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O Lápis Mágico

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José Marmeleira

A experiência lúdica e sensorial do desenho

 

O Lápis Mágico no Museu Municipal de Faro é uma exposição que explora o poder encantatório do desenho enquanto gesto, processo e forma. Com curadoria de Pedro Cabral Santo e as obras de António Olaio, Tiago Batista e Xana.

 

Incansáveis, artistas, curadores, entre outros trabalhadores culturais, expandem o território, inventam novos centros. À margem da invisibilidade, insistem em mostrar, em dar a ver, em tornar público. É o que acontece na exposição coletiva O Lápis Mágico, comissariada por Pedro Cabral Santo, no Museu Municipal de Faro. Organizada pela associação Artadentro, no âmbito do ciclo Eklektikós, reúne três artistas cujos trabalhos se pautaram, durante décadas, por sensibilidades e abordagens muito distintas:  António Olaio, Tiago Batista e Xana. O que os aproxima agora? O desenho entendido enquanto representação do mundo e pensamento, fazer e faculdade. O título é apropriado da série televisiva de animação O Lápis Mágico, da autoria de Zaczarowany Olowek. Nos episódios desta produção polaca dos anos 1960, uma criança, com o seu lápis mágico, dava vida a animais, objectos, casas, paisagens, colocando em movimento os pequenos enredos. Com o seu poder encantatório, a revelar-se na animação das imagens, o desenho era, em simultâneo, gesto, processo e forma. Ora é precisamente esse poder que surge transfigurado, com sucesso, na exposição.

Embora distantes do domínio mimético dos desenhos animados (e do seu público), cada artista dispõe do seu lápis mágico, isto é, do seu universo formal, visual e estético. É o sujeito de uma relação particular com a prática e com a disciplina. Os desenhos de António Olaio continuam a ter a síntese de uma canção pop, mas estão próximos da pintura. Parece ter desenhado como se pintasse, ou até, como se esculpisse. Com a barra de grafite, foi modelando e espalhando as manchas, em movimentos delicados, breves. Contidas no interior de formas circulares, aparecem num processo de mutação, num devir lento. E, vistas a uma certa distância, sugerem, nas paredes da Igreja do antigo convento (onde está instalado o museu), a presença de corpos sem gravidade. Foi de um desenho que o artista produziu o vídeo God´s Planet, o único trabalho na exposição que dispensa o papel. Manchas bruxuleantes traduzidas digitalmente por meio de um iPad, aparecem e desaparecem enquanto se escuta a narração de uma voz cavernosa. Conta a história de um Deus que se refugiou num planeta para descansar, construindo aí o seu trono, na forma de uma cadeira de baloiço. Absorto num estado de introspeção radical, esse Deus deixou que os seus pensamentos fossem modelando a mente, dissolvendo contornos e formas físicas. Mas no ecrã não se vislumbram demiurgos ou criaturas divinas, apenas o desenho, como se vivo, na condição de imagem do espírito.

Se o lápis mágico de António Olaio se divide na mão humana e num objecto tecnológico, o de Tiago Baptista assemelha-se a uma máquina artesanal. Mediante a sua manipulação pelo visitante, traça desenhos sobre o papel, alguns dos quais se encontram expostos. Simples e circulares, aludem, como o título (Sol) indica, a formas estrelares e cósmicas. Na relação entre escalas e sentidos, a peça revela a sua qualidade formal e estética. O desenho é fazer humano e representação do que é extra-humano, obra reificada e gesto que pode ser observado enquanto se faz.

Tal como o vídeo de António Olaio, a peça de Tiago Batista explora, por meio da programação digital (o artista recorreu a uma plataforma de prototipagem eletrónica) a extensão técnica e tecnológica do desenho. A sua magia é, também, a da informática. Já os desenhos de Xana, da série Centro sem título, são provenientes da mão, do uso epidérmico dos objetos. Contemplando-os, o visitante redescobre o que vai rareando em alguma da arte hodierna o prazer da pura experiência sensorial, sem utilidade ou fim. Surgidos na sequência de outros desenhos realizados desde o início dos anos 1980, não assinalam uma fase inédita, antes explicitam uma produção, que embora não muito mostrada, não foi abandonada pelo artista. Um olhar informado permite, aliás, revelar elos, relações com outros conjuntos de trabalhos. Por exemplo, sobre o papel assomam linhas cruzadas, formas reticulares que as reentrâncias e transparências das instalações (com caixas de plásticos) já sugeriam.

Dito isto, os desenhos de Centro sem título proporcionam experiências que lhes são específicas: o prazer ótico da ilusão, o jogo entre o fundo e a superfície, a espontaneidade encantatória da geometria, o júbilo paciente do tracejar. A rede desenha-se enquanto motivo central. Organiza, contém, dá corpo ao desenho. Imprime-lhe um ritmo, confere-lhe uma beleza linear. E constrange-o, fixa-o nas suas malhas, mas não totalmente. Pela cor, pela sugestão de abertura ou de saída, nos buracos desenhados ou abertos no papel, os desenhos resistem ao controlo da imagem reticular (já agora: é curioso notar que a imagem reticular está na base das redes técnicas em que hoje nos enredamos). Oferecem-se, na sua vulnerabilidade, quais experiências que exprimem o prazer de ver e desenhar. São produtos de um lápis mágico que faz e desfaz, com ironia, espaços e redes, acolhendo a poética de uma geometria despretensiosa, imperfeita, humana. E, por isso, bela.

 

Artadentro

Museu Municipal de Faro

 

José Marmeleira. Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

 

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Lápis Mágico. Vistas (pormenores) da exposição no Museu Municipal de Faro. Cortesia dos artistas, Artadentro e Museu Municipal de Faro. 

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