Ed. 11 / 2018
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33ª Bienal de São Paulo: afinidades afetivas

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Tobi Maier

Em setembro deste ano abriu a 33a Bienal de São Paulo com o título afinidades afetivas. O curador geral convidado Gabriel Pérez-Barreiro tinha prometido de antemão que não teria nenhum tema para esta Bienal e que o conceito consistiria em desafiar um grupo de artistas para trabalhar como curadores, desenvolvendo cada um dos núcleos da Bienal. Foram escolhidos, como artistas-curadores, Alejandro Cesarco, Antonio Ballester Moreno, Claudia Fontes, Mamma Andersson, Sofia Borges, Waltercio Caldas e Wura-Natasha Ogunji. Entre o anúncio destas ideias de concepção e a abertura da própria mostra no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, foram poucas as interações com o público e poucos detalhes foram divulgados. Ao mesmo tempo, o estado da política brasileira agravou-se bastante com a presidência de Michel Temer que tomou posse depois de um coup d’état, em 2016, e cuja taxa de aprovação chegou a apenas 3% da população brasileira. Entretanto, o Brasil estava-se preparando para as eleições em Outubro de 2018 que incluía, como uma das opções, a ameaça iminente de uma ditadura pelo ex-militar Jair Bolsonaro.

O desastre estava anunciado e o cenário neofascista materializou-se, com consequências graves para a sociedade e especialmente para o âmbito cultural no país.

A negligência do património cultural veio à tona poucas horas antes da abertura da 33a Bienal quando o Museu Nacional do Rio de Janeiro pegou fogo e foi destruído completamente pelas chamas. Se as preocupações sociopolíticas estão sendo debatidas diariamente e foram também abordadas nas últimas Bienais de São Paulo, a mostra afinidades afetivas evita refletir sobre este contexto atual. Em vez, um jogo formal foi desenrolado em que cada um dos sete artistas-curadores trabalha as suas próprias afinidades afetivas, completado por doze obras comissionadas pelo curador geral. Esta tática de tudo vale e qualquer coisa com qualquer coisa infelizmente acaba com a possibilidade de criar e usufruir uma exposição de grande-porte (a maior da América Latina) uma vez que todas as exposições dentro da exposição poderiam ser apresentadas em galerias ou museus à volta da cidade.

Mas vamos passo a passo. Na entrada do piso térreo do pavilhão encontra-se a mostra sentido/comum do espanhol Antonio Ballester Moreno. Em seu texto curatorial no guia da mostra, Moreno destaca o fato que somos todos diferentes e que ver as coisas em conjunto será uma experiência mais enriquecedora. A grande seleção de obras do filósofo e educador alemão Friedrich Fröbel como as Varas para desenho (1910) ou as Bolas de Jardim da Infância (1900) foram uma descoberta para o contexto brasileiro. Algumas ideias também foram apresentadas em estado de execução como o Álbum de corte de professor (1889) ou o Álbum de dobradura de professor (1880), porém mantido em estilo de apresentação museográfica não existe possibilidade de ativar cópias das obras para uma tão desejada experiência enriquecedora. Na obra Estação de campo: Parque Ibirapuera (2018) o artista norte-americano Mark Dion, apresenta uma instalação site-specific para a qual ele e os seus artistas colaboradores/as buscam retratar a fauna e flora do Parque Ibirapuera através de aguarelas. Estas obras dialogam com as xilogravuras coloridas sobre papel de Andrea Büttner, um grupo de seis mil cogumelos confecionados em argila por um grupo de estudantes de Centros Educacionais Unificados da periferia de São Paulo sob direção de Ballester Moreno e com a série Antologia (1949-1980) do também espanhol José Moreno Cascales que consiste num grupo de bustos e torsos esculturados em bronze, gesso, pedra e cimento.

Seguindo pela rampa e entrando no grande vão do prédio emblemático de Oscar Niemeyer e Hélio Uchôa o espectador enfrenta um labirinto de paredes e cortinas desenhado pela artista paulista Sofia Borges para sua mostra ​A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um. Como o título indica trata-se de uma mostra autorreferencial que introduz algumas obras que tem inspirado o seu trabalho ao longo dos anos, entre as quais, esculturas de Sarah Lucas e a obra From 'La Voie Humide' (2014) do recém-falecido Tunga. Enquanto subimos para o segundo andar, escutam-se as canções de um grupo de performers dirigido pelo artista francês Tal Isaac Hadad. Olhando para baixo o espectador enfrenta o grupo de cantores e uma vista de paredes, um desprezo pela arquitetura aberta de Niemeyer e Uchôa e uma oportunidade perdida de trabalhar o espaço com suas amplas perspectivas poéticas. As obras das curadorias O pássaro lento de Claudia Fontes e sempre, nunca de Wura-Natasha Ogunji ​completam o segundo andar junto com a homenagem ​Aos nossos pais de Alejandro Cesarco.

Se os desenhos de Ruby Onyinyechi Amanze tomam um carácter quase tridimensional o novo filme de Ben Rivers introduz um Bicho Preguiça na Costa Rica. As várias camadas sobrepostas da filmagem fazem o bicho ganhar corpo e um espectro de cores. Aqui a Bienal tem sucesso na maneira como introduz ao público brasileiro obras de artistas pouco conhecidos no país, um fato que está ainda mais em evidência com a mostra determinada de Alejandro Cesarco. Nascido no Uruguai e radicado no Estados Unidos há duas décadas, Cesarco radicalmente adotou a premissa do curador geral e trouxe uma mostra que coloca a sua própria obra em diálogo com figuras chaves da arte conceptual norte americana com obras importantes de Sturtevant, Louise Lawler e John Miller. As mostras de Ogunji, Cesarco e Fontes evidenciam pouco as suas próprias obras criando uma harmonia na sua integração.

Já na exposição Os aparecimentos de Waltercio Caldas a metade das obras são do próprio curador e os artistas presentes nesse recorte são todos homens. Caldas defendeu-se na conferência de imprensa coletiva, que ‘obra de arte não tem género’, o que evidencia um desconhecimento ou uma ignorância dos discursos mais prevalentes na arte contemporânea no momento que permeia grandes partes desta edição da Bienal de São Paulo. Ao lado de Os aparecimentos a artista sueca Mamma Andersson​ introduz com Stargazer um grupo de artistas maioritariamente suecos, pintores, e com ‘problemas mentais’ como Anderson referiu na conferência de imprensa coletiva. Estas obras são completadas com as fotografias furtivas que Miroslav Tichy tirou de mulheres na sua cidade de Kyjov na República Checa e um filme do protagonista da animação cinemática Ladislas Starewitch.

As doze obras comissionadas pelo curador geral Gabriel Pérez-Barreiro que na teoria deveriam servir como destaques perdem-se dentro da polifonia de vozes e conceitos apresentados no pavilhão. A apresentação mais elegante e engajada foi o filme O ensaio (2018) de Tamar Guimarães. A obra toma como ponto de partida o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, de 1881, em que ele prevê a abolição da escravidão, destacando no entanto que nada mudara na estrutura básica no Brasil. Guimarães trabalhou o guião juntamente com o elenco de atores durante a filmagem, refletindo sucintamente sobre o status quo da sociedade brasileira e da instituição Bienal. 

Com outros países na vizinhança como a Argentina ou a Venezuela em crise contínua, e com o Brasil enfrentando um cruzamento de escolhas entre democracia e autocracia, a mostra afinidades afetivas apresenta uma visão voltada para dentro com ênfase na atenção subjetiva e nas ‘experiências’ dos artistas e do público. Existem realmente escolhas conceptuais e estéticas para qualquer gosto nesta Bienal, porém a falta de impulsos deixa o espectador alienado e confuso. Num tempo em que os artistas e intelectuais têm o desejo de articular as injustiças no país, e não faltam as ocorrências em que a classe artística se manifesta — até com ato performativo Lulaço (chamando a atenção para a injustiça da prisão do ex-presidente Lula) na abertura geral da Bienal —, as mostras apresentadas aqui oferecem entradas para universos artísticos individuais e núcleos da história da arte, porém deixam de engajar o público numa conversa sobre os tempos atuais em que vivemos.

Bienal de São Paulo

Tobi Maier. Critico de arte e curador, vive em Berlim. Trabalhou como diretor-fundador na SOLO SHOWS, em São Paulo (2015-2018), curador associado da 30ª Bienal de São Paulo (2011-2012), no MINI / Goethe-Institut Curatorial Residencies Ludlow 38, em Nova Iorque (2008-2011) e no Frankfurter Kunstverein (2006-2008). Foi co-editor das publicações OEI # 60–61: Extra-disciplinary spaces and de-disciplinizing moments. In and out of the 30th Bienal de São Paulo (2013), OEI # 66: poema/processo (2014) e OEI # 80-81: The zero alternative. Ernesto de Sousa and some other aesthetic operators in Portuguese art and poetry from the 1960s onwards (2018). É mestre em Estudos Curatoriais pelo Royal College of Art, Londres e doutor em poéticas visuais pela Universidade de São Paulo.

 

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33ª Bienal de São Paulo: afinidades afetivas. Vistas gerais da exposição na Pré-abertura. © Pedro Ivo Trasferetti / Fundação Bienal de São Paulo. 

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