedo, o que de alguma forma me colocou num lugar um pouco diferente dos meus colegas.

A vontade de querer fazer surge, ainda hoje, da mesma maneira, muito ligada à emoção. Racionalmente, sei bem o porquê daquilo que faço, mas penso que tudo contínua a nascer de uma urgência do fazer e do sentir, que se descobre e aclara no decurso do trabalho.

Lembro-me de algo que se passou no ArCo, quando estava grávida e a trabalhar numa longa-metragem em que participei (fui sempre arranjando outros trabalhos para poder pagar as minhas despesas). Na altura, propus-me a uma avaliação externa e lembro-me de uma frase que então me disseram, que ainda hoje ressoa na minha memória: “Nós aqui precisamos que a pessoa tenha disponibilidade total”. Só muitos anos depois percebi como isso, dito numa altura de maior fragilidade, me afectou. E efectivamente eu concordei, sabendo que não ia ter o tempo que gostava, ou a disponibilidade dos outros. Foi uma afirmação desprovida de malícia, mas sinto que ainda agora me acompanha.

 

SFR: Isso é curioso, porque pensando no que agora estás a fazer, com o teu espaço em Avis e a tua produção pessoal, fico com a ideia de que constróis um mundo que te rodeia, vivendo-o a tempo inteiro, com total disponibilidade. É quase como se a vida desse uma volta para algum tempo depois, te colocar no sítio oposto. Através desse lugar, em Avis, e da maneira como ele funciona.

Podes falar-nos um pouco de como foste conduzindo a tua vida, na importância que dás à proximidade das pessoas e a um fazer que respira, naturalmente, uma ideia de envolvimento?

 

JV: Para mim, houve uma exposição (colectiva) muito importante, que foi o projeto Tabaqueira. Tudo surgiu num almoço com o Rui Calçada Bastos, em 1998. Eu trabalhava em casa e pintava as portas do quarto, da sala, da cozinha... Não me fascinava o elemento porta, ou o conceito de passagem, mas sim a utilização de algo que me acompanhava todos os dias. Era, no fundo, uma necessidade intrínseca de pintar, da qual nunca me afastei, que traduzia a vontade de agir sobre aquilo que me rodeava, o meu quotidiano e as pessoas que o preenchiam.

Só fui para a Avis em 2012 e até lá muita coisa aconteceu. Em 2006 apresentei, na antiga Sala do Veado um conjunto de obras onde o meu corpo, deformado, exaltava umas partes em detrimento de outras, numa anatomia mais emocional do que biológica. Lembro-me que o Eduardo Prado Coelho, na altura, escrever sobre a aflição que emergia dessas imagens, onde uma mulher se expõe sem pose.

Em 2010 recebi uma bolsa da Gulbenkian / FLAD e estive no antigo Location One, em Nova Iorque. Sozinha, conheci intensamente a cidade, trabalhei e vivi todas as diferenças sociais e culturais daquele lugar, e isso foi fundamental. O meu atelier era pequeno, ficava na cave e tinha uma relação contraditória com a cidade. A manipulação da escala reflectiu-se no trabalho, pois as pinturas eram muito grandes, do tamanho de toda a parede, mas ficavam num espaço acanhado onde não havia recuo para as ver. E talvez seja melhor falar em desenho de pintura, porque tudo era feito com barras de óleo e, no fundo, tudo era desenhado.

O movimento era também importante. Numa cidade agitada, voltei a fazer um autorretrato, deitada, de cara espalmada contra a parede, sobre o qual surgia a imagem de um senhor muito pequenino, que me fitava. A questão da figuração, que sempre me acompanhou, era importante; foi sendo esse o meu caminho.

 

SFR: Quando referes a rapidez e a dimensão da cidade, o que contrapunhas eram imagens de tempo lento? Figuras reclinadas que apontavam para uma vontade de parar?

 

JV: Era uma mulher deitada, encostada, que mostrava só a cara, mas como o nosso olhar estava tão próximo, quase podia ser uma paisagem. Essas pinturas ficaram lá.

Antes disso fiz ainda uma exposição no Pavilhão Branco, a que chamei Je Vous Garde. O nome foi inventado, mas surgiu de uma frase que Étienne de La Boétie disse a Montaigne, pedindo-lhe, já em leito de morte, que este produzisse e divulgasse os seus textos.

De alguma forma, também quis preservar um conjunto de pessoas que me eram queridas, guardando-as da morte. Escrevi uma carta a cada uma, pedindo que me enviassem uma fotografia do seu corpo despido. Nem todas se conheciam, mas quis retê-las individualmente para depois as juntar numa tela enorme, de oito metros, que expus junto ao chão. Na pintura, suprimi a identificação directa, mas garanti fidelidade à especificidade de cada um. Para mim tinham de ser reconhecíveis, mas para quem visse, nem por isso.

De certa forma, era algo que também prestava homenagem ao teatro (onde trabalhei muito tempo). Lembrava-me aquele instante do final das peças, quando os actores vêm ao palco agradecer, em que as luzes se acendem e já não estamos com as personagens, mas sim com as pessoas. Isso traz-me encanto, mas também constrangimento, porque receio ser vista entre as palmas e a comoção. O resto da exposição era feita de desenhos preparatórios e retratos de outras conivências, como a figura de Walt Whitman, que na altura me pareceu fazer sentido.

 

SFR: Como é que o teatro influenciou o teu percurso?

 

JV: Comecei por fazer uma cenografia para uma peça encenada pelo Ricardo Aibéo, e depois fui fazendo outras, no Teatro da Cornucópia, Teatro do Bairro, na Culturgest e no Teatro Dona Maria II. No catálogo da exposição Je Vous Garde, por exemplo, há um texto do Luís Miguel Cintra.

No fundo, quer no teatro, quer no resto, há uma luta para produzir e depois apresentar. E, talvez por isso, no seio dessa luta, sinto que os artistas estão sempre a pedir coisas e que frequentemente se instala uma ideia de inferioridade, que é injusta. Em Portugal nunca tive galeria e várias vezes pensei que não queria pedir mais nada a ninguém, ou realmente havia interesse pelo meu percurso e o meu trabalho, ou então...

 

SFR: E foi nesse registo que surgiu Madrid?

 

JV: Sim, justamente por não ter retorno enfiei-me num lugar que alugava o espaço à parede, em Madrid e pensei, olha quero lá saber, ninguém me liga aqui, vou pagar e vou expor o que faço noutro lugar. Rapidamente me puxaram e encontrei uma galeria, a Formato Comodo, com quem vim a trabalhar, mas sem deixar de me sentir precária.

A aflição da precariedade é sempre perturbante, mesmo quando te obriga a sair de um acomodamento criativo. No meu caso, creio que esse desconforto me trouxe força, ou talvez raiva, obrigando-me a reagir. Um desconforto que amargura, mas que te traz uma pulsão e te põe a caminhar, a desejar absorver e sentir tudo o que podes. E creio que foi isso que, mais tarde, me levou também à Palestina.

 

SFR: Podes desenvolver um pouco mais a questão da Palestina?

 

JV: A vontade de lá ir surgiu quando estava em Nova Iorque, mas só em 2014, durante dois meses, estive como artista residente na Qattan Foundation, em Ramala. O que me impeliu foi a vontade de conhecer e compreender a dureza daquele local, e a vontade de o viver intensamente. Foi num período bélico que mudou a minha relação com os outros e com o valor da vida. Como estrangeira podia cruzar a fronteira, mas quando surgia um ataque, aquilo encerrava e já não me movia. Ainda assim voltei lá mais duas vezes, primeiro para um workshop em Jericó, pela mão da EUNIC-European Union National Institutes for Culture, e depois para uma conferência sobre Walter Benjamin, em Ramala, na Cisjordânia. Isto resultou numa exposição que apresentei em Aviz e na Appleton, em 2016, donde surgiu também um livro (Animals' Nightmare - Ed. Documenta).

Penso que tudo incidiu na dignidade das pessoas, a luta pela vida e a proximidade da morte. Foi uma experiência que transformou o meu trabalho, na forma como o penso, apresento e desenvolvo, e que me levou a amar aquele local. Tudo isto, para também te falar sobre a ideia de intensidade, que é algo que me acompanha desde sempre.

 

SFR: Dirias que estas experiências se agregam num todo?

 

JV: Sim, de modo até inesperado. A seguir à Palestina atravessei o Oceano Atlântico, de cargueiro, até aos Açores. Queria explorar essa vontade de estar fechada, mas em trânsito, percebendo novamente como as relações entre as pessoas são vitais. Num navio não há maneira de escapar e, curiosamente, isso pareceu-me semelhante ao que encontrei na Palestina. Por outro lado, interessou-me também a possibilidade de pensar a densidade histórica do Oceano, a ideia de carga e as vidas que ali se cruzaram.

Em relação ao que perguntas, dir-te-ia que me importa sempre, muito, a forma como tento estar nos lugares e o comprometimento adoptado. No trabalho, interessa-me perceber o que se gera quando vens de um outro lugar, e que relações empáticas se podem estabelecer. De igual para igual, mas sempre com a noção que não sou dali (nem do Atlântico, nem da Palestina, nem de Avis). Não é pôr-me no lugar do outro, porque sei bem que isso não existe, é apenas estar disponível, de forma inteira.

Por exemplo, quando saí do meu atelier em Lisboa e pensei ir viver para Avis, contactei a Autarquia e tentei perceber se havia algum espaço livre para trabalhar. Com grande generosidade, mostraram-me parte do Convento de São Bento de Avis, que na altura estava entaipado. Isto surgiu num momento em que iam fazer obras e converter o espaço para fins culturais, e como em Lisboa costumava abrir o meu atelier, pareceu-me absolutamente natural retribuir, programando um conjunto de atividades que devolvesse algo à comunidade. Hoje tenho lá o meu atelier, acolho artistas para residência e promovo palestras, apresentações e outras acções que permitem criar laços.

 

SFR: E na tua produção, o que sentes que mudou?

 

JV: O silêncio, o tempo e a pacatez de Avis foram me libertando da figuração, e fizeram-me redescobrir a cor. Tudo isto se entrelaça num imaginário potencialmente paisagístico que é aquilo que ali está, literalmente, à frente dos meus olhos. De certo modo, sinto que este silêncio me dá a disponibilidade para não ter de responder a rigorosamente nada, a não ser ao meu próprio prazer. Por isso a exposição que agora apresentei no Pavilhão Branco se chamava My Pleasure, que é simultaneamente um convite (para entrar) e uma afirmação. Curiosamente, continuo a gerir relações intensas, com algo que é fisicamente exigente, de traço duro, mas sem a raiva que antes tinha no fazer. E isso é uma mudança grande, pois apesar de sentir que está tudo na mesma, está tudo diferente. Dir-te-ia que, se antes procurava o desconforto, agora procuro o prazer, mas ainda com a mesma intensidade e energia.

 

SFR: É interessante, porque agora, depois de procurares cenários de conflito e privação, pareces encontrar uma serenidade qualquer no meio que te envolve, no silêncio e na amplitude da paisagem. Crês que isso surgiu com o sentido da permanência, que também é diferente?

 

JV: É o tempo e o silêncio que me invadem. É o meu tempo, que giro com grande liberdade. Em vez da coisa imediata, dou comigo a pensar que depois já lá vou e isso é um grande privilégio.

 

SFR: É uma condição de total disponibilidade, a tal que apontavas no início da conversa. Lembrei-me do Pedro Morais, do AtRe-Atelier Livre, que dizia que só quando se deixa de procurar é que se pode encontrar.

 

JV: Sim, não estou à procura de nada, nem de transformar ninguém. Não vou transformar o mundo, nem quero. Gostava apenas que as pessoas se sentissem bem com o que ali está e que disso pudessem usufruir, de forma natural. Por exemplo, em Setembro recebi a Vera Mantero e foi bom ver o interesse de quem lá passou, porque era, vincadamente, genuíno. Também gosto de apontar a visita surpresa de um grande grupo de pessoas de Avis à exposição do Pavilhão Branco, que foi verdadeiramente comovente. Não sei se vem de uma permanência mais prolongada, como referes, mas vem certamente de relações que se estabelecem com outra noção de tempo.

 

SFR: Olhando agora para esta última exposição, como é que ela surgiu?

 

JV: Surgiu de uma proposta que apresentei à EGEAC, em 2022/23, quando estive uma semana a apresentar o meu trabalho no atelier de um amigo, em Lisboa. Foi um processo fluido, na continuidade do que então estava a fazer. Na altura, apercebi-me da questão do fundo e das camadas da pintura, que são centrais na história da arte, mas considerei principalmente a importância do vazio.

Importa-me referir a pintura O Baloiço (L'Escarpolette; 1766) de Jean Honore Fragonard, e a vontade de desmantelar a figura da menina que baloiça. Interessa-me a forma como a mancha colorida do vestido, do sapato e das arvores prometem agilidade e libertação, podendo soltar a composição. No meu caso, é aí que o gesto se desprende e larga a figuração (que antes me era tão importante). O vazio assemelha-se a um buraco de luz, engolindo as manchas que, de alguma forma, perdem o contorno.

 

SFR: É interessante a referência ao universo de Fragonard que, neste caso, traz à memória a teatralidade do movimento e da composição. Lembro-me, a propósito disso, de uma das tuas anteriores pinturas que sugeria a presença de uma moldura ou de um recorte para esse vazio. Pretendes que esse vazio, que gravita entre o fundo e a superfície, desmantele o limite?

 

JV: Sim, mas mais do que gravitar, é algo que eu vejo como um mergulho. É a abertura de um espaço, com uma luz e uma porosidade especial que se desenvolve daqui para lá, em direcção ao interior da pintura. É ela que passa a ditar as coisas e é lá que eu gostava de poder ficar.

 

 

Joana Villaverde

 

Pavilhão Branco

 

 

 

Sérgio Fazenda Rodrigues é Arquitecto e Mestre em Arquitectura (Construção), foi doutorando em Belas Artes e é doutorando em Arquitectura, onde investiga as relações espaciais entre Arquitectura e Museologia. Faz curadoria de arquitectura e artes visuais e integrou a direcção da secção portuguesa A.I.C.A. Desenvolveu, com João Silvério e Nuno Sousa Vieira, o projecto editorial Palenque. Foi consultor cultural do Governo Regional dos Açores, tendo a seu cargo, nesse período, a construção da colecção de arte contemporânea do Arquipélago: C.A.C. É fundador, director e curador de Kindred Spirit Projects.

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.




Joana Villaverde, My Pleasure. Vistas gerais da exposição no Pavilhão Branco, Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Galerias Municipais de Lisboa.


Joana Villaverde no atelier em Avis. Cortesia da artista.

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