Ed. 10-11-12 / 2019
10 / 20

Gonçalo Preto: Middle Finger Pedestrians

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Vincenzo Di Marino


In the dictionary the word “darkness” is defined as the absence of light, an absolute black which obscures the view. In literature and arts, the feeling connected to the absence of light has always been related to the idea of “evil and sin”; in the darkness, in the absence of everything, in the anxiety of nothingness, the humanity of this feeling still leads the narrative.

The second solo show Middle Finger Pedestrians by Gonçalo Preto at Madragoa Gallery fits perfectly with this narrative deployed by the dark. Entering the gallery your gaze immediately gets lost in the expansive black surface of the paintings. The first impression the viewer has is of black monochromes, but gradually, like the eye adapting to darkness, all the details appear, and everything becomes visible.

The first work to attract the eye is the minutely painted scene of Misfits (2019, as all the works are cited). Four people sitting around a small outdoor table surrounded by nature. Our protagonists are two couples who are having dinner in what could be a private garden or a campsite in a forest. They are smoking and talking about what could be something superficial. The light that illuminates the scene comes from a lamp beneath the table’s umbrella, revealing only some washing lines and a few parts of a tree in the background. The scene blurs towards the edges of the painting. Everything returns to the darkness and a feeling of incompleteness assaults the viewer’s mind.

As the viewer looks around the dark paintings as if moving around blindly in a dark room, it is possible to follow the story in the other three works installed in the room. Spine-tingling, Morcego ou Macaco? and LUNAR, like puzzle pieces, add more details eschewing a narrative’s linear construction. Like spotlights, they reveal the other actors on the stage.

A pack of wild dogs sneaking around in the shadows of a garden looking for something to eat; an animal (a bat or a macaque as the title suggests) biting a human hand; a detail of a tree lit up by what seems to be the headlights of a car. Looking closely at Morcego ou Macaco, it becomes clear that the head of the animal is totally unified with the darkness, it is only possible to recognise the eyes, painted as two small points of light, a nose and perfectly white teeth which are biting, in a sort of training exercise.

In this instance the previous idea to look at something as not defined, something hidden, is subverted by the totality of the vision. The image is crisp and clear, and the feeling of the viewer changes automatically. Everything seems extraordinarily normal.

The practice of Gonçalo Preto is completely focused on this shift of perspective, creating a body of work which is thematically unequivocal. Some works seem to be captured in an instant and for that reason, they, in a sense, don’t challenge the spectator’s imagination. However, the artist hides in the details, in the particulars sometimes painted in a hyper-realistic manner, the trigger of a complex and fragmented narrative. Once the first detail is discovered, the others follow incessantly one after the other and gradually they give birth to a different way of looking at his reality. In a sort of game based on the change of perspective, Gonçalo Preto tries to investigate the everyday life through a process of re-signification. In the case of Middle Finger Pedestrians, this process is easily obtained, submerging each representation in obscurity.

The invitation to look at things in a different way, looking for complexity, is also a meaningful act in the contemporary world. In a historic context characterised by the proliferation and consumption of fast images, the young Portuguese artist brings attention to the particular. He creates images that are obscured at first sight and which need more and more time to be uncovered — in a manner perceived as hostile, but not in a trivial way.

The exhibition ends on the first floor of the gallery and here, again, Gonçalo Preto shifts the perspective. The two small rooms are literally in the dark, without diffused light, except for two theatre spotlights that illuminate two small paintings. Artéria lies on the floor of the first room like the deceased gleaming dove represented in it, while Sopa de Pedra is an almost abstract painting (as the tile leads to imagine) that hangs customarily on the wall of the second room.

The night, only prophesied in the first body of works, has finally arrived and the viewer only now realises that they aren’t afraid of it.

Gonçalo Preto

Galeria Madragoa

Vincenzo Di Marino is an italian curator based in Lisbon. He obtained his MFA in Curatorial Studies at Naba in Milan. In 2018 he co-founded the curatorial research project Bite The Saurus based in Naples. In the last few years he worked with Umberto Di Marino gallery, Naples; Prada Foundation, Milan and Madre Museum, Naples.

 

 

No dicionário a palavra “escuridão” é definida como ausência de luz, um negro absoluto que obscurece a vista. Na literatura e nas artes a sensação ligada à ausência de luz esteve sempre relacionada com a ideia de “mal e pecado”; na escuridão, na ausência de tudo, na ansiedade do nada, a humanidade deste sentimento comanda ainda a narrativa.

A segunda exposição a título individual Middle Finger Pedestrians por Gonçalo Preto na Galeria Madragoa encaixa perfeitamente nesta narrativa empregue pela escuridão. Ao entrar na galeria o nosso olhar perde-se imediatamente na ampla superfície negra das pinturas. A primeira impressão que o espectador tem é de monocromos negros mas, gradualmente, como o olho a adaptar-se à escuridão, todos os detalhes aparecem e tudo se torna visível.

A primeira peça a cativar o olho é a cena minuciosamente pintada de Misfits (2019, como todas as obras citadas). Quatro pessoas sentam-se à volta de uma pequena mesa de exterior rodeada pela natureza. Os nossos protagonistas são dois casais que estão a jantar no que pode ser um jardim privado ou um acampamento numa floresta. Estão a fumar e a falar acerca do que poderá ser algo superficial. A luz que ilumina a cena vem de uma lâmpada debaixo do chapéu de sol da mesa, revelando apenas um estendal e umas poucas partes de uma árvore no fundo. A cena fica desfocada nas margens da pintura. Tudo retorna à escuridão e a sensação de incompletude assalta a mente de quem observa.

À medida que o espectador olha à volta das pinturas escuras, como se se movesse cegamente num quarto escuro, é possível seguir a história nas outras três peças instaladas na sala. Spine-tingling, Morcego ou Macaco? e LUNAR , como peças de um puzzle, acrescentam mais detalhes, fugindo à construção linear de uma narrativa. Como holofotes, revelam os outros actores em palco.

Uma matilha de cães selvagens a andar de forma furtiva nas sombras de um jardim à procura de algo para comer; um animal (um morcego ou um macaco como o título sugere) a morder uma mão humana; um detalhe de uma árvore iluminado pelo que parecem ser os faróis de um carro.

Olhando de perto para Morcego ou Macaco torna-se claro que a cabeça do animal se encontra totalmente unida com a escuridão, é possível apenas reconhecer os olhos, pintados como dois pequenos pontos de luz, um nariz e dentes perfeitamente brancos que mordem, numa espécie de exercício de treino.

Neste caso, a ideia anterior de olhar para algo como não definido, algo escondido, é subvertida pela totalidade da visão. A imagem é nítida e clara e a sensação de quem vê muda automaticamente. Tudo parece extraordinariamente normal.

A prática de Gonçalo Preto é completamente centrada nesta mudança de perspectiva, criando um repertório que é tematicamente inequívoco. Algumas peças parecem ser capturadas num instante e por essa razão, de certa forma, não desafiam a imaginação de quem vê. Contudo, o artista esconde nos detalhes, nos aspectos particulares por vezes pintados de uma forma hiper-realista, o detonador de uma narrativa complexa e fragmentada. Assim que o primeiro detalhe é descoberto os outros seguem-se incessantemente, um após o outro, e gradualmente originam uma forma diferente de olhar para a sua realidade. Numa espécie de jogo baseado na mudança de perspectiva, Gonçalo Preto tenta investigar a vida de todos os dias através de um processo de re-significação. No caso de Middle Finger Pedestrians este processo é facilmente obtido, submergindo cada representação na obscuridade.

O convite a olhar para as coisas de uma maneira diferente, procurando a complexidade, é também um acto significativo no mundo contemporâneo. Num contexto histórico caracterizado pela proliferação e consumo de imagens rápidas, o jovem artista português traz atenção para o particular. Cria imagens que são obscuras à primeira vista e que precisam de mais e mais tempo para ser descobertas — de uma maneira percebida como hostil, mas não de uma forma trivial.

A exposição acaba no primeiro piso da galeria e aqui, mais uma vez, Gonçalo Preto desloca a perspectiva. As duas pequenas salas encontram-se literalmente às escuras, sem luz difusa, excepto dois holofotes de teatro que iluminam duas pequenas pinturas. Artéria jaz no chão da primeira sala como a pomba morta e brilhante nela representada, enquanto Sopa de Pedra é uma pintura quase abstracta (como o título leva a imaginar) que está pendurada de forma habitual na parede da segunda sala.

A noite, apenas profetizada no primeiro corpo de trabalho, chegou finalmente e quem vê só agora se apercebe que não tem medo dela.

Gonçalo Preto

Galeria Madragoa

Vincenzo Di Marino é um curador Italiano sediado em Lisboa. Em 2018, co-fundou o projecto curatorial Bite The Saurus. Recentemente, colaborou com a Galeria Umberto Di Marino, Nápoles; Fundação Prada, Milão; Museu Madre, Nápoles.

 

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Gonçalo Preto: Middle Finger Pedestrians. Vistas da exposição. Galeria Madragoa. Cortesia do artista e Galeria Madragoa. 

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