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João Marçal: Oh My Dog!

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José Marmeleira

 

Em Oh My Dog! de João Marçal, (Coruche, 1980), patente na Galeria Minuta, o espaço encontra-se dividido por dois conjuntos de pinturas, algumas das quais nunca antes expostas. Entre ambos, sobressaem distinções visuais, estéticas, pictóricas e gráficas, enquanto a disposição no espaço arquitectónico permite sugerir a presença de um hiato que só o visitante poderá preencher e, porventura, reparar.

Que hiato é esse? Um hiato temporal no contexto do percurso do artista. Entre os dois conjuntos de pinturas, passaram anos — mais de uma década — pelo que se percebem mudanças subtis no que respeita a sensibilidades, preocupações e modos de fazer. Em primeiro plano, a recortar-se, permanece uma questão ou, se se quiser, um problema. O que é a pintura? Enfatize-se o particular da questão: o que é a pintura no trabalho de João Marçal?

Desde que o artista se mostrou no espaço público, em 2003, iniciando uma série de exposições colectivas e individuais, a disciplina tem permanecido no centro do seu trabalho. Trata-se de uma posição persistente e coerente e, no contexto local, assaz singular. É que a investigação de João Marçal à volta do que é a pintura, não preconiza uma evacuação do real. Dir-se-á que, só por si, esta asserção não tem grande significado: há muito que a pintura, ao virar-se sobre si mesma, traz consigo o real (não o dos seus materiais e das suas formas). Mas no caso de João Marçal essa investigação tem na vida a sua fonte primeira. Em síntese, é da e com a sua vida que as suas pinturas nascem.

Há um elemento autobiográfica por detrás das pinturas de João Marçal. Os motivos são dos mais triviais que poderíamos imaginar: os padrões decorativos de um quarto; os elementos visuais de portas de autocarros (na série Porta, 2017) ou de uma carrinha de serviço; a identidade gráfica de uma marca de cigarros (Surf, 2012-22) ou o desenho e as cores de um envelope cujo funcionalidade desapareceu (Image Service, 2003). É destas coisas, que de tão banais se tornaram invisíveis, antes de entraram em obsolescência, que o pintar do artista progride. Vemo-las, logo que entramos, no primeiro conjunto de trabalhos que compreende um período situado entre 2003 e 2017. Mas, claro está, não as vemos como foram.

Foram pintadas e ao serem pintadas perderem o contexto de onde vieram. As cores, as formas, a geometria e o desenho ainda vibram — proporcionando um inolvidável prazer óptico — mas estão ali por causa da pintura. Por isso, desta podemos observar as suas marcas, os seus limites, a sua prática repetida, diligente e atenta. Numa conversa tida, há anos, com o artista, João Marçal, ele falou-nos do gosto de observar a persistência do trabalho manual nas suas pinturas, e do facto de isso permitir a quem vê reconstituir todo o processo. Isto é, de visualizar o trabalho pictórico realizado pelo artista. Mencione-se, a propósito, essa obra seminal que é Quarto (2015), pintura que reproduz o padrão dos têxteis do quarto da infância do artista. Podemos observar as pinceladas, ao mesmo tempo que damos sentido às expressões, cunhadas pelo próprio, de “abstraccionismo sentimental” ou “formalismo nostálgico”. Não será despropositado colocar a hipótese de que estas obras não sendo imagens — são sobretudo pinturas — parecem querer salvar imagens ou até formas associadas a uma certa circulação de imagens/superfícies (veja-se Fulifijm, 2003, Image Service, 2003 ou até Autorretrato ao Espelho nº4, 2006).

Os temas da invisibilidade (das imagens) e da obsolescência (dos objectos a elas associadas) podem ser considerados portas para a obra de João Marçal. E, no entanto, esta nunca deixa de falar sobre si mesma. Refere-se, fundamentalmente, a ela mesma e em simultâneo, a uma biografia. Nesse sentido, quase que se poderia concluir que a pintura está na biografia (mais anónima e mundana) de João Marçal, como a biografia está na pintura de João Marçal (veja-se de novo a série Porta ou Surf). Mas não seria possível contemplar estas pinturas senão enquanto pinturas: manifestações essenciais (e autónomas) da cor, da forma, de linhas, de padrões. O espectador pode certamente colocar-se nos interstícios que permanecem entre a pintura e tudo aquilo que lhe é exterior, mas, no fim, Oh My Dog! não é uma exposição de imagens, alusivas ao mundo da comunicação ou aos objectos de uso com lidamos no quotidiano. É uma exposição de pintura.


A outra série de obras mais recentes reafirma esta proposição, mesmo quando destabiliza as certezas do visitante. Se a origem das pinturas continua a ser o exterior (padrões impressos em superfícies que nos passam despercebidas no quotidiano), a experiência das pinturas é determinada pelo lugar do nosso corpo no espaço. A uma certa distância, parecem imagens que adquirem movimento — como se ligadas a um dispositivo escondido e manipulado — de perto, podemos constatar que continuam a ser pinturas. É nesse momento-movimento que o referente exterior se eclipsa: por exemplo, diante de Jouhatsu #3 e Jouhatsu #2, pinturas que existem por si só, mesmo quando nelas advínhamos o efeito de um eco exterior: a pixelização das imagens, a possibilidade de as alterarmos sem recorrermos à tinta ou ao óleo, mas à tecnologia.

João Marçal coloca-se (e coloca-nos) em diálogo com a produção contemporânea das imagens noutra superfícies que não a tela. Mas, mais uma vez, o que nos mostra são coisas da pintura: cromatismos em Bad Trip, 2019, velaturas na desconcertante Lisboa(-Porto), esbatimentos (Distante Voice, 2021) marcas do pincel que as mãos guiam (Foggy Dawn, 2020), zonas inacabadas (Jouhatsu #3). Tudo o resto … impressões de luz, sugestões de continuidade, padrões que se animam dentro de padrões — são ou podem ser ilusões. Na vida interior da pintura.

 

João Marçal

ZDB

 

José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação [ISCTE], é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia [FCT] e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações [Ípsilon, suplemento do jornal Público, Contemporânea e Ler].

 

A Galeria Minuta é uma parceria entre a ZDB: Galeria Zé dos Bois e a CMS Sociedade Internacional de Advogados.

 


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João Marçal, Oh My Dog! (2022). Vista de Exposição na galeria Minuta—uma aventura CMS/ZDB. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia do artista e ZDB.

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