19 / 20

Lisbon roundup #6

vb_20220210_andersson_haggerty-4101_1.jpeg
Isabel Nogueira

É o início da temporada e com ele regressa-se aos circuitos expositivos. O número considerável de propostas torna o sector artisticamente mais rico e variado. O que é efectivamente importante. Claro que umas abordagens serão seguramente mais entusiasmantes do que outras. É expectável e faz parte desta dinâmica. Neste RoundUp escolhemos cinco exposições que apresentam gramáticas artísticas e referências conceptuais bastante distintas entre si. Lancemos um breve olhar crítico sobre elas.

 

 

Roundup #6

Lisboa: vários locais

 

Carlos Mensil: Risco Contínuo

@ NO·NO Gallery

 

Carlos Mensil [n. 1988], de algum modo, confere uma outra linha de enfoque a este universo pautado pelo minimal e pelo depurado. A ideia de risco aqui afigura-se dupla: por um lado, o riscar, como quem desenha no espaço; por outro, o desafio, o correr o risco. A primeira peça que imediatamente se distingue é uma fina lâmina de aço suspensa que desenha uma forma no ar, a qual, à medida que roda, faz disparar a luz em inúmeros reflexos [16:9, 2022]. Como uma lâmina de faca batida pelo sol. Neste momento, produz-se um qualquer silêncio poderoso que em si se basta e que envolve o espectador. E o tom da exposição fica definido numa qualquer intensidade contida antes da potencial explosão.

A mostra é pontuada por mais algumas peças de notória qualidade, entre as quais duas obras mais inusitadas. Trata-se de Projecto para montanha 1 e 3, de 2022. Em ambas as propostas é apresentado um líquido negro que corre num circuito de eterno recomeço. Este negro atrai o nosso olhar, como um mergulho numa qualquer profundeza, eventualmente inacessível e talvez perigosa. E a peça continua fazer o movimento da água negra. Inabalável. Este movimento remete-nos, por exemplo, para Zygmunt Bauman e para a sua conhecida obra Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty [2006]. Neste texto, o filósofo polaco questiona a modernidade, e eventualmente a pós-modernidade — que podemos entender como uma fase da modernidade, de autoconsciência crítica da própria modernidade, e não exactamente uma nova época histórica —, nas relações políticas, amorosas, vivenciais, na própria relação com a arte. A questão da volatilidade inerente ao “estado líquido” ocupa um lugar proeminente no pensamento de Bauman: Liquid Modernity [2000], Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds [2003], Liquid Life [2005]. A exposição de Carlos Mensil comporta precisamente esta fluidez, eventualmente num risco contínuo, mas seguramente construindo um lugar de algum tipo de recolhimento e densidade. Ao mesmo tempo, é proposta uma ideia de circuito, como se tudo pudesse voltar sempre ao início, e assim sucessivamente.

01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
12

Carlos Mensil, Risco Contínuo (2022). Vistas de Exposição. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia do Artista e da NO.NO Gallery

Catarina Mil-Homens: We are Also the Ghosts

@ Uma Lulik_

 

Esta mostra assinala o arranque do novo espaço da galeria Uma Lulik, e o seu título é homónimo ao da peça que mais se destaca e, já agora, a mais bem conseguida do conjunto [We are Also the Ghosts, 2022], composta por cabos verticais de aço e lâminas de vidro, dispostas na parede como se fosse uma imagem, mas tratando-se de uma grelha tridimensional com elementos que se sucedem visualmente e fisicamente no espaço. Catarina Mil-Homens [n. 1979] desenvolve — sobretudo nesta possante e sofisticada peça — uma gramática plástica e conceptual de notória ligação, não necessariamente à arte minimal enquanto movimento artístico circunscrito no tempo, com início ainda nos anos 50, em Nova Iorque, mas a um minimalismo enquanto referência artística. A exposição é essencialmente composta por escultura e instalação. No piso superior é ainda possível visualizar um vídeo evocativo de texturas e matérias [1709 Cascas de Mim, 2022]. 

Há uma outra peça [Lâminas, 2022] que chama também a nossa atenção e é assumidamente uma homenagem ao minimalista Donald Judd [1928-1994], um dos fundadores do movimento e a quem se deve a publicação do ensaio Specific Objects [1965], no qual Judd define estes “objectos” como sendo pintura e escultura, rompendo com a designação tradicional de ambos. Neste mesmo ano de 1965, Judd dava início à célebre série Untitled. Trata-se de esculturas formadas por elementos idênticos rectangulares, dispostas verticalmente — numa cadência cheio-vazio —, na verdade, como a pintura é exposta, mas agora como reacção ao expressionimso abstracto, procurando uma simplificação depurada das formas, às quais era propositadamente retirado o conteúdo expressivo, no sentido de se atingir uma total abstracção, materializada na redução formal e intelectualizada. Procurava-se pensar as possibilidades estéticas da composição a partir de estruturas neutras — “objectos“ —, e da sua relação com a parede e com o solo, ou seja, entre o horizontal e o vertical. Também identificamos este entendimento depurado e espacializante do objecto no trabalho de Catarina Mil-Homens. 

Os materiais usados no âmbito desta exposição são sobretudo industriais, embora pontualmente sejam apresentados outros, como o carvão, de origem mineral. E, para finalizar, debrucemo-nos sobre esta última peça, na verdade, a primeira da exposição. Não se percebe imediatamente que se trata de pó de carvão. A peça é de tal modo delineada que se assemelha a um desenho preenchido com tinta e disposto no solo. A peça é complementada por um vidro que lhe confere verticalidade e que abre para outras espacilidades. Mas o carvão negro é o que sobremaneira nos interessa. Não é suposto caminhar sobre ele. Mas — um acaso feliz — alguém o tinha feito, deixando um par de pegadas sobre o pó. E foi precisamente este acto proibido que fez vibrar este chão, dando a perceber uma textura e um material não imediatamente identificáveis. O conjunto converteu-se, de repente, num bela marca de traição sem corpo. Afinal, we are also the ghosts. 

 

Exhibition View_1
Exhibition View_2
Exhibition View_3
In Between_2
In Between
Lâminas_1
Lâminas_2
Lâminas
Mortalhas
Return_1
Return_2
We Are Also The Ghosts

Catarina Mil-Homens, We Are Also the Ghosts (2022). Vistas de Exposição. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia da Artista e da Galeria Uma Lulik_

 

Christian Andersson: What has yet to Take Shape Will Protect Me

@ Cristina Guerra Contemporary Art

 

A disposição das obras de Christian Andersson [n. 1973] no espaço da galeria apresenta grande respiração e elegância, desenvolvendo um circuito com possibilidade de ritmo e cadência na fruição. E, particularmente no caso destes trabalhos, este aspecto afigura-se um factor importante, na medida em que o que entendemos como elemento central se relaciona com um jogo entre um tempo passado — de inevitável carácter historicista — e um tempo presente, ou até um tempo futuro, eventualmente de projecção e devir. É nesta deambulação passado-presente-futuro que ancoramos esta breve reflexão crítica sobre a mostra em causa.

Uma das mais intrigantes peças do conjunto é inevitavelmente Marrow [2022], uma escultura de gesso branco, em tamanho natural, no qual a carne se vai desapegando do esqueleto, restando, sobretudo na parte frontal do crânio, apenas osso. A figura segura na ponta dos dedos a estrutura de um cubo, simultaneamente projectado na parede através da luz que emana do osso frontal do seu crânio, numa possível evocação da passagem da matéria a uma imagem ou abstracção etérea. Atomizer [2022] é outra inquietante peça. Trata-se de uma fotografia acoplada a um varão, prolongado na imagem como trompe l’oeil, ao qual se agarram mãos vigorosas, numa inusitada e erotizante pole dance. Deste primeiro grupo de peças ainda uma outra é efectivamente forte. Trata-se da impressora literalmente amassada pelas mãos do artista [Primer]. Uma vez mais, a referência possível entre as dicotomias, neste caso, passado-manual/presente-digital.

Há um outro conjunto de imagens-peças de tamanho mais discreto mas que funcionam quase como uma espécie de gabinete de curiosidades, evocativas de obras históricas e de jogos visuais de arquitecturas visíveis, por exemplo, nas célebres pinturas do Renascimento, tais como Escola de Atenas, de Rafael, ou mesmo As Bodas de Caná, de Veronese. O próprio jogo de divisórias que é construído na galeria para dispor estas peças funciona espacialmente de modo muito eficaz. 

Além da presença passado-presente-futuro, esta exposição remete ainda para uma relação entre matéria e imagem. Trata-se de uma relação historicamente complexa e desafiadora, sobretudo do ponto de vista ontológico. Ao circular pelo espaço sente-se uma constância da problemática tempo associada ao desafio entre matéria e imagem/projecção. E esta projecção é, na verdade, imagética e temporal. E concluímos com uma frase de Henri Bergson [Essai sur les donnés immédiates de la conscience, 1912]: «A ideia do futuro, pleno de uma infinitude de possibilidades, é ainda mais fecunda do que o futuro em si mesmo, e é por isso que encontramos mais charme na esperança do que na posse, no sonho do que na realidade». Eventualmente assim também sucede nesta exposição.

 

1
2
3
4
5

Christian Andersson, What has yet to take Shape will Protect me (2022). Vistas de Exposição. Fotografia:  Vasco Stocker Vilhena. Cortesia do Artista e da Galeria Cristina Guerra Contemporary Art.

 

Mané Pacheco: Bestas

@ Belo Campo/Galeria Francisco Fino

 

É início de Outono, mas está um calor abafado de fim de Verão. Mané Pacheco [n. 1978] leva-nos para o calabouço no espaço da Galeria Francisco Fino [espaço Belo Campo]. E leva-nos muito bem. As peças envolvem-nos e criam um dispositivo visual algures entre o primitivo animal e a sofisticação, até erótica, de objectos facilmente utilizáveis em universos e rituais bondage e ou inclusivamente de sadomasoquismo. Os bichos transformam-se em objectos. Não se percebe ao certo onde começam uns e acabam outros. Possivelmente também não é importante. O mais importante aqui é uma qualquer estranheza que se produz no espectador no acto de fruição, e que se torna forte mas difícl de definir. Mas a definição também não é importante. E poderíamos continuar neste jogo de percepção-definição. Trata-se de uma metaformose mais ou menos subtil, que vai sucedendo sem que se identifique um início e um fim. E é inquietante esta proposição de espaços transitivos e, de certa maneira, com algum grau de exotismo e de primitivismo.

A nudez do espaço expositivo exalta os materiais animais e industriais e os objectos de um modo geral. De repente, parece que estamos perante a possibilidade de estas criaturas tomarem vida e comprometerem a sua distância face a nós. As peças mais notáveis são as que se encontram penduradas. A visão é a de uma sala de rituais misteriosos, talvez antigos e violentos. Ou não. Mas há de facto um qualquer primitivismo carnal que é evocado, não se mostrando abertamente. Sente-se um jogo que se ancora também, portanto, na imaginação do espectador e que, de algum modo, permite o fechar da instalação. Quer dizer, o espectador é subtilmente convidado a entrar neste universo e a deixar-se conduzir por ele. Entre fantasia, fantástico, erotismo, animalia, borracha, metal, a nossa pele imagina o toque destes objectos que parecem também desejar que os toquemos de volta. É início de Outono, mas está um calor abafado de fim de Verão. Tudo pode acontecer. 

 

01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24

Mané Pacheco, Bestas (2022). Vistas de Exposição. Fotografia: Vasco Vilhena. Cortesia da Artista e de Belo Campo/Galeria Francisco Fino.

 

Nuno Nunes-Ferreira: Monsieur Valadares

@ Balcony — Contemporary Art Gallery 

 

Esta exposição apresenta uma proposta completamente distinta das anteriores. Nuno Nunes-Ferreira [n. 1976] toma como ponto de partida um arquivo privado. Esta ideia de materialização da temporalidade através de recortes de jornais, colectas de imagens, organização de factos e momentos é uma das características da sua linguagem enquanto artista. Ou seja, podemos afirmar que a temporalidade é uma marca relevante no percurso de Nunes-Ferreira e também desta exposição, em particular. Na obra La societá transparente [1989] Gianni Vattimo propõe a tese de que na sociedade dos mass media que, em seu entender, caracterizam a “sociedade transparente” — caótica, contaminada — se abre caminho a um ideal de emancipação, que tem por base a oscilação, a pluralidade e, por fim, o desgaste do próprio “princípio de realidade”, isto é, o ser humano pode tornar-se consciente de que a liberdade não consiste em conhecer a estrutura do real e adaptar-se a ela. Contudo, a nossa esperança de emancipação e de liberdade residirá neste relativo caos, nesta perda de sentido da realidade, numa certa capacidade de desenraizamento — libertação das diferenças, das minorias, fim da ideia de uma realidade histórica totalizadora —, embora sem o abandono de todas as regras. Quando pensamos num trabalho que parte de um arquivo pessoal, o movimento que lhe poderá estar conectado é precisamente este: uma capacidade de desenraizamento do seu lugar original e um refazer a partir deste original, produzindo um objecto segundo, necessariamente novo e distinto do primeiro.

Este processo de apropriação e de resignificação incorpora além da memória, claro, um certo grau de poesia e talvez mesmo de alguma emotividade. Percebe-se a presença e o universo de alguém que não está fisicamente. Ao entrarmos na exposição, deparamo-nos com um bem conseguido bloco  composto por várias imagens de pedaços de jornais e revistas ocultados por tinta preta, exceptuando frases que vão pontuando esta espécie de mural, e que se reportam ao mundo da arte : “isto não é um Rembrandt”; “pintura”; “falso mais falso não há”; “como se fosse um auto-retrato”, etc. E naturalmente que o jogo entre o que se mostra e o que se oculta fica também lançado. Este mural é, a seu modo, provocatório e apelativo, mas o melhor trabalho, em nosso entender, encontra-se no piso inferior. Retomando a fértil herança duchampiana do readymade, e no contexto deste arquivo privado como mote de uma exposição, Nunes-Ferreira produz uma instalação não com o conteúdo das caixas arquivadoras, mas com as próprias caixas. São em número considerável, de vibrante e sortido colorido, e com temas que vão desde “saúde” a “Jesus”, passando por “filatelia”, “museus”, “tradução”, entre muitas outras catalogações. A memória junta-se a uma organização que oscila entre a enciclopédia e o correr dos dias e da vida. Não apenas a vida de Monsieur Valadares mas também, eventualmente, a nossa. Onde quer que nos consigamos rever. 

 

 

DSC00929
DSC00933
DSC00937
DSC00939
DSC00944
DSC00952
DSC00953-2
DSC00957
DSC00958
DSC00967
DSC00976
DSC00980
DSC00981
DSC00983
DSC00988
DSC00993
DSC01002
NNF72

Nuno Nunes-Ferreira, Monsieur Valadares (2022). Vistas de Exposição. Fotografia: João Neves. Cortesia do Artista e da Balcony — Contemporary Art Gallery.

 

Imagem de capa: Christian Andersson, What has yet to take Shape will Protect me (2022). Vistas de Exposição (pormenor). Fotografia:  Vasco Stocker Vilhena. Cortesia do Artista e da Galeria Cristina Guerra Contemporary Art.

 


 

 

Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia. 

 

 

 

Voltar ao topo