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Alice dos Reis: finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2025

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Paula Ferreira

Uma alma se prepara para a próxima reencarnação, a sua voz é um eco projetado no vazio. Uma presença sem corpo, um nada — I am nothing, conclui. Em retrospectiva, reconta as vivências da última corporalidade que assumiu na terra, era uma freira que mapeava as estrelas do céu a partir de impressões sobre placas de vidro, frutos do recente desenvolvimento da tecnologia fotográfica. Um fluxo de imagens acompanha a sua narração; por vezes, são ilustrações da narrativa, em outras são representações indiretas ou, então, são apenas luzes iridescentes que compõem um quadro colorido, como fugas do sol a incidir sobre a película cinematográfica. São todas imagens cujo semblante opaco determina um limiar entre a experiência onírica, a projeção de uma fantasia e as lembranças de um tempo passado. Escapam sempre à tangibilidade. Ao irromper no discurso da voz, não se deixam situar em um ponto fixo da História: a freira e as suas colegas de profissão possuem uma linguagem corporal abertamente descontraída; em um jardim, fumam e recostam a cabeça umas nos ombros das outras; bocejam displissadamente entre uma anotação acerca dos pontinhos da nova cartografia estelar e outra; não parecem esboçar a rigidez da disciplina religiosa em nenhum de seus gestos.

No filme Oh Be a Fine Girl Kiss Me, está novamente a imbricada relação entre ficção e realidade, já assente no trabalho artístico de Alice dos Reis. O ponto de partida para o filme, e para toda a efabulação apresentada na corrente edição dos prêmios da Fundação EDP, é um acontecimento histórico, mas a sua maneira de abordá-lo é através da especulação, com um dado grau de registro autobiográfico — como tem se tornado frequente na prática da artista. A história original conta que, em 1887, na França, foi iniciado um ambicioso projeto que tencionava realizar o mapeamento fotográfico completo do céu, intitulado Carta do Céu. Passadas décadas desde o seu fim “melancólico”, é possível uma análise crítica acerca do seu caráter tecnocrata e das suas obscuras ambições políticas — além do seu colonialismo implícito, uma vez que as diretrizes oficiais restringiam a escolha dos equipamentos utilizados, determinando que fossem adquiridos exclusivamente da França e da Inglaterra, apesar das atividades serem desenvolvidas em diversos países, inclusive no sul global1. À artista também parece interessar o resgate desse episódio histórico através de uma perspectiva crítica, porém voltada antes ao papel fundamental que as mulheres aparentemente desempenharam no projeto, especificamente dentro do observatório do Vaticano.

“Máquinas de Deus” foi o nome dado às quatro freiras (Concetta Finardi, Emilia Ponzoni, Luigia Panceri, Regina Colombo) que acabaram por catalogar 40 mil estrelas ao longo de dez anos. A uma delas pertence a presença anímica que está prestes a retornar à terra e que, dessa vez, coincidirá com o ano e local de nascimento de Alice dos Reis. Nascerá em Lisboa, em 1995, com um espírito otimista de um tempo pré-crise. Prevendo, ou especulando sobre, o futuro, a alma cogita tornar-se uma coder, profissão talvez não tão distante da que teve na última encarnação, quando também era chamada “computadora”, por computar as informações lidas no céu. Essa sobreposição temporal não é mero artifício retórico na obra da artista, mas antes uma estratégia para desnudar as imbricações da História, revelando a repetição de padrões, descortinando os sistemas que, em diferentes graus, têm condicionado a vida e o tempo nas sociedades, apontando para a falácia tecnocrata e tornando visíveis os ciclos de opressão que atravessam a história mais recente da humanidade.

Fazer confluir passado, presente e futuro em narrativas que confundem o acontecimento histórico com o ficcionado é uma maneira de tornar palpáveis as preocupações centrais de sua obra, que vão desde à biopolítica e o controle dos corpos (com ênfase nos designados femininos e aos considerados dissidentes do binarismo de gênero); aos sistemas de crença e de ordem que regem e condicionam as sociedades no Ocidente, pelo menos desde o início dos cercamentos na Europa; à relação entre tecnociência e a reprodutibilidade dos corpos; até à ficção científica como linguagem. Como no conto molussiano de Günther Anders2, em que um gnomo cura um homem cego não ao curá-lo de sua cegueira, mas ao retirá-lo a consciência de saber-se cego, o que Alice dos Reis parece querer é o contrário. Ao “curar” a História através da ficção, acaba por revelar os seus vícios.

Como uma espécie de contínuo narrativo, a artista alia à sua produção filmográfica outro suporte para fabulações: a tapeçaria. Em Freiras caminham de madrugada, meio-dia, crepúsculo e noite, há uma peregrinação das figuras representadas que também se encerra, ou melhor, se expande na ciclicidade do tempo. Nas pequenas narrativas integradas ao tear, não é possível designar o que vem primeiro, o dia ou a noite — nem mesmo pela ordem que cada quadro é fixado à parede. Não há antes e nem depois, apenas passos que seguem-se uns aos outros. É uma romaria de freiras e gatos, alguns desses corpos estão grávidos, apesar da sua vocacional esterilidade. Juntes caminham para o destino final, ou ponto de partida: um objeto que, assim como as estrelas mapeadas, vem do céu.

 

 

Alice dos Reis

MAAT

 

Paula Ferreira é escritora, fotógrafa e pesquisadora independente. Nascida em São Paulo, atualmente vive em Lisboa. É pós-graduada em Fotografia pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e em Estética pela FCSH NOVA. É fundadora de Aos Cuidados, projeto que abrange publicações impressas, exposições e workshops dentro de temáticas relacionadas ao acesso à saúde e aos direitos aos cuidados, sempre por uma perspectiva feminista, interseccional e transdisciplinar. Em 2023, realizou a curadoria da exposição Bandeira Branca, na Galeria Irmã Feia, e o ciclo de cinema Escrever a Liberdade, no Museu do Aljube. Foi assistente curadora na Anozero: Bienal de Coimbra, edição de 2024.

 

Este texto foi escrito em português do Brasil.

 

Vista da exposição © Bruno Lopes. Cortesia de MAAT/Fundação EDP.

 

 

 

Notas:

1https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-19052023-155308/publico/2023_RafaelLuisdosSantosDallOlio_VCorrig.pdf 

2 https://www.e-flux.com/journal/147/625279/unworldliness-a-pathology-of-humankind-on-gunther-anders-s-negative-anthropology/ 

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