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Intimidades em fuga. Em torno de Nan Goldin

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Isabel Nogueira

 

A exposição em torno de Nan Goldin (n. 1953) que agora se apresenta no Museu de Arte Contemporânea MAC/CCB, com curadoria de Nuria Enguita, parte da magnífica série fotográfica The Ballad of Sexual Dependency, produzida entre 1981 e 1996, cujo título foi retirado de A ópera dos três vinténs, de Kurt Weill-Bertolt Brecht, e que originou o seu primeiro livro de fotografia. Nan Goldin é conhecida por utilizar o dispositivo fotográfico como meio de ligação estreita entre as suas próprias vivências e a arte que produz, numa imediatez e realismo de aproximação directa e singular à vida. Referimo-nos a fotografias autobiográficas, porque se verifica a coincidência entre autor, narrador e personagem.

Nan Goldin cresceu numa família judia de classe média de Boston. O suicídio da sua irmã marcá-la-ia profundamente quando tinha apenas onze anos de idade. Em 1968, um professor da escola introduziu-a à fotografia. Em 1973, faria a sua primeira exposição individual, em Boston, baseada nas suas jornadas fotográficas pelas comunidades LGBT da cidade. Goldin formou-se na School of the Museum of Fine Arts, de Boston, em 1978, mudando-se de seguida para Nova Iorque. Começou então a documentar o cenário “new wave” e “pós-punk”, simultaneamente à comunidade LGBT, no final da década de 70 e início da década 80. Goldin retrata a intimidade, muitas vezes auto-representando-se. No recente documentário All the Beauty and the Bloodshed (2022), de Laura Poitras, a vida e obra de Goldin surgem ligadas num todo notável. Neste mesmo documentário, é também abordada a série em questão e a sua contextualização.

Em The Ballad of Sexual Dependency Goldin retrata os seus amigos e a si própria na vida boémia e viva da baixa nova-iorquina, mas também os amigos que contrairam o vírus HIV-SIDA, inclusivamente, alguns no leito de morte, ou ainda cenas de violência doméstica, relações sexuais, etc. Goldin descreveria esta série do seguinte modo: «The Ballad of Sexual Dependency é o diário que eu deixo as pessoas ler. Um diário é a minha maneira de ter controle sobre a minha vida. Permite-me registar cada detalhe. Permite-me recordar». Charlotte Cotton escreveu (The Photograph as Contemporary Art, 2009: «The Ballad of Sexual Dependency trouxe a intensidade da sua criação prolífica de imagens para uma audiência mais vasta». Este ponto é relevante, na medida em que a artista mostra ao público a sua intimidade, sob forma de fotografias intensas, coloridas e vibrantes.

Uma das pessoas representadas na série, como seria expectável, é o seu companheiro da altura, Brian, que a artista retrata amiúde, sempre em tom íntimo, fazendo-se representar muitas vezes com ele. Aliás, é precisamente uma fotografia com Brian em primeiro plano que se encontra na capa do livro The Ballad of Sexual Dependency. A relação entre Nan e Brian é descrita como apaixonada, tumultuosa, às vezes violenta, e durou entre 1981 e 1984, altura em que terminou quando, durante uma viagem a Berlim, Nan Goldin seria brutalmente espancada por Brian num quarto de hotel, partindo-lhe alguns ossos na face. Agrediu-a na zona dos olhos, segundo Nan, para que ela, fotógrafa, deixasse de ver. Afirmou isto no documentário de 2022.

As fotografias imediatamente após a agressão são impressionantes. O olhar é triste e a imagem impactante. Verifica-se algo de expurgatório, entre a revolta e a aceitação, ao mesmo tempo. Nas duas imagens mais próximas do acontecimento, as cores são ténues, opalinas. Uma é tirada à sáida do hospital; a outra ao espelho do quarto de hotel. A imagem mais forte e também a mais conhecida — e que se encontra na exposição em causa — é a que se reporta a um mês após a agressão. Nan Goldin tem as marcas ainda na cara e um olho com um grande derrame. O fundo é verde acinzentado e ela está maquilhada, o que torna a sua face ainda mais estranha e dramática e percebe-se que está vestida para sair.

A exposição que agora se apresenta dispõe um número considerável das imagens desta série ao longo de um corredor avermelhado, o que funciona bem, evidenciando a força das imagens e até uma eventual possibilidade cinematográfica, ao serem percorridas, como num travelling, à medida que se percorre o corredor em questão. O próprio tamanho, quase de porta-retratos, das fotografias confere uma possilidade intimista e intensa na sua visualização, como se, de repente, estas personagens nos pudessem ser familiares. O intimismo centrípeto que estas imagens incorporam não se coaduna, contudo, com o diálogo proposto com outras peças de vários artistas, independentemente da sua qualidade, e que acompanham longitudinalmente a parede dedicada a The Ballad of Sexual Dependency, série que requer concentração, intimidade e silêncio, capazes de gerar fruição estética e emoções humanas. A intimidade, independentemente de tudo, é um lugar de concentração.

 

Nan Goldin

MAC/CCB

 

 

Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia. 

 

 








Intimidades em fuga. Em torno de Nan Goldin. Vistas gerais da exposição no MAC/CCB. Fotos: António Jorge Silva AJS. Cortesia da artista e MAC/CCB. 

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