11 / 61

Carta a um amigo

woman-tussles-with-south-korean-soldier-1-7133342-1733328918347.jpg
Eduarda Neves

 

viajaremos sem glória, aguardam-nos todas as manhãs do mundo

 

Querido amigo, só agora — quando nos aproximamos deste final de ano — consegui encontrar algum tempo para te escrever. Uma certa nostalgia permanece após bastante trabalho e muitas aventuras com um grupo de artistas nas cidades de Madrid, Rabat, Marraquexe e Amesterdão, entre os meses de Setembro e Dezembro. É apenas agora, diante das obras por eles produzidas em condições e espaços expositivos singulares, que reconheço a possibilidade de ainda existir no mundo da arte lugar para desobedecer à carreira e à celebridade pop. Quando o espectáculo controla a vida, escolhemos as hesitações e, palavra fora de moda, a liberdade.

Neste país que não é o teu, a Arte pela Democracia tornou-se a mercadoria total. Desde o ano anterior e durante todo este ano comemoram-se revoluções, personalidades e direitos a favor da democracia. Conferências, exposições, concertos, debates, filmes. Todos se propõem reforçar a construção da democracia com milhões de euros. Tudo bastante interseccional, comunitário, participativo e resistente. A sombra de Theodor Adorno recorda-nos que quando a arte se deixa de opor à realidade empírica torna-se parasitária, assumindo-se, ela própria, como realidade que se propõe substituir a do exterior. Assim é, querido amigo, que a cultura acaba a transformar-se no próprio conteúdo da arte. Alguns intelectuais, artistas, gestores, políticos, administradores, conciliam afinidades nesta fórmula comum da benfeitoria massificada, inofensiva e tolerante. O neoliberalismo torna gratificante esta modalidade propagandística de celebração que satisfaz a boa consciência, mantém a ordem e promove o negócio — a arte calendarizada e pré-determinada, assimilada pelas instituições, além de contribuir para a sobrevivência financeira perpetua o funcionamento da engrenagem e garante a sua utilidade. Integrando a mundividência do imaginário capitalista, a arte converte-se num estilo de vida. A autonomia da arte vai desaparecendo enquanto o entretenimento se sobrepõe a práticas artísticas que cada vez mais respondem a interesses geopolíticos e económicos. A propósito de democracia, certamente te recordas que Cornelius Castoriadis escreveu que discutir sobre democracia é discutir sobre política e ainda que o objectivo da política não é a felicidade mas a liberdade. Acrescentemos que poder questionar as representações colectivas e as instituições que limitam o sentido é a forma de um regime autónomo e democrático.

A democracia concede-nos muitas inquietações. Aliás, não resisto a contar-te que em Marraquexe me dirigi a um rapaz que vendia pão na rua. Tento comprar um mas o dinheiro é-me devolvido por falta de troco. O rapaz decide oferecer o pão — a mim e a três artistas que se encontravam comigo. Não pode ficar sem comer, diz-me. Na praça central daquela cidade, à noite, uma criança faz os trabalhos para a escola. Sentada num pequeno banco e com um caderno sobre os joelhos, ao lado da mãe que vende lenços de papel, escreve fixa e lentamente. As sombras nocturnas marcam as páginas do reduzido caderno. À sua volta, nativos cantam e dançam, turistas bebem chá e compram especiarias. Marraquexe tem um museu dedicado às mulheres. Entre postais e tote bags nos quais estão inscritas frases de distintas feministas, é o registo fotográfico em grande escala da figura do rei que, de maneira imponente, se dá a ver na primeira sala. Associada à imagem podemos ler que este monarca apoia o empoderamento das mulheres. O retrato do soberano está presente em qualquer espaço: do museu à mercearia, do escritório ao talho, da loja ao cabeleireiro, da galeria à escola.

Querido amigo, a última vez que me confrontei com situação idêntica foi em Havana, com a imagem de Fidel Castro. Um déjà vu, pensei. Nesta cidade tive oportunidade de ler um texto de Fatéma Mernissi no qual esta brilhante autora marroquina argumenta que o feminismo no Ocidente é uma tarefa de mulheres e se lhe perguntassem qual seria o equivalente de Virginia Woolf responderia com o nome de um homem no que ao Oriente diz respeito — o de Qacem Amin, um qadi egipcío que publicou em 1899 o manifesto feminista mais explosivo da história do Islão: A Libertação da Mulher. Diz-nos que este homem conseguiu desestabilizar os conservadores religiosos no domínio político e atribuiu aos movimentos nacionalistas do mundo árabe, partidários do islah, a capacidade de reformar o Estado através da introdução de instituições democráticas à maneira do Ocidente, tais como o parlamento ou eleições. Acresce o facto de aquele livro ter impulsionado os líderes nacionalistas do início do século a colocar a educação das mulheres na agenda das suas reformas. As mulheres, na Turquia e no Egipto, começaram a votar antes das francesas. Continuarei, querido amigo, neste país que não é o teu, a aprofundar a leitura da obra desta escritora e a dar notícia desta aprendizagem. Como a arte, a democracia é um programa de trabalho sem referências absolutas e sempre indeterminável.

Inesperadamente, foi em Rabat, no Musée Mohammed VI D´Art Moderne et Contemporain, que a bandeira nacional de Portugal, de um lado, e o retrato do rei de Marrocos, do outro, aguardavam a chegada de uma artista portuguesa cujas obras, Mary Poppins e Royal Valkyrie,  ocupavam o salão central do MMVI, associadas às comemorações do 10.º aniversário do museu. Na sala contígua, uma grande exposição do grupo CoBrA — bastante documentada com material de arquivo anterior e posterior ao movimento — apresentava o seu carácter multifacetado e complexo. Tal como a República se distingue da Monarquia Constitucional, de igual maneira, querido amigo, um objecto decorativo não é capaz de nos confundir ou fazer-se passar por objecto de arte, apesar de apresentado num museu. Entre Mary Poppins e Royal Valkyrie e as obras dos artistas que integraram aquele movimento internacional, é da diferença, respectivamente, entre um produto da indústria da arte — que não pára de crescer — e a experimentação inquietante e livre de um projecto artístico que se trata. A obra regulada nunca é suficientemente forte para escapar à padronização da máquina organizada e burocrática. Torna-se numa atracção para a doutrina do acesso à cultura e a forma edificada da ligação à riqueza e ao poder. Já pouco falta para a reduzir a um anúncio publicitário e ao monopólio da cultura de massas.

Sabemos que a arte tem vindo a ser reverenciada pelas elites económicas e, coincidentemente, agora mesmo acabo de ler que a próxima curadora da Bienal de Veneza, 2026, Koyo Kouoh, de origem africana, foi nomeada pelo governo da direita italiana. Nas palavras daquela curadora, os artistas são “visionários” e “cientistas sociais”. O clichê naturalizado do artista oracular parece-me agravado com a sua ligação a uma perspectiva que, tudo indica, dilui a arte nas ciências sociais. A força autoritária da realidade conduz a arte à irrelevância crítica, à sua integração no território do artista-investigador bem informado sobre os acontecimentos e íntimo dos grandes debates globais e obrigatórios. Afirma-se o paradigma do facto e da sabedoria comparativa, do exercício inquisitorial e da análise classificativa. Neste centenário de Gilles Deleuze, filósofo votado conscientemente por muitos ao esquecimento (alguns dos quais talvez nunca o tenham lido), quase me atrevo a dizer que em 2026 não encontraremos em Veneza o trajecto que faz do imaginário um devir. Nas palavras do filósofo — algo distingue essencialmente a arte-cartografia de um circuito turístico.

Para terminar, querido amigo, não poderia deixar-te sem uma breve nota sobre a minha recente passagem por Amesterdão. Entre as milícias da Ronda da Noite e as que rondam o Red Light District notei que no vidro exterior do sindicato das trabalhadoras do sexo estava escrita a seguinte frase: não nos protejam a nós, protejam as nossas vitrines. A intensidade animal e crua (cruel?) do sexo. O prazer e os impostos. Retomo, mais uma vez, Michel Foucault — dizer sim ao sexo não significa dizer não ao poder. A democracia tem zonas obscuras e nela todas as escolhas são mais que desafios, são riscos.

Querido amigo, voltarei a escrever-te no próximo ano, quando regressar de Turim com o mesmo grupo de artistas que te mencionei no início desta carta. Viajaremos sem glória. No entanto, para falar como Pascal Quignard, sabemos que nos aguardam todas as manhãs do mundo.

 

 

Eduarda Neves é professora, ensaísta e curadora independente. A sua actividade de investigação e de curadoria articula os domínios da arte, filosofia e política.

 

A autora escreve segundo o anterior acordo ortográfico.

 

 

Imagem: Uma mulher sul-coreana tornou-se um dos símbolos de resistência à Lei Marcial na Coreia do Sul ao enfrentar os soldados enviados para impedir a entrada dos legisladores na Assembleia Nacional, após a imposição da lei marcial pelo presidente sul-coreano. Ahn Gwi-ryeong, de 35 anos, porta-voz do Partido Democrata Coreano, da oposição, agarrou a arma de um soldado durante a agitação. Ver aqui o vídeo da BBC News. 

 

Voltar ao topo