Ed. 04-05-06 / 2020
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A tentar imaginar o futuro

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José Marmeleira

Hibernação, paragem, suspensão, annus horribilis, interrupção, espera, substituição.

 

Com testemunhos de:

Bruno Marchant, Cristina Guerra, David Santos, Delfim Sardo, Filipa Oliveira, Francisco Fino, Isabel Carlos, João Laia, Sara Antónia Matos, Tobi Maier. [1] nota da editora

 

De galeristas, curadores e diretores de museus, as palavras sucedem-se para dar sentido ao que está a acontecer. Com a prudência e a paciência desejáveis, mas também com ansiedade, se não mesmo angústia. A situação reveste-se de um ineditismo e de uma imprevisibilidade que, há pouco mais de um mês, pareciam aspetos de uma realidade longínqua, irreal. Condições particulares e específicas, mas nem por isso desconhecidas, alteraram, em poucos dias, o quotidiano de todos, sem exceção. Agora, a vida com e contra o vírus é um facto e um estado irrefutáveis. Resta saber até quando. Ora é precisamente, enquanto aguardam pelo fim desta paragem, que vários atores da cena artística discorrem sobre o que está a acontecer. Vislumbrando caminhos, colocando hipóteses, meditando sobre as consequências nas vidas concretas e na atividade económica dos agentes do meio, projetando cenários e consequências. Num misto de estupefação, torpor e firmeza.

Da galeria CRISTINA GUERRA, receio e expectativa. A galerista fechou o espaço no passado dia 14 de Março, para não mais o reabrir, cancelando a exposição prevista de Melik Ohanian. A actividade permanece, mas noutros moldes. “Neste momento, estamos a trabalhar a partir de casa. Tenho ido à galeria, dia sim, dia não. É completamente diferente do trabalho que se faz em condições normais”.  As tarefas de escritório feitas à distância não escondem a fragilidade da situação. “Não há entrada de dinheiro, não há pedidos, não há perguntas”. Cristina reconhece a existência de um impasse de uma paragem, que interrompeu a realidade anterior: “Havia uma retoma, as coisas começavam a mexer, sobretudo para quem tem um trabalho mais internacional”, considera. “Entretanto passámos a exposição [do Melik Ohanian] para Junho, a do Lawrence Weiner também passou para mais tarde. Não vai haver ARCOlisboa em maio. A feira de Basel vai passar para o Outono. Em preparação estava também a exposição de André Cepeda no MAAT, mas em princípio também vai ser adiada. Estamos todos os adiados, o governo tem de tomar medidas. Isto não é uma mera crise económica, é uma hibernação, estamos hibernados”.

Com a galeria recolhida, Cristina Guerra aguarda a intervenção do Estado. “Foi apanhado desprevenido, mas tem de assumir responsabilidades, tem de haver medidas relativamente às empresas. Fala-se das linhas de crédito, temos de perceber ainda o que significam. Tem de ser uma coisa mais efetiva. Por exemplo, crédito com juros baixos ou acrescentando impostos, mas sem juros”, assevera, antes de sugerir outra medida possível. “Precisamos de um apoio real à economia real. Em relação aos artistas deve-se comprar obras, convencer os museus a fazer compras. O museu de Serralves, por exemplo, não compra há imenso tempo”. Esta medida será tanto mais essencial se a situação se prolongar indefinidamente. “Fomos apanhados num momento de transição”, nota Cristina Guerra. “Se as empresas tiverem crédito, também ajudarão os artistas, mas se pára tudo, e por muito tempo, muitas galerias vão fechar. Vamos tentar que isto passe o mais depressa possível, caso contrário a economia estoura completamente”.

É precisamente a questão económica que preocupa JOÃO LAIA, curador-chefe do KIASMA, o museu de arte contemporânea de Helsínquia. “Tudo dependerá do modo com a economia se comportar, do impacto económico desta situação, da rapidez da recuperação O mundo da arte está estritamente ligado a dinâmicas financeiras e económicas e isso vai ditar o seu funcionamento, terá um impacto imenso na disponibilidade dos artistas para produzirem, para pensarem. Em Portugal despertará uma série de ansiedades que ainda estão muito presentes.  A memória e os efeitos da crise económica e da austeridade ainda se manifestam”.

A incerteza vai, entretanto, colocando uma tensão excruciante sobre a saúde económica e financeira dos agentes: “Vou pagar ordenados aos empregados, mas ao fim de dois, três meses, não sei se aguentarei mais”, admite Cristina Guerra. “Nesse caso, terei que reduzir a galeria ao mínimo”. Tais medidas não serão tomadas de ânimo leve, sublinha. “Não quero despedir pessoas. Mas a situação pode tornar-se insustentável. Enfim, aguardo por incentivos do Estado”. O tempo é um elemento fundamental. Tudo dependerá da extensão desta paragem “Não sei quanto tempo vai durar. Se não houver uma procura, não há vendas e se não houver vendas, as coisas não andam. Se forem dois, três meses, haverá, espero, uma retoma rápida. Vamos ver como isto se resolve com o mínimo de estragos possível”. Cristina Guerra marcou o regresso para Junho, mas receia que a paragem venha a durar mais tempo. E ainda que se verifique um regresso à normalidade, as condições dessa normalidade podem ser outras, determinada por condições inéditas. “Estamos todos a esperar para ver, sem entramos em pânico”, remata.

Na expectativa, também permanece FRANCISCO FINO. O galerista também decidiu cancelar a exposição [de Karlos Gil] que tinha prevista para o dia 13 de março. “Percebi a situação em Espanha e mesmo com a exposição praticamente montada, acabei por fechar a galeria e o artista teve que voltar para Madrid”, conta. “Uma solução é pensar numa visita digital, embora nessas conduções o artista não possa apresentar o seu trabalho devidamente”.

A opção pelo digital está no horizonte, mas ainda por explorar e situar. “É uma abordagem ou estratégia que muita a gente está a usar, nomeadamente lá fora onde o panorama digital é mais avançado”. Embora, frisa o galerista, a relação do mercado e dos colecionadores portugueses com as obras ainda seja tradicional, com a preponderância da relação física, a criação de plataformas digitais pode ser, a curto prazo, um recurso pertinente e útil. “Não podemos ficar parados. Parar é morrer. Temos que nos manter, pelo menos, vivos. E a única forma que agora encontramos é a plataforma digital”. Esta perspetiva é fundada na experiência de uma realidade cada vez mais visível. “Há feiras e galerias a fazer visitas on-line, a apresentar conversas com os artistas, com os colecionadores. A fazer mostra de obras dos acervos ou de exposições anteriores. Mas são galerias que têm muito material de arquivo com que podem trabalhar”. O contexto da Francisco Fino é distinto: “Somos uma galeria jovem, a caminho de fazer três anos. Estamos ainda num período que consideraria embrionário. Não tem sido fácil”, desabafa. “Neste momento, e apesar da Arco ter corrido bem, não tem havido compras”. Entretanto, a programação foi recalendarizada e, no pior dos cenários, a galeria reabrirá em Setembro.

“Com medidas mais extremas, as coisas voltarão ao normal”, antevê. “Se isto se arrastar, vamos viver uma situação bastante vulnerável. Há artistas que estão complemente dependentes de comissões e vendas. O sistema não pode estar indefinidamente sem funcionar. O nosso mercado ainda é muito ibérico e as novas galerias serão as mais fragilizadas”. Sobre a saúde económica da galeria, Francisco Fino confia que, a curto-prazo, aguentará o embate. “A nossa estrutura é muito leve. O edifício não é arrendado e só trabalho com duas pessoas. Se as coisas se puserem de novo em marcha, vamos conseguir aguentar-nos. Mas também é verdade que não temos a almofada de outras galerias. Fizemos um sprint grande no início”, frisa. “Agora, resta reinventarmo-nos com o que temos. De resto, talvez não valha a pena antecipar muitos cenários. Esta ainda é uma frase precoce”.

 

Navegação à vista, com o digital

O cenário nas GALERIAS MUNICIPAIS DE LISBOA é semelhante. Incerteza, paragem, mas também oportunidade para introspeção e produção teórica. “Estamos em diálogo com curadores e artistas, com os quais temos uma programação estabelecida. A ver como podemos ajustar o nosso cronograma para a frente”, revela TOBI MAIER, o diretor. “Não há uma data para a reabertura, mas quando acontecer, as exposições que encerrámos voltarão a estar disponíveis aos visitantes por mais algum tempo”. Já se o estado de emergência continuar por mais tempo, torna-se mais difícil fazer previsões e planos. “Tentaremos reagendar as exposições mais para frente. Algumas podem passar para o ano que vem. Em relação aos programas públicos e às inaugurações, não sabemos como vai ser a vida depois do regresso à normalidade”, reflete.

Enquanto isso, o on-line afigura-se como medida plausível, ainda que, para já, em condições mais ou menos experimentais. “Estamos a pensar fazer concertos em streaming, utilizar os recursos do podcast, mediar as nossas exposições através da tecnologia. São meios de acesso que não implicam a aglomeração de pessoas num espaço fechado. Há ideias que vão circulando e que, no nosso caso, têm de ser discutidas com os artistas e curadores com quem dialogamos. Depois veremos o que se pode implementar. É fundamental contar com a criatividade dos artistas, incentivar novas possibilidades”.  Desde o fecho forçado, as Galerias Municipais de Lisboa têm funcionado, como tantas outras instituições, em regime de teletrabalho. “Trabalhamos em projetos que podemos fazer, isoladamente, a partir de computadores. Por exemplo, a fechar publicações, como a da Adriana Proganó, a da exposição Topografias Rurais, o livro do Stefano Serafin. Estamos, também, ocupados na pesquisa e recuperação da história das exposições das galerias, a uniformizar conteúdos que serão disponibilizados no site bilingue que estamos a criar”. Tobi Maier lembra que estas atividade já se realizavam antes, mas a conjuntura atual veio privilegiá-las. “Temos mais tempo para dialogar com os artistas sobre as exposições. Em termos de produção teórica, posso aproveitar mais o tempo. Pensar de um modo mais aprofundado, escrever textos, desenvolver pesquisas para exposições futuras”.

O curador não quer romantizar a quarentena. Preocupam-no os efeitos negativos deste recolhimento forçado pelo SARS-CoV-2. “Vivi muitos anos no Brasil. Pessoas com quem trabalhei vivem atualmente situações de grande risco, muito precárias. Isso preocupa-me muito. Como poderemos protegê-los?  Nesse sentido, as medidas de apoio são muito importantes. Temos de agir nesse sentido e perceber que tipo de medidas. Governamentais e outras”.

Para já, e a curto prazo, as Galerias Municipais de Lisboa vão apostar na mediação tecnológica dos projetos, reconhecendo e combatendo a incerteza que estes intervalos vão acumulando nos agentes. “Todos esperamos poder partilhar obras e exposições em comunidade, fazer a arte acontecer nas galerias, nos museus, nos teatros. E continuar a internacionalizar o meio, a dar oportunidade aos artistas locais em termos de exposições e publicações. Mas agora, para nós, trata-se, igualmente, de um momento de reflexão e de produção de conteúdos escritos com uma maior concentração mental. E, nesse sentido, ir conversando com os curadores com os quais temos projetos para um futuro próximo”.

Nomeado em Março como novo administrador do CENTRO CULTURAL DE BELÉM, o curador e ensaísta DELFIM SARDO comenta a situação presente: “É de uma incerteza enorme. Não sabemos quanto tempo vai durar, não conhecemos os desenvolvimentos futuros do que se está a passar. Resta-nos uma espécie de navegação à vista, fazer os planos que o curto prazo vai exigindo e tentar configurar, a mais longo prazo, o que vão ser estas mudanças, quer ao nível das programações estabelecidas pelas instituições, quer ao nível das relações com os artistas”. Menos incerta é tensão que se coloca, ainda que em graus diferentes, sobre todos. “É [uma situação] muito difícil para as instituições, para os artistas. Para as galerias, que inauguraram as suas exposições e que tiveram de encerrar imediatamente”, lamenta. “Há e haverá uma tentativa de criar e usar plataformas on-line, disponibilizar conteúdos, fazer visitas digitais a exposições. Mas todos sabemos que estamos num processo de substituição”. Para o curador, esta alternativa temporária não eliminará a natureza pública da esmagadora maioria das obras de arte. “Há tipologias que podem ter alguma capacidade de ser documentadas de um modo digital, mas há todas aquelas que têm de ser experienciadas in loco. Dou o exemplo de A Exposição Invisível que estava prevista para inaugurar a 4 de Abril na Culturgest de Lisboa. Não pode ser feita, nem documentada por via de uma exposição na Internet. Há obras cuja experiência tem de ser feita no local. São ambientes, a sua experiência não pode realizar-se de outra maneira”, argumenta. “Claro que aquelas relacionadas com imagens em movimento podem ter substitutos. Alguns vídeos, por exemplo, podem ser partilhados”.

A possibilidade do digital é partilhada por outros curadores, mas com as devidas e óbvias ressalvas. Embora observe que o digital se tornará uma ferramenta vital, SARA ANTÓNIA MATOS vinca que a “a presença e a experiência háptica, in loco, das obras e das exposições, são indispensáveis e sobretudo insubstituíveis”.

Pelo seu lado, BRUNO MARCHAND, novo programador de artes visuais da CULTURGEST, considera as plataformas on-line ferramentas extraordinárias de divulgação, mas lembra “a sua limitação no que respeita à possibilidade que têm de traduzir ou de replicar experiências que foram pensadas para ser vividas presencialmente, como é o caso das experiências propostas pela esmagadora maioria das obras de artes visuais”.

Já FILIPA OLIVEIRA, curadora e diretora artística da CASA DA CERCA vê como incontornável o recurso da parte dos agentes a esse tipo de instrumentos e meios: “Estávamos, pelo menos em Portugal, ainda muito imaturos a trabalhar estas plataformas que terão de ser rapidamente desenvolvidas de maneira a criar novas formas de diálogo com diferentes públicos. Espero que consigamos reinventar o que pode ser o papel de um museu em tempos como estes, nestas condições de afastamento e distância”.

DAVID SANTOS, recentemente nomeado como futuro curador da COLEÇÃO DE ARTE DO ESTADO, subscreve os mesmos pontos de vista, enfatizando a relevância da experiência direta e pública da obra como fundamento conceptual da arte: “Podemos fazer arte com vídeos e plataformas digitais, mas não será possível mediar tudo. A arte funciona numa relação com a experiência estética, social e convivial. Há atividades que podem ser desempenhadas de forma indireta, como as reuniões, a troca de argumento ou informações, até por razões ambientais, mas a relação direta do ser humano com a obra de arte vai continuar a acontecer, caso contrário, já não será a arte como a conhecemos”.

 

 

Ao colocar problemas inéditos e inesperados, as circunstâncias deste confinamento não influenciam apenas a publicitação da arte, mas podem configurar outros modos de funcionamento e de práticas. “Vão ter que ser pensadas pelos agentes artísticos”, diz DELFIM SARDO. “Por exemplo, qual será a relação desejável entre galerias e museus? Tem que haver uma cumplicidade maior em termos de trabalho. Por outro lado, há uma situação que se pode colocar. Refiro-me a uma espécie de protecionismo em relação aos artistas locais que deve ser pensada com cuidado. É de facto necessário proteger os artistas que ficaram numa situação precária, mas não podemos cair num fechamento local”. Haverá essa tentação? O curador admite que sim e que deve ser “tomada em consideração em relação aos artistas que estão mais próximos de nós, sem se perder aquilo que as artes foram construindo, que é a capacidade de nos encontramos com realidades que nos são longínquas e isso aplica-se não só as artes visuais, mas também às artes do espetáculo”.

Mas de que modo podem essas cumplicidades concretizar-se? “Num reforço da política de aquisições, por exemplo”, sugere. “Devia haver idealmente uma política de aquisições gizada pelas instituições. Por exemplo, conceber os espaços dos museus como plataformas temporárias de apresentação de exposições e obras que estiveram em galerias. É preciso estabelecer canais de diálogo”. Para lá das instituições, estão os artistas, com as suas práticas. Que consequências se adivinharão se o isolamento e o distanciamento se mantiverem? “Imagino algumas”, propõe Delfim Sardo. “Uma vai ser um retorno à manualidade, paradoxalmente com todo o acesso aos meios digitais. Os artistas vão ganhar alguma independência e autonomia no seu trabalho, naquilo que podem executar com a mão. Por outro lado, vai permitir um processo de autorreflexão sobre o próprio trabalho. Há artistas a organizar ficheiros, a olhar para o trabalho, a reequacionar o que fizeram. Haverá, também, um crescimento de suportes imateriais, de transmissão por plataformas digitais, mas a um nível do que os artistas conseguirão controlar”. No domínio da produção que implica colaboração direta, a presença de assistentes, a formação de equipas, o impacto acontecerá na direção oposta. “Aqueles que trabalham dentro e com estruturas, que necessitam dos outros para produzirem o seu trabalho, não vão poder continuar a sua atividade nesses moldes”, responde. “Há uma espécie de fim de um ciclo. Vamos entrar numa fase que não sabemos o que vai ser. Talvez traga, para vários artistas, um reequacionamento da sua atividade”.

A impossibilidade de imaginar um futuro

SARA ANTÓNIA MATOS também antecipa a mesma disposição, mas alarga-a às instituições. “Terão de desconstruir o objectivo final dos grandes números de visitantes, os grandes grupos e massas de pessoas que indiferenciadamente visitavam museus e que condicionavam muitas vezes o sentido das programações. E reflectir sobre a importância de outro tipo de experiências no museu”. No ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR, acrescenta, já se têm realizado “ações mais dirigidas a pequenos grupos de interesse. Claro que isto implica outras readaptações, que vão ter que acontecer ao nível político das administrações e tutelas, ao nível orçamental, tecnológico, comunicacional. Para já, outra das coisas que vai mudar, e sem qualquer margem para dúvidas, é o ritmo de produção, algo para o qual nos últimos tempos vários pensadores no campo das artes e da filosofia vinham já chamando à atenção. Era preciso desacelerar”.  

Com um ponto de vista semelhante, DELFIM SARDO refere-se aos efeitos no modo de vida de artistas, curadores, colecionadores, críticos e públicos. “A circulação sem limites, o permanente movimento das pessoas para fazer exposições e residências vai ser repensado. O desafio é como poderemos manter essa circulação de uma forma mais consciente em termos ambientais. Sabendo que não nos pode trazer um culto do enraizamento, pois pode vir a ser o passaporte para o bicho mais feio, para o ovo da serpente mais perigoso. Vamos ter de reinventar o circuito artístico de outra maneira”.

Enquanto esse momento não se revela, aguarda-se a intervenção das entidades públicas, com os devidos programas de apoios e auxílios. DAVID SANTOS, na condição de curador, crítico e historiador, garante que a comissão de aquisição de obras de arte se encontra em pleno funcionamento e que serão cumpridos os prazos para as aquisições de 2020, anunciadas pela Ministra da Cultura. “Estamos a trabalhar nisso”, diz. “O coronavírus não está a afetar o funcionamento da comissão das aquisições.  Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para que haja um cumprimento dessa missão, da reabilitação de uma política de aquisições que começou em 2019. O Estado não vai abandonar os artistas. E nos próximos meses haverá novidades. Estamos já numa frase muito adiante, na conclusão das nossas aquisições. É um sinal positivo”.

A urgência da tomada de medidas é reconhecida por David Santos dado o contexto atual, mas também a vulnerabilidade económica e material que, em muitos casos, porventura na grande maioria, não deixou de condicionar o trabalho e a vida dos artistas em Portugal. “A esmagadora maioria vive uma situação que continuava desequilibrada, precária, mesmo num contexto de crescimento económico. A realidade que existia antes da crise já tinha enormes limitações. Agora com o impacto do SARS-CoV-2, absolutamente inédito, as economias estão quase encerradas. Sabemos que os efeitos serão muito negativos, muitos severos”. Dito isto, o curador confia numa recuperação ainda que em moldes não totalmente discerníveis. “Acredito que não será um vírus, pese embora todo o seu impacto, que vai impedir a recuperação. Será lenta, mas vai acontecer. Há uma resiliência característica dos próprios artistas, das galerias, dos amantes da arte”. No que respeite ao Estado, David Santos, afirma que lhe competirá “um incremento, uma capacidade de reagir e apoiar o sistema da arte. Refiro-me não apenas às instituições do estado, mas também aos artistas, aos produtores, aos programadores de cultura, às instituições privadas. Todos os profissionais da cultura têm de ser apoiados. O Estado estará atento a essa situação e fará tudo o que está ao seu alcance para responder às necessidades que aí vêm”.

ISABEL CARLOS, ex-diretora do CAM-Fundação Calouste Gulbenkian, atualmente curadora independente, viu todos seus projectos adiados, alguns provavelmente para 2021. A escrever um ensaio para a exposição de Beatriz Milhazes no Museu de Arte de São Paulo (MASP), com inauguração prevista para Dezembro, caracteriza 2020 como um annus horribilis: “Vai haver um antes e depois do vírus. Mas espero que esta situação ajude-nos a pensar, de facto, sobre o que é importante e, enquanto seres humanos e humanidade, a encontrar valores mais éticos que nos guiem, o que não tem acontecido no mundo ocidental”. 

A par deste desejo, a curadora traça transformações inevitáveis em termos individuais, coletivos, institucionais. “Haverá situações muito difíceis, ao nível da vida dos artistas, das galerias. Talvez possa ser uma boa altura para repensar alguns modelos que convidam movimentação de massas, grande eventos, feiras e bienais. Não descartaria que esse tipo de eventos venha a ser repensado, redesenhado. Na pior das hipóteses, iremos testemunhar o fim de coisas, instituições, galerias que poderão não voltar a abrir. Mas sei que está a haver um plano de contingência social, a nível nacional e municipal. Temos que nos socorrer dele. Em momentos como este o bem público é de facto importante”. Entretanto, assevera, “o mundo todo está adiado e suspenso. O que podemos fazer é aproveitar [esta pausa] para pensar em coisas que, no dia-a-dia, temos pensado pouco, como o ser solidário. Refletirmos sobre o mundo em que queremos viver.”.

No mesmo diapasão, encontra-se NATXO CHECA que fechou no dia 11 de março a GALERIA ZÉ DOS BOIS. “Este momento de paragem pode levar-nos a pensar o que somos, em que se converteu este mundo. Pode ser um momento de solidariedade, de fazer coisas que tínhamos deixado de fazer. A sociedade perdera a mão do tempo, agora talvez seja possível encarar a vida de outra maneira. Entretanto, vamos tentar manter os postos de trabalho e ficar à espera que venham tempos melhores”.

Para JOÃO LAIA, estamos a viver um evento sempre precedentes cujo desfecho não conseguimos ainda perceber “Estava a pensar noutros eventos que tivesse vivido e que pudesse ser comparável à pandemia. Por exemplo, os atentados do 11 de Setembro de 2001. O seu impacto foi continuado, mas foi muito definido o que aconteceu e como aconteceu. Provou uma mudança generalizada que afetou todos os campos da vida. Aqui, a diferença é não se saber como e quando vai acabar. E isso é uma nuvem tremenda. Essa indefinição torna-se para mim, mais angustiante que a trazida pelo 11 de Setembro. É difícil planear seja o que for e suponho que seja o mesmo para toda a gente. A impossibilidade de imaginar um futuro é muito difícil de gerir. Não estamos habituados a estar nessa condição. A de uma bomba atómica que está a explodir lentamente nas nossas mãos, num ralenti que não se sabe muito bem quando é que termina”.

Termine como terminar, é muito provável que o regresso da arte ao espaço público surja com outros contornos, outros ritmos, outros modos de ser e fazer. Escreve SARA ANTÓNIA MATOS: “O discurso veiculado tem sido o da "suspensão", o de um "intervalo", como que a contar em decrescente para se recomeçar tudo de novo numa velocidade e avidez desenfreada. Pessoalmente, acredito ser necessário encontrar outros modelos e paradigmas de atuação, reinventando e transformando os que existem, para não cairmos nos modelos anteriores. Essa reinvenção também cabe em parte às artes, sendo que as artes podem participar nessa reinvenção a partir daquilo que farão no seu próprio campo de atuação. Nesse aspeto também o artigo "O Medo" do filósofo José Gil no jornal Público é lapidar. Ficarmos paralisados com medo é contraproducente. É preciso encontrar formas de agir, diferentes das anteriores a muitos níveis e, segundo ele, este teste ou desafio que esta pandemia traz pode ser um aviso que nos poderá ajudar a preparar para outras ameaças à sobrevivência humana, entre outras. Entre essas ameaças, estão as decorrentes das mudanças climáticas”.

Expectativa, curiosidade, espera. É para já o que nos resta. Bem como perceber, complementa BRUNO MARCHAND, “o impacto do vírus na forma como entendemos, partilhamos e experienciamos a cultura. E pelo lado da produção e dos artistas, procurar os sinais que esta espécie de memento mori global poderá ter nas propostas vindouras”.

 

[1] NOTA DA EDITORA: 

— Este artigo inicia um conjunto de reflexões que a Contemporânea publicará nos próximos meses com o objectivo de analisar o impacto desta pandemia na prática artística contemporânea, tendo em conta as diferentes experiências, contextos e actividades. Para este, em particular, foram convidados a dar o seu testemunho curadores, directores de museus e galeristas. Outros testemunhos e intervenções contarão com a colaboração de artistas, ensaístas, poetas, entre outros, privilegiando também diferentes formatos; entrevistas, ensaios visuais, podcasts.

 

 

José Marmeleira. Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

 

Imagens: 

— Karlos Gil, Uncanny Valley, 2020, Film Still. Inauguração da exposição Come to Dust adiada. Galeria Francisco Fino. Cortesia do artista e Galeria Francisco Fino.

— Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, Estás Vendo Coisas. Exposição suspensa. Galeria da Boavista. Galerias Municipais de Lisboa. Cortesia dos artistas e Galerias Municipais de Lisboa/EGEAC.

— Joana Escoval, Mutações, The Last Poet. Exposição suspensa. Museu Coleção Berardo. Cortesia da artista e Museu Coleção Berardo.

— Gabriel Abrantes. Melancolia Programada. Exposição suspensa. MAAT-Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia. Cortesia do artista e MAAT/Fundação EDP. 

 

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