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Vasco Futscher: Volte-Face

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Carolina Quintela

No desenvolvimento do trabalho de um artista, podem ser identificados importantes ciclos de estudo, preparação e experimentação. Estes ciclos podem também compreender uma pesquisa teórica extensa e aprofundada, práticas experimentais e uma exploração criativa, através das quais o artista reflete, testa e define a sua visão. Durante este processo, surgem inevitavelmente novas abordagens e respostas estéticas que, ao longo do tempo, moldam e amadurecem o corpo de obra, evidenciando um renovado compromisso com a expressão artística, única e irrepetível. Vasco Futscher, artista português nascido em Lisboa, em 1987, integra a investigação teórica e o desenho como partes fundamentais no desenvolvimento e apresentação dos seus objetos escultóricos, em cerâmica. Numa longa conversa no seu atelier em Lisboa, a propósito da sua mais recente exposição individual, Futscher assume entender agora o distanciamento necessário para apreender a dinâmica cíclica, autorregeneradora e até autorreferencial que identifica como estruturante no seu trabalho. É certo que alguns processos requerem bastante mais tempo que outros, porém este entendimento não surge apenas como consequência do tempo de conceção que esta exposição implicou, mas também por, ao refletir sobre todos estes anos em atelier, perceber que tem vindo a explorar ideias que surgem recorrentemente e o acompanham, emergindo naturalmente ao longo do tempo. Como um eterno retorno, esta manifestação que se revela à medida que o trabalho avança, traz à luz pistas ou indícios que, de forma orgânica e quase intuitiva, se vão materializando nas suas obras. Por outro lado, e consequência desse histórico de investigação, é também visível que a obra deste artista opera numa dimensão de síntese, onde cada peça envolve um conjunto de ideias e formas que se vão esclarecendo e depurando, fazendo permanecer apenas o que é realmente importante. Paralelamente, o processo artístico de Futscher implica também um profundo conhecimento plástico e técnico do barro e da argila, material que privilegia assumidamente, desde sempre, nas suas obras. Este material, que existe num contínuo desde a lama até à porcelana, conserva uma extensa plasticidade ao mesmo tempo que permite atingir níveis surpreendentes de resistência. Cerâmicas, uma série de esculturas apresentada no Módulo Centro Difusor de Arte, Lisboa, em 2014, é um exemplo evidente do aprofundado estudo sobre este material. O conjunto de objetos escultóricos, de média dimensão, sobre plintos individuais entrecruzavam linguagens estéticas e formais que iam desde o ornamento ao artefacto. Como uma exaustiva demonstração dos múltiplos caminhos para a criação de peças em barro, Futscher procurou “catalogar” e explicitar todas as formas que considerou serem as menos expectáveis no uso deste material. Ainda a partir da tentativa de suprir os limites da cerâmica e o uso de uma complexa mistura de barros, colorações e diferentes texturas, as obras apresentadas em exposições como Instruction Manual, 2017, ou Masks, Tables and Losse Birds, 2019, exploravam, por outro lado, a criação de elementos abstratos sobre os quais se perde a noção da sua origem, aspeto abstratizante ao qual se tem vindo a dedicar.

Este vasto conhecimento e incessante busca pela compreensão da linguagem intrínseca da cerâmica, partindo de um decurso de tentativa-erro, carateriza um dos aspetos mais cativantes da obra de Futscher: a assunção e a integração do defeito ou da imperfeição como valor plástico. Durante o processo criativo acontecem uma série de imprevisibilidades que são, para este artista, essenciais e cada passo desse processo é constituído por um conjunto de causalidades, como o calor a que o barro é sujeito, o imprevisto do fogo e a iminência de derretimento, múltiplas reações e possíveis rachaduras. Futscher aceita esses riscos e integra-os, assumindo uma gestualidade que é também por si dúctil, moldada pelo acaso e pela espontaneidade. Dentro dessa aceitação e a busca pelo inesperado e pela riqueza que isso pode representar, não se prende no controlo do resultado ou em acabamentos expressivos, interessando-se sim pela amplitude de possibilidades. Nesse sentido, quer explore formalmente monumentos, ruínas, mecanismos, conceitos matemáticos como a topografia ou experimente diferentes escalas, o que orienta este artista é a celebração plástica da natureza do material e de todas as suas potencialidades.

A verdade do material, designação que parte do conceito estético e filosófico que se consolidou no contexto do modernismo no início do século XX, defende a valorização da honestidade dos materiais e o seu uso de acordo com as propriedades naturais, sem tentar disfarçar ou imitar qualquer outro material. Este conceito ampliou-se no seguimento da própria abertura que a arte contemporânea propõe, tornando-se multifacetado e, muitas vezes, subversivo. Enquanto no modernismo a honestidade e a autenticidade no uso dos materiais era valorizada, a arte contemporânea explora tanto a sua revelação, quanto a crítica dessa verdade, colocando a materialidade no centro de debates estéticos, sociais e políticos, que inclui questões culturais, ambientais e tecnológicas. Neste sentido, Vasco Futscher é um artista que se interessa por trabalhar num plano exploratório, conduzido pela evidencia daquilo que constitui a matéria e não pela sua encenação, camuflagem ou ilusão. Ainda que a cerâmica tenha uma limitação de escala, faz por trazer à realidade novas e inesperadas interrogações a partir das quais procura perceber como a matéria pode ser trabalhada, a convivência no espaço e a volumetria.

 

3.Cerâmicas, 2014 © Alexandre Camarão
1.Cerâmicas, 2014 © Alexandre Camarão
2.Cerâmicas, 2014 © Alexandre Camarão
4.Cerâmicas, 2014 © Alexandre Camarão
5.Manual de Instruções, 2017 © Marco Pires
8.Manual de Instruções, 2017 © Marco Pires
7.Manual de Instruções, 2017 © Marco Pires
6.Manual de Instruções, 2017 © Marco Pires

 

Volte-Face

Na exposição que se encontra atualmente no Ar.Co: Centro de Arte e Comunicação Visual, em Xabregas, Lisboa, Vasco Futscher explora o seu interesse pelo elemento e pela incapacidade generalizada de apreensão do todo, pela linha e a repetição, pelo movimento rítmico e o vazio. Ao entrarmos no espaço expositivo deparamo-nos com Elipse, a obra central e amplamente vazada constituída por um conjunto de tijolos industriais, empilhados e dispostos numa linha elíptica que se ergue verticalmente e ocupa grande parte do espaço. O tijolo, que encerra em si um inegável universo de caraterísticas e simbolismos, é o elemento primordial que representa a base, a construção e a criação de algo duradouro, a capacidade humana de moldar o ambiente, intimamente ligado à terra. Esta fortaleza de tijolos, apesar do material usado e a escala que adquire, parece ir muito além de um comentário ou um pensamento circunscrito à arquitetura, uma vez que convoca a subjetividade latente num duplo vazio. O intervalo existente entre os diversos tijolos dispostos equidistantes e numa trama que forma uma parede, em si individualmente estruturas vazadas, abre uma janela para o interior do espaço que alberga e constitui simultaneamente. Esse espaço interior e fisicamente inacessível encerra o duplo vazio — lugar vazado constituído por estruturas ocas — podendo apenas ser habitado pelas “formas da imaginação, criaturas humanas ou não, quiméricas”, como Bernardo José de Souza propõe na folha de sala que acompanha a exposição. Esse lugar visível, mas não acessível é, deste modo, apenas transposto como experiência pessoal fantasiosa.

Esta peça modular de grandes dimensões, pensada para ser apresentada neste espaço e que constitui ela mesmo um novo espaço, é simultaneamente um templo e um muro que obriga o espetador ao movimento assim como à reflexão sobre o seu próprio movimento. Não apenas porque é necessário contornar fisicamente para a tentar apreender na sua totalidade, mas também por convidar ao olhar atento sobre o detalhe e o elemento individual. Este elemento, que é um tijolo fabril, é composto de movimento, resultado da extrusão e cortes rítmicos certeiros.

Praticamente tudo o que existe, produzido pela mão humana, é resultado deste processo de extrusão mecânico em que um elemento é moldado pela ação combinada de tensões, tração e compressão. O que faz com que a peça adquira o formato desejado é a resistência imposta pela matriz — o molde — à passagem do material maleável, num processo de conformação. Esta ideia de continuidade, uma linha que podia não ter fim, surge igualmente jacente no entorno da obra central. Onze tubos coloridos, todos intitulados Volte-Face, extrudidos sob vários formatos, em vários tipos de barro e texturas parecem dar corpo a essa “mudança de direção” enunciada no título. As obras pousadas diretamente no chão são resultado desse mesmo processo de extrusão, mas neste caso sob um molde desenhado pelo artista que controla assim o seu formato e extensão. Contrariamente à rigidez da fábrica e dos mecanismos industriais, estes elementos são potencialmente infinitos e únicos. Por outro lado, sendo imaginária a ideia de contínuo, estes elementos são um espelhamento dos tijolos, a sua contradição e potência sustentada pelo gesto ativo criador do artista.

Ainda que o trabalho de Vasco Futscher não aponte a nenhuma definição específica, apresenta-se enquanto abertura a múltiplas leituras, que podem ir desde a tendência que a sociedade atual tem em construir muros e em se dividir, como a constatação da predisposição que existe para olhar o todo em detrimento do detalhe, escapando-se a delicadeza da sua descoberta. Esta exposição resulta assim do fascínio do artista pelos mecanismos de produção e da tentativa de compreender e representar como as coisas são realmente concebidas. Paralelamente, em Volte-Face parece ser a primeira vez que assistimos a um aumento significativo de escala na obra de Futscher, que poderá eventualmente anunciar um ponto de viragem. Enquanto exercício retrospetivo e distanciado sobre o desenvolvimento do seu próprio trabalho, não deixa de ser curioso o uso do tijolo, já que pode simbolizar tanto o ato de construir como o de resistir, aspetos essenciais à prática artística.

 

Vasco Futscher

 

Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual

 

 

 

 

Carolina Quintela (1991), curadora. É licenciada e mestre em Escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, e pós-graduada em Curadoria e Programação das Artes pela Universidade Católica Portuguesa. Desde 2015 que se dedica ao desenvolvimento de projetos curatoriais, investigação e produção de textos. É Curadora e Investigadora do MACAM: Museu de Arte Contemporânea Armando Martins.

 






Imagem de capa: Vasco Futscher, Volte-Face. Vista geral da exposição no Ar.Co Xabregas. Foto: Carbonara Studio. Cortesia do artista. 

Primeiro slideshow: Vasco Futscher, Cerâmicas, vistas gerais da exposição no Módulo Centro Difusor de Arte, 2014. Fotos: Alexandre Camarão. Cortesia do artista. 

Segundo slideshow: Vasco Futscher, Instruction Manual, 2017 vistas gerais da exposição. Fotos: Marco Pires. Cortesia do artista. 

Vasco Futscher, Volte-Face. Vistas gerais da exposição no Ar.Co Xabregas. Fotos: Carbonara Studio. Cortesia do artista. 

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