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Túlia Saldanha: uma hora vi

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Isabel Nogueira

O mundo cabe todo numa mala

Túlia Saldanha (1930-1988) foi uma artista de obra singular, quer dizer, facilmente reconhecível, consistente e identificável. Nascida no interior transmontano (Peredo, Macedo de Cavaleiros), a essência do lugar e da viagem — que é um outro modo de reflectir sobre o lugar —, assim como a subversão de alguns espaços tradicionais do universo feminino — a casa, o interior, a louça, os rituais quotidianos —marcariam a sua expressão, que se materializou em diversos suportes e linguagens, nomeadamente, pintura, escultura, instalação e performance. A exposição antológica da artista no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais foi o mote para uma reflexão sobre a artista.

O percurso de Túlia Saldanha como artista tem início mais tardiamente e fora da esfera do ensino artístico académico tradicional. Na verdade, mais uma das suas singularidades. Pelos anos de 1967-1968, já em Coimbra, torna-se sócia do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), organismo autónomo da Academia, fundado em 1958. Podemos afirmar que Túlia Saldanha e o CAPC — do qual foi membro activo da direcção — seriam artisticamente íntimos durante aproximadamente duas décadas, até à morte da artista, em 1988. Túlia afirmou-se individualmente, claro, mas também na organicidade do colectivo, que seria mais uma matriz, até poética, da sua obra e do seu percurso.

O CAPC, com o objectivo de promover as artes visuais contemporâneas e de sensibilizar o público para a sua fruição, nos anos 70 e 80 vai incrementar programas e actividades de índole experimental, performativa e pedagógica. Aliás, esta actividade experimental iria entrosar-se, em larga medida e também, com a de Ernesto de Sousa (1921-1988), um outro relevante cúmplice de Túlia Saldanha. O primeiro contacto efectivo entre Ernesto de Sousa e o CAPC terá sucedido na Galeria Ogiva, em Óbidos, em 1972, no âmbito das comemorações dos dois anos de existência deste espaço. Ernesto de Sousa mostrava, uma vez mais, as imagens que trouxera da histórica Documenta 5 e de Darmstadt. Ernesto provocava: «Não conhecem Joseph Beuys? A culpa é vossa!». Esta conferência/intervenção terá sido fortemente replicada pelos elementos do agrupamento conimbricense.

Quanto a Ernesto de Sousa, o episódio serviu de mote ao primeiro texto que escreveu sobre o colectivo (Lorenti’s, Abril de 1973): «Uma intervenção-como-o-nome-de-Joseph-Beuys que ia quase virando para o torto. Porque assim é que é quando se descobrem interlocutores válidos e não um público passivo e masoquista que até aplaude e faz-de-conta que é insultado. (…) Um diálogo talvez promissor de futuro». Certamente. Na verdade, instituiu-se, logo no início dos anos 70 e prolongando-se pela década seguinte, um espaço de trabalho conjunto profícuo entre Ernesto de Sousa, Alberto Carneiro, António Barros, Armando Azevedo, João Dixo, Rui Órfão, Túlia Saldanha, entre outros artistas. Túlia Saldanha e o próprio CAPC iriam definir uma singular confluência de linguagens experimentais, em espírito de criação e aprendizagem, dando corpo à ideia vostelliana de “artista/educador”.

As actividades do CAPC estenderam-se a exposições, intervenções/operações estéticas, performances, cursos livres, convívios, conversas, de que se podem destacar A Floresta (Porto, Galeria Alvarez, 1973; Lisboa, Galeria Nacional de Arte Moderna, 1977), Minha (Tua, Dele, Nossa, Vossa) Coimbra Deles (Coimbra, 1973), 1 000 011.º Aniversário da Arte e Arte na Rua (Coimbra, 1974), Semana da Arte (da) na Rua (Coimbra, 1976), Cores (pelo “Grupo de Intervenção do CAPC”, Coimbra, Caldas da Rainha, Lisboa, 1977-1978). A participação de Túlia Saldanha seria continuada. Destaquemos, a título de exemplo, a sua peça (Mesa de piquenique, 1971) na instalação A Floresta, patente na implicativa exposição Alternativa Zero: Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea (Lisboa, 1977, curadoria de Ernesto de Sousa).

Na opinião de Ernesto de Sousa (Colóquio/Artes. Outubro de 1976), o CAPC seria a «(…) única “sociedade artística” deste país que mantém um espírito de “work-shop”». Esta ideia aparece também espelhada num belo escrito do mesmo autor, a propósito da actividade Guerra das Tintas, intitulado “A vanguarda está em Coimbra, a vanguarda está em ti” (Lorenti’s, Janeiro de 1974): «CAP ou C.A.P. eis as letras a fixar, se o leitor for um dia a Coimbra, e quiser falar “a pretexto da arte“ com gente das “artes”. Artes de acção, belas-artes, malas-artes de liberdade: de encontro consigo próprio. E com os outros. (…) O que interessa é a tal descoberta, a qual só pode ser conseguida num exercício total do corpo e do espírito, das mãos e da cabeça. Esse exercício é a prática quotidiana do CAP. Sim o CAP, ali em Coimbra, à Rua Castro Matoso, mesmo em frente da Clepsidra. O leitor vá lá, beba um café na Clepsidra e pergunte. (…) Pergunte pelo Dixo, ou pela Túlia Saldanha. Ou pelo Alberto Carneiro, que nesse dia talvez tenha vindo do Porto. (…) Às vezes eu também dou lá uma saltada. Pergunte, e não esteja à espera de nada bem definido. Não esteja à espera de ir ver uma exposição ou ouvir um concerto bem afinado — porque, enfim, tudo isso pode acontecer… ou talvez, simplesmente, você vá conversar um bocado, e à noite comer um petisco a casa da Túlia».

É este o ambiente: partilha, vida, festa, arte, experimentação. Túlia Saldanha participaria, logo em 1974, no núcleo programado por Ernesto de Sousa no âmbito da EXPO AICA SNBA 1974, intitulado Projectos-Ideias, no qual a artista apresenta um Projecto para um envolvimento com banda sonora (1973). Participaria em diversos e consistentes projectos, claramente incorporadores da neovanguarda internacional e das tendências artísticas do momento. Entre desenhos, projectos ou pinturas a sua obra toma corpo e dimensão. Contudo, uma das mais impactantes peças de Túlia Saldanha é a dos auto-retratos que evocam a performance, o tempo, a acção, tão actuais num momento de isolamento como o que temos vivido. A artista fotografa-se dentro de uma caixa ao alto, uma caixa-caixão que vai sendo tapada, tonando-se assustadora, opressiva, calada.

Outras peças fundamentais no conjunto da obra de Túlia Saldanha são os trabalhos em assemblage, que juntam objectos do quotidiano — mesas, malas, louça, objectos diversos, por exemplo a peça/mala Do Nordeste a Coimbra (1978) —provenientes de uma aparente banalidade, mas que surge absolutamente subvertida pela coloração a negro/cinza chumbo, como se tivessem sido queimados, destruídos, violentados, transformados numa lembrança do já vivido. E voltamos ao tempo e à sua passagem, até no sentido performativo: o tempo a passar ou/e o tempo que foi, inclusivamente no sentido deleuziano. Há qualquer coisa de agressivo e melancólico nestas peças, de depurado e escatológico, de discreto e abrasivo, tornando-as complexas, inquietantes e estranhamente poéticas.

Revisitemos o texto de António Barros (Fenda, Setembro de 1980, assinando o artigo como Teixeira de Sousa): «Fazer a arte, viver a arte utilizando um suporte plástico como meio de dizer a sua verdade poderá ser uma opção como a de Túlia Saldanha, que encontrou numa quase ritualização do acto de queimar objectos íntimos o “negro” como uma forma de linguagem. Voltar à essência, voltar à terra, aí talvez encontrar a verdade mais pura (ainda a mais pura) a essência dum povo — Trás-os-Montes — de xailes e lenços negros, as mulheres nas “encomendações das almas”, no luto da paisagem. O negro signo do profundo infinito. Do tudo, do vazio. Negras salas de vazios…». Há, de facto, e também a possibilidade de estas peças (matéria) evocarem, afinal, um imenso e insuperável vazio.

Túlia Saldanha foi uma mulher que se tornou artista mais tarde do que é comum, que não teve formação académica artística tradicional, que é oriunda de um Interior de um país, ele próprio, nos anos 60 e 70, ainda francamente ruralizado e longe dos centros artísticos mais eminentes e, contudo, Túlia constrói uma obra densa, implicativa da actualidade artística internacional, capaz de produzir uma voz própria, única, densa, denunciadora de vivências, poética. António Barros recorda-nos (Rua Larga/Caderno Temático, Outubro de 2005): «Túlia, já na fase terminal da sua neoplasia — quando o irmão vem recolhê-la a Cernache no seu aeroplano e levá-la para Peredo, Macedo de Cavaleiros, onde nascera — pede, antes de partir, um [último] voo [em círculo] sobre o CAPC. Um voo tão próximo da terra e tão célere que fez gelar quem assistiu. Foi a sua última performance». Deve ter sido certamente poético de ver. E o círculo fechou-se.

 

Túlia Saldanha

Centro de Arte Contemporânea Graça Morais

 

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Túlia Saldanha: uma hora vi. Vistas gerais da exposição no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, Bragança. Cortesia de Luiza Saldanha e CACGM.

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