Ed. 10-11-12 / 2019
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E.X.P.O.S.I.Ç.Ã.O. uma canção de amor 

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Eduarda Neves

E. eternidade

não pode haver resistência sem memória

[1]

L´Éloge de l´Amour. Jean-Luc Godard. Glorificado o amor, o cineasta torna-o condição da nossa memória individual e colectiva. História e esquecimento, cinema e resistência, desigualdades sociais, guerra e dominação: Godard celebra quelque chose. Numa obra que começa a preto e branco e acaba a ser filmada a cores, três casais, um de jovens, um de adultos e um outro de velhos, falam-nos da sua própria história que não deixa, também, de ser a nossa. O encontro, a paixão,  a separação e o reencontro, são-nos mostrados como os tempos do amor.

Uma exposição também pode ser um caso de amor. Como num filme.

É assim Parting With the Bonus of Youth - Maumaus as Object. [2]  Tal como o filme de Godard se reivindica como uma homenagem ao cinema, a exposição assume a morfologia de um certo estilo de amor pela Maumaus. Entendendo a liberdade da (sua) história como condição do sentido no presente e a juventude como um bónus, são mobilizados, de forma auto-referencial, os tempos do amor como tempos da história. Se no filme há uma personagem que fala mas não se dá a ver, também na galeria da Índia o que não se dá a ver é o que nos deixa pressentir a força da voz que se lança naquele espaço. Foi nesta exposição que reconhecemos um amor, se quisermos, a la Duras, um amor que recusa todos os compromissos, no sentido de “todos os ‘arranjos’ habituais entre os géneros (...) um amor que [vem] de longe, (...) estranho [3]. Alusões ao mercado da arte, a presença de obras de artistas como Pina Bausch, Alexander Kluge, Manthia Diawara, Rafael Bordalo Pinheiro, entre outros, dialogam com fotocopiadoras, textos, notícias televisivas, política internacional, estantes com livros, tomadas de electricidade; exemplos que dão forma a um espaço transfigurado numa espécie de grande documentário sem marcas visíveis de autoria, no qual a representação cede à presença do real. Objectos artísticos e não-artísticos, objectos de interesse, como lhes chamou Allan Sekula, arte e pedagogia, zonas de troca que mutuamente se implicam nesta exposição que corporiza a ideia de uma estética da existência enquanto prática da liberdade.

Entre a Maumaus e a Lumiar Cité, é a vida e a arte que se vão escrevendo. O direito a, em qualquer uma delas, se poder amar e estar apaixonado. Um romantismo: “o sentimento amoroso desse tipo, (...) é vivido ao mesmo tempo como direito a estar apaixonado e como dificuldade de o estar no mundo, em relação com o real." [4]

A eternidade, feita de tempo, nem sempre povoa uma exposição. Para a encontrarmos, será preciso, como lhe chamou Borges, um certo “estilo do desejo”. Será preciso quelque chose. O amor a qualquer coisa. Qualquer coisa como o amor. A eternidade passou por aqui.

X. desconhecido

Sir? Sir? You would understand everything.

We are destined to sail forever, to live forever [5]

Uma exposição, como o raio-X [6] é um objecto desconhecido. Está lá para que avancemos. O que dela podemos saber é apenas o que somos capazes de supor. Atrai-nos a impossibilidade de qualquer forma de concessão. O amor pede o amor, afirma Lacan. Faz-se uma exposição como se faz amor. Disse Artaud que a inteligência é a capacidade de nos contornarmos. Talvez soubesse ele, como poucos, que a inteligência é um labirinto do qual dificilmente saímos. Como numa exposição. Caminhar no espaço como num teatro da crueldade, de paragem em paragem, subidas e descidas, combatendo o enclausuramento.  

Amar é querer ser amado, diria Lacan a Sócrates. Só amamos aquilo de que nos sentimos privados, respondeu Sócrates a Ágaton. [7] Exposição: incorpora o prefixo ek, aquilo que está fora. “Ex”: o  correspondente em língua portuguesa. O mesmo de ex-istência. Nem todas as exposições nos mostram a vida inteira.

P. produção

Sim, como muitos outros, anunciamos o desenvolvimento de um fascismo generalizado [8]

Wild House (Act I) Filigree Sidewalk (Act II) e Deconstruction of the Factory (Act III) integram o projecto Traces of Disappearing (In Three Acts), de Igor Grubić, com curadoria de Katerina Gregos, para o Pavilhão da Croácia, no âmbito da 58ª Exposição Internacional da Bienal de Veneza.

Ao ensaio visual que documenta fotograficamente a transição do período pós-guerra na Croácia, o artista associa o filme How Steel was Tempered. Este projecto vem sendo desenvolvido desde 2006, quando começou a registar a mudança do socialismo para o capitalismo. O artista critica as implicações ao nível da habitação, do espaço urbano, da gentrificação, da forma como vão desaparecendo profissões tradicionais, tornadas já obsoletas, ou ainda a disseminação do capitalismo neoliberal e a indiferença generalizada face às ideologias. A retórica de que o local é global e a periferia é centro ou que, afinal, tudo se equivale, tornou-se um dos modos de ser do imperialismo simbólico, portador de falsas ilusões nas quais se especializaram as diversas formas de capitalismo. A destruição da fábrica e do mundo do trabalho, a privatização, o desaparecimento da memória histórica, são poética e documentalmente convocados para o filme que, através da relação pai-filho, ainda é capaz de nos fazer imaginar outros nomes para a nossa história, outros crepúsculos.

Há exposições assim, que nos falam da renúncia política e do tempo despedaçado, das formas avariadas do amor.

O. ouvir

O verdadeiro amor é excepcional, dois ou três em cada século, mais ou menos.

O resto do tempo há a vaidade ou o tédio [9]

Há exposições feitas para serem vistas mas são pássaros que ouvimos. Exposições timpanizadas, diria Nietzsche. Acontece o mesmo com o amor, quando tudo mostra e tudo inventa. Diotima, a estrangeira, já avisara que o amor é o intermediário que “preenche por inteiro o espaço entre uns e outros, permitindo que o Todo se encontre unido consigo mesmo”. [10]

Há artistas que no lugar do coração têm uma grande orelha, são ornitólogos do mundo. Flores, terra, café, papéis, tintas, velas, telas, madeiras, vidros, carvão, garrafas, roupas, algodão, linho, sacos, comida. Sinos em cima de uma mesa.

Palavras. Como uma pintura. O terceiro ouvido: a ética de uma certa ideia de pobreza. Jannis Kounellis na Fondazione Prada, [11] Setembro, 2019. Amo-te. 

S. saltar para o i. Ele está à espera.

 I. i love you

A perseverança é necessária. (...) O amor detesta qualquer atraso: se não tem carro, faça o caminho a pé. (...) O amor é uma espécie de serviço militar. Para trás, homens cobardes. [12]

A exposição como carta de amor. Uma dedicatória. Um acto de coragem: ex-posição através da qual o amor se faz. Por isso ela não é do território da simples comunicação mas do abalo que nos arrasta para o sentido agostiniano da medida do amor como amor sem medida. Não impõe a tirania do código, antes se alastra como uma epidemia. Sem representação de propriedade, a exposição é imagem situada, objecto único — objecto amado, tornado máquina de transgressão. É possível, apesar de tudo, fazer exposições para não enlouquecer. 

Ç. Ã. O. oração

Se pretendes saber como isto sucede, interroga a graça e não a ciência; o desejo e não a inteligência; o clamor da oração e não o estudo dos livros (...) a treva e não a claridade. [13]

Uma oração é uma prece, um apelo. Uma exposição é um desejo e ninguém recebe senão quem deseja. [14] 

Poderíamos construir uma teoria do desejo a partir de uma ideia ou da imagem de uma exposição. O amor platónico ou o amor cortês. Perdermo-nos na exposição como em todo o objecto de amor. Morrer nela. Morrer nele.

Uma exposição é uma canção de amor inscrita em audaciosa religiosidade.

 

 

Eduarda Neves. Licenciada em Filosofia e Doutorada em Estética. Professora de teoria e crítica de arte contemporânea, área na qual tem vários trabalhos publicados. Curadora independente. A sua actividade de investigação e de curadoria cruza os domínios da arte, filosofia e política.

 

Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UID/EAT/04041/2019.

 

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

 

 

Imagem: Jean-Luc Godard, still do filme Éloge de l'amour / In Praise of Love, 2001. 

 


[1] Jean-Luc Godard - L´Éloge de l´amour, filme, 2001.

[2] “Fundada em Lisboa, em 1992, a Maumaus promove a produção de conhecimento em torno da arte contemporânea, organizando programas de estudos e residências artísticas, produzindo filmes e publicações, apresentando exposições no seu espaço público denominado Lumiar Cité.” (texto da folha de sala desta exposição realizada na Galeria Avenida da Índia entre 23.06 e 08.09.19].

[3] Marguerite Duras - Vida Material. Lisboa: Difel, 1994, p. 94.

[4] Roland Barthes - “A crise do desejo”, in O Grão da Voz. Lisboa: Edições 70, 1982, p. 354.

[5] Alexandr Sokurov - Russian Ark, filme, 2002.

[6] Assim baptizado pelo físico Wilheelm Conrad Rontgen que desconhecia a natureza da luz que acabara de descobrir.

[7] Platão - O Banquete. Lisboa: Edições 70, p. 67.

[8] Gilles Deleuze - Conversações. Lisboa: Edições Fim de Século, 2003, p. 33.

[9] Albert Camus - A Queda. Lisboa: Livros do Brasil, s/d, p. 92.

[10] Platão - O Banquete. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 70.

[11] Exposição retrospectiva de Jannis Kounellis na Fondazione Prada, 11.05-24.11.19. Curadoria de Germano Celant.

[12] Ovídio - A arte de amar. Porto Alegre: L&PM Editores, 2001, p. 56.

[13] S. Boaventura- Itinerário da mente para Deus. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 1973, p. 193.

[14] Ibid., p.189.

 

 

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