Ed. 04-05-06 / 2020
1 / 6

Laure Prouvost: Melting into one another ho hot chaud it heating dip

image7-1 (1).jpeg
Sofia Nunes

 

No outro dia, enquanto desinfetava os meus ténis, depois de vir da rua, reparei que o perfil da sola estava cheio de salpicos de tinta preta. Não me lembrava de ter passado por nenhuma zona de obras, nem de ter pisado nenhum pavimento sujo ou molhado. Aliás, os salpicos até já estavam secos e bem impregnados na borracha, mas continuavam a exalar um cheiro ligeiramente enjoativo, denso e fechado, embora familiar. Foi então que voltei a entrar, agora de memória, na exposição concebida por Laure Prouvost para a Kunsthalle Lissabon, a convite dos curadores João Mourão e Luís Silva.

É a primeira vez que Prouvost expõe em Portugal (finalmente!) e não tenho dúvidas de que esta é uma das melhores exposições a que pudemos assistir nos últimos tempos em Lisboa. É contida no número de peças (uma instalação principal que dá nome à mostra, acrescida de uma segunda peça mais pequena), mas suficientemente inventiva para nos envolver numa complexa rede de materialidades, onde o mundo é já sempre outro e onde o que sentimos e pensamos se negoceia no minuto seguinte com novas sensações, sentimentos, incertezas e ideias. Tudo se experimenta sob fluxos. É como se o nosso aparelho sensorial inteiro e o conhecimento das coisas se alterassem à velocidade da circulação de objetos, informação e imagens e como se os dados da realidade se modificassem ao ritmo das sinapses, do sonho, do desejo e da contaminação entre cheiros, texturas, estados líquidos e sólidos ou entre elementos físicos e imateriais. Um processo de associação livre que, nos termos de Prouvost, se alia a técnicas de escavação e à criação de zonas subterrâneas.

“Keep digging, keep digging deeper and deeper...” diz o poema que acompanha a folha de sala. E entramos.

O espaço expositivo da Kunsthalle, que por sinal é uma cave, foi totalmente transformado num ambiente escuro, húmido e de odor nauseante. O piso está coberto por uma substância líquida preta e fede a tinta de moluscos. A visibilidade é escassa. Caminhamos mais com o tato do que com a visão que se vai habituando, com dificuldade, à ausência de luz. O trajeto faz-se por entre cortinas que pendem do teto, lado a lado, formando corredores estreitos. É impossível não tocá-las com o corpo. São finas e estão molhadas por escorrências de água, como guelras de um animal aquático. Algumas bloqueiam a passagem por terem a si agarradas umas esculturas que o toque reconhece serem tentáculos. Outras deixam-nos passar até chegarmos a uma área mais ampla e iluminada pela luz brilhante das várias imagens-vídeo digitais avulsas que são projetadas sobre o piso ensopado.

Agora que visionamos filmagens de um polvo enfeitado de frutas a arrastar até si as imagens que se vão acumulando no chão e que descobrimos à nossa volta uma série de objetos e detritos do quotidiano, perguntamo-nos se não estaremos afinal dentro da cabeça de um espécimen de polvo a testemunhar as suas memórias e sonhos, apetites e inteligência. Não fosse a cabeça deste animal o repositório do seu cérebro, estômago ou brânquias.

Porém, nos espaços interiores escavados por Prouvost não há binarismos que resistam. Para além do polvo aparecer representado no vídeo com braços de mulher e de escutarmos ao fundo uns gemidos pré-verbais, meio-humanos meio-animais, percebemos que o chão está também povoado por uma série de tentáculos moldados a vidro e agarrados a mamas e pernas femininas passadas a argila. Múltiplas ressonâncias passam então a ligar os dois mundos, pelo que no desejo, corpo húmido e voracidade do animal é também a libido e o subconsciente humanos que se reveem, assim como a cultura digital que tudo aglutina e absorve. É neste instante que o cheiro intenso a tinta de moluscos volta a interrogar-nos. Sabemos que este líquido orgânico preto, viscoso e brilhante é expelido quando os polvos, à semelhança de outros moluscos cefalópodes, se protegem contra uma ameaça, mas a linguagem surrealizante de Prouvost recusa naturalismos. A questão persiste como latência, sem forma concreta, ainda que a ação das políticas extrativistas sobre o ecossistema não demore a surgir-nos, especialmente quando pensamos na captura económica e industrial da vida oceânica e reparamos que, entre as imagens projetadas absorvidas pelo polvo, se destacam notícias televisivas de cheias e incêndios descontrolados. 

Já de saída, somos atraídos por uma outra peça, intitulada The smoking mother is hot, 2023 que tende a funcionar como linha de fuga, introduzindo na exposição um contraponto. Trata-se de um telemóvel caído no chão com um vídeo a passar, cuja datação nos situa ficcionalmente três anos à frente. Baixamo-nos para ver melhor. Uma filmagem em close up mostra-nos uma mão a apontar para um solo de terra com alguma vegetação, enquanto uma voz off feminina sussurra. Pede para nos aproximarmos, ao mesmo tempo que nos seduz com humor e tenta oferecer algo. Será uma saída para a vida, para as suas possibilidades germinais? Enquanto olhamos para a terra através do ecrã e o desejo de escavá-la aumenta é também uma ideia de mundo que emerge e se alastra à exposição. Um mundo onde cada elemento material —animal, vegetal, mineral, digital, objetual, humano — intervém, se contagia e confronta para se re-singularizar. Pousados ao lado do telemóvel estão uma clementina e uns ramos de uma árvore. Um cheiro cítrico envolve-nos agora numa atmosfera fresca e não resistimos a tocar no fruto, sem imaginarmos que dali a escassos dias toda a experiência tátil mudaria e que a estratégia multissensorial e ecológica dos corpos explorada pela artista se tornaria talvez ainda mais preciosa.

Laure Prouvost   

Kunsthalle Lissabon

Vimeo

Sofia Nunes. Crítica de arte e doutoranda em História da Arte/Teoria da Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL e na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Exerceu assistência de curadoria e produção de exposições no Museu do Chiado – MNAC, Ellipse Foundation e Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém (2000 a 2007). Foi professora convidada no Mestrado de Arte Contemporânea da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2009 a 2011). Escreve com regularidade para publicações de arte contemporânea e académicas.

  

 

A few days ago, while I was disinfecting my sneakers after coming home, I noticed the sides of the soles were spattered with black paint. I couldn't recall having passed by any construction site nor stepped on any dirty or wet pavement; in fact, the paint was already dry and impregnated into the rubber. However, it still exuded a slightly sickly, dense, and concentrated, if familiar, smell. That was when I re-entered—through memory—Laure Prouvost's exhibition at the Kunsthalle Lissabon, curated by João Mourão and Luís Silva.

It is the first time that Prouvost shows in Portugal (at lastl!), and I have no doubt this is one of the best exhibitions we have recently seen in Lisbon.

It is moderate in quantity—a main installation which gives name to the exhibition in addition to another smaller piece—but sufficiently inventive to comprise a complex network of materialities: one where the world is already, constantly another and where what we feel and think is immediately bargained with new sensations, feelings, uncertainties, and ideas.

Everything is experienced within fluxes. It is just like our entire sensorial system and the knowledge of things altered at the speed of circulating objects, information, and images; and the data of reality changed at the pace of synapses, dreams, and desire together with the contamination of smells, textures, liquid, and solid states or physical and immaterial elements. Prouvost links this process of free association to techniques of excavation and to subterranean areas.

"Keep digging, keep digging deeper and deeper…" the poem in the exhibition brochure reminds us.

The Kunsthalle venue, which is curiously enough a basement, has been transformed into a dark, damp space of nauseating smell. The floor is covered in a wet black substance that reeks of mollusc ink. Visibility is poor. Touch is more useful to walking than sight, which gradually, barely grows accustomed to the absence of light. We walk through corridors of thin curtains hanging side by side from the ceiling. It is impossible not to touch them with our bodies. Like gills of aquatic organisms, water runs off their surfaces. Sculptures that our touch recognises as tentacles are stuck fast to some of the curtains, which thus block the path; others let us through to a more spacious area, illuminated by the brightness of several separate digital video-images projected onto the soaked floor.

Now that we watch footage of a fruit-adorned octopus dragging piled-up images on the floor towards itself, and we notice a number of everyday objects and dross around us, we wonder: are we actually inside the head of an octopus specimen, witnessing its memories and dreams, its desires and intelligence, as its head contains its brain, stomach, and branchia?

However, no binarism survives in the interior spaces Prouvost digs. Apart from a video depiction of the octopus with female arms and from the pre-verbal half-human, half-animal moans we hear at the back, a number of glass-moulded tentacles grasping clay-cast female breasts and legs can be found all over the floor. A multitude of resonances thus connect the two worlds. Not only the human subconscious and libido but also digital culture, which absorbs all, recognise themselves in the animal's desire, voracity, and wet body. At this moment, the strong smell of mollusc ink queries us again. We know octopuses and other cephalopod molluscs release this glossy, slimy, black organic liquid as a means of protection, but Prouvost's surrealising language rejects naturalist approaches. This matter remains latent, with no concrete form, even though the action of extractivist politics on the ecosystem will not take long to come to mind—especially when, upon considering the economic and industrial capture of marine life, our attention is drawn to TV news of uncontrolled bushfires and floods amidst the projected images absorbed by the octopus.

On our way out, another piece titled The smoking mother is hot, 2023, attracts us. Tending to function as a line of flight, introducing as such a counterpoint into the exhibition, it is comprised of a mobile phone on the floor playing a video, the date of which fictionally fast-forwards us to three years from now. We stoop down to get a better view of it. A close-up footage of a hand pointing to a piece of ground covered with vegetation complements a whispering female voice-over. The latter asks us to get closer as it humourously seduces us and attempts to offer us something. Could it be an exit to life, to its germinal possibilities? As we look at the piece of ground on the screen and our desire to dig it increases, an idea of world too emerges and permeates the exhibition. This is a world in which all material elements—animal, vegetal, mineral, digital, objectual, human—take part, contaminating and confronting each other towards resingularisation. A clementine and some tree branches are found by the phone. The fresh atmosphere produced by the citric scent surrounds us, and we cannot help but touch the fruit—without the slightest awareness that in very few days all tactile experience would change, and that the multisensorial, ecological strategy of bodies employed by Prouvost would become ever more precious.

Laure Prouvost   

Kunsthalle Lissabon

Vimeo

 

Sofia Nunes. Art critic and Ph.D candidate in Art History/Theory of Art at NOVA FCSH — UNL and Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Curatorial assistant and exhibition producer at Museu do Chiado — MNAC, Ellipse Foundation, and the CCB Exhibition Centre from 2000 to 2007. Guest lecturer for the MA in Contemporary Art at Universidade Católica Portuguesa from 2009 to 2011. Regular writer to contemporary art and academic publications.

 

Translation PT-EN: Diogo Montenegro

  

Laure Prouvost-1
Laure Prouvost-2
Laure Prouvost-3
Laure Prouvost-4
Laure Prouvost-7
Laure Prouvost-19
Laure Prouvost-8
Laure Prouvost-13
Laure Prouvost-9

Laure Prouvost: Melting into one another ho hot chaud it heating dip. Vistas gerais da exposição. Kunsthalle Lissabon. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Kunsthalle Lissabon.  

Voltar ao topo