Ed. 11 / 2018
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Engel Leonardo: Faro

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José Marmeleira

Na Kunsthalle Lissabon (KL), diante da exposição de Engel Leonardo, artista da República Dominicana, pense-se no espaço da sala da KL concebida para exposições, com a sua arquitectura, as suas paredes brancas. É nele que se vêem, que aparecem as obras com as suas superfícies, formas, geometrias, escalas, cores. Delicada e criteriosamente colocadas no tecto, no e sobre o chão, deitadas ou verticais, desenhando um ângulo no vácuo ou, na parede, apontando uma figuração. A relação que solicitam ao visitante existe ali. A única realidade são aquelas formas, com os seus materiais, na experiência de um lugar que elas, as obras, transformaram. Há uma simplicidade nesta presença que nos convida a circular, a percorrer os caminhos traçados pelo artista. Desce-se a escada e um elemento escultórico ressalta à vista. Pintado de verde ligará, como uma inusitada teia, o teto a um dos pilares da sala. Passada esta discreta e inesperada manifestação da cor e do material, eis que surge outra, agora vertical. Amarela, de uma geometria fina e simples, desenha o contorno de uma passagem, de um portal que o visitante pode atravessar, entrando definitivamente na exposição de Engel Leonardo.

Geometria, percepção do objecto no espaço, cor, materiais de origem industrial.  É com este léxico, e os sentidos que lhe estão associados, que surge outra peça, agora no centro da sala. Como a primeira, também se articula com a arquitectura, mas desta vez, unindo o tecto ao chão do espaço expositivo e exibindo uma estilização mais evidente. A sua geometria é reminiscente de plantas, de folhas, de caules. Dois passos à frente, a presença inusitada de uma pedra adensa a possibilidade de um sentido que transcende os limites da sala. O seu peso, mas, sobretudo as suas marcas aludem a uma história e a um lugar que não é a galeria. De onde veio? Na parede, do lado esquerdo, esboça-se irregular, descontínua, a representação de uma figura humana. Colorida, dir-se-ia que possui elementos próximos de certas categorias da arte (pop, naïve, bad-painting), mas essa é a única pista visível, talvez um equívoco. De resto, o que permanece é a impressão de algo incompleto, um vestígio (de imagens) na parede.

Da parede, o artista conduz-nos ao chão e a uma expansão silenciosa de cores e formas geométricas, num mosaico. Está ali para que o possamos percorrer, mas também para ser visto, olhado de pontos de vista e distâncias diferentes. Um espaço em que se caminha, mas que não se reduz a essa experiência. Com as suas cores (azul, amarelo, preto, vermelho) e padrões repetitivos, é um objecto dirigido ao sentido da visão e à memória visual. Lentamente, a exposição começa a falar com algo que existe para lá da pura experiência das formas: com outras imagens, com narrativas, com conteúdos. Quais exactamente?

Todas as obras acima descritas são evocações materiais de um trabalho que nunca se concretizou. Aquele que o arquitecto brasileiro Flávio de Carvalho submeteu, em 1928, ao concurso para a construção, na cidade de Santo Domingo (República Dominicana), de um conjunto de equipamentos de caráter público e obras arquitectónicas, entre as quais Farol de Colombo, monumento que serviria de mausoléu para os restos mortais de Cristóvão Colombo. Figura irreverente das vanguardas sul-americanas, com actividade desenvolvida nos domínios da pintura, da escultura, no desenho, na cenografia, no teatro e na performance, Flávio de Carvalho é lembrado, pela promessa de uma obra, quase um século depois, com o pensar e o fazer de outro artista. No seu desenho original do Farol de Colombo (o concurso seria vencido por Joseph Lea Gleave e monumento só seria concluído em 1992), constava uma torre em que as referências futuristas se mesclavam com formas pré-colombianas e neocoloniais, e uma decoração dos interiores inspiradas nos motivos dos povos Marajoaras, Guaranis, Maias e Toltecas.

Da sua pesquisa e trabalho, Engel Leonardo torna visível apenas fragmentos, detalhes, metonímias dessa obra rejeitada. Algumas realizam agora, finalmente, a sua função, como o mosaico (cujo motivo foi desenhado por Flávio de Carvalho para os azulejos que revestiriam as superfícies do seu Farol) outras ganham uma ressonância mais imediata, como a pedra, de valor simbólico e ritualístico, proveniente da coleção do Museo del Hombre Dominicana que pode ser vista na Praça Cerimonial Yuboa, a praça mais importante do território da cultura Taína (actualmente Republica Dominicana e Haiti). A escultura de ferro amarela e em forma de portal, evoca a arquitetura inca, a figuração humana na parede provém de murais inspirados na cultura tolteca, as esculturas que estabelecem uma relação com a arquitetura representam, com a distância da abstracção, a flora nativa das Américas.

Flávio de Andrade tornou as histórias e as artes da cultura pré-colombiana dignas de representação e rememoração, sem paternalismo e sem obscurecer as tensões, os hibridismos, as afinidades com a modernidade artística. Leonardo repete o gesto, mas na diferença do seu tempo, do seu contexto, das suas condições como artista. Na KL, apresenta as memórias de um edifício, de uma arquitectura que, na verdade, nunca se materializou, nunca existiu reificada, mundana. Não se trata de redenção, no registo de um palimpsesto, mas de uma tradução que assume o fragmento, a incompletude e as cores vivas de uma visão das artes e da história da humanidade que um monumento deveria, poderia ter homenageado. O artista não pretende construir o que ficou para construir, mas imaginar o que poderia ter sido outro monumento. E ao tornar visível, no espaço confinado do cubo branco, imagens, objectos e acontecimentos que a história esqueceu, tornou-os seus, antes de os partilhar. Com as relações que as formas, os objectos, as cores e os materiais criam entre si no espaço da arte e entre a América e a Europa.

Engel Leonardo

Kunsthalle Lissabon

José Marmeleira. Jornalista e crítico nas áreas da música pop e da arte contemporânea. Colabora no jornal Público e na revista Time Out Lisboa. Lecciona Fundamentos do Jornalismo na Universidade Europeia e está a realizar o doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais (ICS-UNL). 

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Engel Leonardo. Faro, Kunsthalle Lissabon, 2018. Vistas da exposição. Cortesia do artista e Kunsthalle Lissabon.

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