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Carta a um amigo

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Eduarda Neves

 

o gosto dos outros

 

 

Se não escreves contra ti não escreves nada. O diabo só tem a importância que lhe atribuímos.

E o meu mestre é uma andorinha.

Christian Bobin

 

 

Já não te escrevo, querido amigo, há quase um ano. Por todo o lado parece que nada funciona. As desigualdades aumentam, o capitalismo neoliberal engole os modos de governo democrático e os movimentos de protesto não chegam a durar muito. Continuaremos a não compreender problemas seculares como a guerra, a exploração, o fascismo, a violência e todas as formas de barbárie. Este ano estive duas vezes em Paris. Vi algumas exposições, das quais já te falarei. Neste momento é, sobretudo, a imagem de um sem abrigo a retirar e comer cascas do tronco de um carvalho, numa das longas avenidas parisienses, que invade a minha memória. Tudo isto poderia ter ocorrido em qualquer lugar do mundo. Deve ser isto a globalização. A falha ontológica também é global — cada vez mais temos a certeza de que não passamos de uns fracassados.

Posso dizer-te que ainda tenho emprego. Porém, li na comunicação social que uma empresa de Call Center encerrou e os funcionários foram despedidos por videochamada. As redentoras plataformas digitais — que apenas obedecem às práticas políticas e à elite económica dominante — acentuam a falta de coragem e de ética. Disse o CEO da empresa que este despedimento colectivo foi realizado em conformidade com a lei. A agitação nacional em torno desta miséria foi praticamente nula. Tudo acaba normalizado. No fim de cada dia de trabalho o valor deste é sempre menor que ao início. Contestar, deixou de ser um gesto fundamental. Tenho notado que quando tal ocorre, neste país que não é o teu, são as variáveis do narcisismo que se personificam em falsas reivindicações, manifestações de rua, criação de novos jornais que apenas ocultam os interesses pessoais. Os mercados mundiais e a distribuição capitalista circulam através dos nossos corpos, modelam as nossas pulsões individuais e colectivas. A eles estamos tão subordinados como dois terços da população mundial já não sobrevive sem o fluxo de capital que se perpetua num desdobramento infinito.

No campo da arte, querido amigo, é apenas o mercado que beneficia da já standardizada noção — Carte Blanche.  Para o mundo das vendas e dos leilões a carta branca sempre existiu, mesmo antes de ser nomeada. A crítica da arte como qualquer outra forma de pensamento sobre arte parece cada vez mais não ter qualquer significado e o texto funciona como elemento decorativo. É ainda, e por isso mesmo, que uma prática crítica forte é cada vez mais importante. Na Fundação Calouste Gulbenkian de Paris, no âmbito da comemoração dos dez anos da revista Contemporânea e de uma conversa pública com a Sílvia Guerra, tivemos oportunidade de defender que a crítica não só não morreu como é cada vez mais necessária. Descobri, nesta viagem, a revista MAY. Por aqui também não há facilidades, apenas trabalho sério, rigoroso e comprometido. A directora, presente na sala, interveio no final para connosco reflectir sobre questões editoriais e as imensas dificuldades associadas — lá, como cá, a liberdade tem um valor económico e o medo de tomar posição, a dificuldade em produzir textos reflexivos, expandiu-se mais rapidamente que a promessa salvífica dos missionários da internacionalização da arte.

Querido amigo, tive ainda a oportunidade de conhecer o Atelier 11 da Cité Falguière, espaço que Modigliani, Soutine, Gauguin e Brancusi, entre outros, ocuparam quando chegaram a Paris. Atravessei os locais que os situacionistas calcorrearam nas suas derivas e as casas nas quais Daumier, Baudelaire, Nerval, Bernard, Camille Claudel ou Blum, viveram durante algum tempo das suas existências. Como sabes, não aprecio viajar mas creio que é fácil compreender que nestas derivas — assim acompanhadas — se produz uma espécie de Einfühlung e uma intensa abertura ao mundo. Um encontro silencioso, sem qualquer necessidade de astúcia ou cedência. Nenhum lugar para o sensacionalismo. Apenas a sombra dos passos daqueles que admiramos. Durante algum tempo das nossas vidas acreditamos que a arte ainda poderá impedir o colapso das nossas pequenas crenças. Afinal nunca estamos sós, mesmo quando nos invade a erosão da voz de Jim Morrison quando canta :

 

People are strange
When you're a stranger
Faces look ugly
When you're alone

 

No Centre Pompidou a ostentatória exposição de Wolfgang Tillmans — Rien ne nous y préparait, Tout nous y préparait. É, literalmente, querido amigo, um exibicionismo de aparente democratização alargada aquilo a que assistimos na Bibliothèque publique d’information. Como sempre, a técnica embelezada e imagens revestidas de um activismo fashion a servir os modelos oficiais. Um Tillmans de líricas ambições morais preocupado com as importantes questões de ontem e de hoje — da ecologia aos múltiplos, do corpo à arquitectura, do quotidiano à moda, das ONG às obras de artistas que apoiou, dos editoriais à espiritualidade, da página impressa à informação, da guerra aos memoriais, da imagem fixa à imagem em movimento, da astronomia à realidade numérica, do consumo ao estado das coisas. Sim, estávamos preparados para isto pois talvez não esperássemos mais que isto — de uma biblioteca transformada num menu multissensorial através da qual circulam os temas hiper-visíveis da indústria da arte sob a aparência de uma crítica radical de fabricação estetizada. Uma exposição que aspira à condição de obra de arte total. No entanto, a vontade manifesta de tudo convocar axiomaticamente a uma espécie de bem público, converte o espaço expositivo num mero significante formal que apenas veicula a máquina instrumentalizada das falsas evidências. Comunicação publicitária a mais e arte a menos.

Não se trata de uma retrospectiva porque aspira a ser mais que isso, propõe-se como  encenação da eternidade. Assim se converte o artista num representante legítimo do imperialismo simbólico. Nas suas palavras, “A história não se anuncia, a história é agora” — ora, o que esta exposição parece exactamente anunciar no modo do “agora” é a narrativa e consagração histórica do percurso do seu autor até aos nossos dias. Entre Chronos e Kairós, Tillmans sabe aproveitar o momento oportuno e a estratégia do sucesso — com os altos patrocínios do mercado de luxo CELINE e o grupo financeiro internacional, com sede em Genève, MIRABAUD. Tudo sustentável, claro está.  

O Centre Pompidou encerrará durante cinco anos para obras de renovação com a apresentação de quatro décadas da prática de Tillmans que, dialogando com a história material da biblioteca, opera para si mesmo, por identificação, a transferência simbólica do enciclopedismo.

Querido amigo, eis que, na Bourse de Commerce/Pinault Collection, sou confrontada com uma obra que ainda não tinha visto — o surpreendente filme-instalação, AGHDRA, de Arthur Jafa. O ritmo das vozes e músicas afro-americanas que acompanham a agitada massa de ondas negras de um oceano contaminado — e em cuja linha do horizonte ainda nos é permitido descobrir de maneira ténue a presença do Sol — projectam-nos num universo distópico no qual já pouco parece sobrar para todas as espécies. O filme, que nos vai mostrando através de vários ângulos e sonoridades uma paisagem marítima agonizante,  enuncia o sentido polissémico da “Negritude”. Existência e Ecologia, “mais um organismo do que um filme”, nas palavras do próprio artista. A envolvência fílmica, grandiosa e emotiva que a obra convoca, produz uma aproximação crítica que não transforma o artista em consciência representativa ou instância superior de emancipação. Não há lugar para o abandono da autonomia da arte, a obra não se dilui na ilustração da denúncia social ou na reprodução das críticas que o sistema já edificou. A desordem individual não se limita a imitar a desordem social — um artista é um artista, é um artista, escreveu Joseph Kosuth.

Quando cheguei à cidade do Porto, neste país que não é o teu, ainda consegui ver o filme Sirāt, de Oliver Laxe, um cineasta que gosta do Corão e techno. Quando o filme acabou fiquei a pensar que a vida talvez seja a nossa grande rave no deserto, atravessado por figuras beckettianas e andarilhos nietzschianos. Nunca é tarde para embarcar no místico comunitarismo de transcendência grupal e PLUR ou, aventura maior, ter a coragem de avançar no desconhecido com a mesma vontade de quem se dirige para o imprevisível. É aqui que algo de grandioso e difícil é conseguido por um mortal. Um exercício de sabedoria que nos prende ao écran. O que pode acontecer a quem nada mais espera do mundo nem de si próprio? Apenas explodir num curto lapso de tempo. No deserto. No ar. No céu. Súbita e inesperadamente. Dançar a morte, dançar com a morte ou continuar a viver, mesmo que a Terceira Guerra Mundial se faça ouvir ao longe na cumplicidade de um filme. Sofremos com a vida que pára, com o combate que ainda nos sussurra aos ouvidos, com todos os dias que são muitos dias, dias a mais, por vezes. Como o iaque de que nos fala Werner Herzog na sua autobiografia, a vontade que nos assalta é deixar de ser animal de carga, abandonar o fardo e correr em direcção à liberdade.

Entre as supostas preocupações cívicas de Tillmans e a Cantina Social onde almocei em Paris, frequentada maioritariamente por artistas, escolho esta última. E paga-se bastante menos. Como sabes, querido amigo, para as marcas glamourosas e os banqueiros só existe o que serve os seus lucros espectaculares e as forças do mercado. Lá, como cá, as relações entre as estruturas territoriais do poder e a lógica capitalista são bem cultivadas. Tanto activista que emerge diariamente contra todas as formas de opressão e acções extractivistas mas com estilos de vida que simulam os da alta finança. Não é apenas uma certa classe operária que aspira à condição burguesa. Alguns artistas validam curadores e espaços expositivos tendo como único critério questões de mais-valia. Talvez essa escolha seja a mais ajustada ao encobrimento do vazio artístico da obra produzida. Operação de troca de capitais ou, se preferirmos, circulação de dinheiro, negócios. Nenhuma estranheza, nenhuma violência se apodera daqueles usuários. Apenas adestramento. Como disse Marx, a liberdade começa onde acaba a necessidade. Querido amigo, é o gosto dos outros.

 

Eduarda Neves é professora, ensaísta e curadora independente. A sua actividade de investigação e de curadoria articula os domínios da arte, filosofia e política.

 

A autora escreve segundo o anterior acordo ortográfico.

 

 

Imagem: Arthur Jafa, AGHDRA, 2021 (film still). Cortesia do artista.

 

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