Ed. 11 / 2018
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Kader Attia: As Raízes Também se Criam no Betão 

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Isabel Nogueira

Kader Attia nasceu em França, em 1970, e cresceu entre Paris e Argel, passando também temporadas no Congo e na África do Sul. A Argélia foi, como se sabe e não obstante a forte resistência local, uma colónia francesa, que foi encetando uma luta consistente pela independência, só conseguida já nos anos 60 do século XX. A acção militar da França, no padrão de forte país colonizador, defendia os seus interesses na região, recorrendo para tal, inclusivamente, à tortura e às deportações, num claro e expectável exercício de poder e de domínio. Aliás, os séculos XIX e XX, nos seus inequívocos avanços na ciência ou na indústria, assim como no que à arte moderna diz respeito, representaram também a afirmação de uma Europa agressiva e empoderada face ao Outro. Quer dizer ao não-europeu, ao potencial colonizado. A História é, de facto, também feita de contradições e de aspectos sombrios.

As Raízes Também se Criam no Betão é o nome da exposição que, com curadoria de Delfim Sardo, agora se apresenta na Culturgest, em Lisboa, mostra originalmente organizada por Mac Val — Museu de Arte Contemporânea de Val-de-Marne. Attia, artista presente na Bienal de Veneza (2017), na exposição Viva Arte Viva, com curadoria de Christine Macel, traz para o espaço expositivo trabalhos em diversos suportes e com linhas de leitura múltiplas, nomeadamente, o filme documental, a colagem, ou a escultura, inclusivamente evocativa de uma herança do ready-made. Atentemos na bela peça Parfum d’exil (2018), uma betoneira que exala o aroma a cravinho, ou na impactante instalação Kasbah (2018), na qual o espectador percorre o topo dos telhados de um aglomerado populacional, ao modo de simulacro e criando a ideia de que se está no espaço real, no trabalho On n’emprisonne pas les idées (2018), uma vedação de arame com pedras, ou ainda na instalação — Untitled (couscous) —, construída com sêmola de trigo (2009). Mas podemos ainda referir as imagens em que nos são mostradas pessoas a expor a sua visão dos conflitos e os desafios diversos que esses mesmos conflitos implicam, ou as imagens fotográficas que recorrem à colagem, também elas evocativas de um universo historicista e político.

O conceito que podemos genericamente traduzir por “reparação” tornou-se de certo modo transversal à sua obra. No fundo, é o que a Europa, desejavelmente mais consciente da História de que também foi protagonista, tem vindo a procurar fazer. Muitas vezes ainda de modo insuficiente. Aliás, talvez nunca seja suficiente ou possível esta “reparação”, felizmente cada vez mais discutida e pensada no âmbito do pós-colonialismo, movimento em sentido lato que, nas várias amplitudes e implicações, procura pensar e analisar as consequências culturais, humanas, económicas, artísticas, políticas, geográficas, entre outras, do colonialismo nos países colonizados e nos países colonizadores. É importante reiterar que os efeitos do movimento colonizador ocorrem, de modo evidentemente diferente e com um grau de consequência díspar, tantos nuns como noutros. Neste contexto, e no que particularmente à Argélia diz respeito, a obra e o combate de Frantz Omar Fanon foram seminais. A ele se deve a incómoda expressão “todo o espectador é um cobarde e um traidor”. É bem capaz de ser verdade. E torna-se imperativo agir.

Nos últimos anos, o velho continente foi-se confrontado com velhos erros, velhas culpas, velhas opções, velhos equívocos. A crescente vaga, francamente dramática, de migrações é uma denúncia clara de tudo disto. A Europa tem vindo a receber o seu espelho, num reflexo nem sempre auspicioso ou brilhante, quer dizer, iluminista, como a Revolução Francesa nos quis fazer acreditar, na excelente trilogia dos seus ideais, eles próprios oriundos das “Luzes da Razão”, fundadores da política e da cultura ocidentais. Depois, surgiram, afinal, as catástrofes, o colonialismo, as grandes guerras, o holocausto, os fascismos e outros totalitarismos, os problemas ecológicos, o terrorismo, as desigualdades económicas e sociais, a falta de emprego, as crises, as novas epidemias, a desconfiança face ao Mundo e ao Outro. Ficámos numa encruzilhada desconfortável, agressiva, baralhante, dramática, perigosa, de que, por exemplo, de Jean-François Lyotard já tinha chamado a atenção no seu texto mais conhecido: La condition postmoderne: rapport sur le savoir (1979). E agora?

Agora é preciso lutar. Agora é imperativo conhecer a História, reflectir seriamente sobre ela, e procurar novas abordagens e novos caminhos. Talvez tentar salvar alguma coisa, que é de todos. A arte é também política. Aliás, tudo é política na sua necessária consciência. Torna-se fundamental o não fazer de conta, o não deixar de ver e de mostrar o que está aí. Talvez já seja tarde. Talvez não. Nunca o saberemos se na arte, na política, nos comportamentos individuais e colectivos, na atitude institucional, nunca se olhar para dentro e para fora, num sentido autêntico, além de modas e de leves inquietações. Estas questões, de um modo geral, estão presente no trabalho de Kader Attia. Pelo menos assim o sentimos enquanto espectadores. E, na parte que nos diz respeito, procuraremos ser mais do que isso na nossa vida de todos os dias, que é o que verdadeiramente importa, e à escala de cada um. Quer dizer, não sermos meros “cobardes e traidores”, como dizia Fanon. A vida vai-nos dando sempre oportunidades de redenção. Talvez ainda consigamos ir a tempo. E a betoneira não pára, e continua a exalar o magnífico aroma a cravinho.

Kader Attia

Culturgest

 

 

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Kader Attia: As Raízes Também se Criam no Betão. Vistas da exposição na Culturgest, Lisboa. Fotos: Vera Marmelo. Cortesia de Culturgest — Fundação Caixa Geral de Depósitos.

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