Saodat Ismailova: Melted into the Sun

Esta conversa, com Saodat Ismailova e Leonardo Bigazzi, moderada pela Contemporânea — Sara Castelo Branco—, decorreu na inauguração de Melted into the Sun,no Batalha Centro de Cinema, no Porto, seguida da exibição do filme.
Introdução por Guilherme Blanc:
O título da exposição Melted into the Sun remete para o nome da última obra de Saodat Ismailova, para nós uma das mais interessantes artistas a trabalhar no contexto da arte contemporânea e imagem em movimento nos dias de hoje.
O Batalha Centro de Cinema envolveu-se na coprodução deste filme após um convite da Fondazione In Between Art Film. A obra foi integrada numa exposição chamada Nebula, composta apenas de obras fílmicas, que a Fondazione In Between Art Film apresentou por ocasião da Bienal de Veneza 2024. Este filme foi uma das oito obras presentes na exposição, consensualmente considerada como um dos projetos bianuais mais relevantes no contexto da produção de cinema de artista. O trabalho da Fundação é extraordinário, e tem apoiado filmes essenciais — incluindo autores com quem já trabalhámos ou temos vindo a dialogar aqui no Batalha através de filmes comissionados, como Jonathas de Andrade ou Ana Vaz.
Tentámos então desenvolver uma ideia um pouco mais ambiciosa: complementar a apresentação deste novo filme com instalações noutros espaços do centro de cinema, apresentando as obras Zukhra (2013) e Her Five Lives (2021). A ideia era integrar a nova criação no contexto de outras obras de Saodat, permitindo uma visão mais abrangente sobre o trabalho que a artista tem vindo a desenvolver — o qual, de uma forma muito sumária, aborda temas como memória e pensamento historiográfico sobre o Uzbequistão e a cultura da Ásia Central. Através destas historiografias — algumas reais e outras mais mitológicas —, Saodat tem proposto exercícios de cinema, e às vezes também escultóricos, que exploram o contexto político e social do Uzbequistão pelas lentes do seu legado político e milenar.
Sara Castelo Branco: Gostaria de te pedir, Saodat, que fizesses uma apresentação geral do filme. E pedia também ao Leonardo que falasse sobre as formas como este filme se integra no contexto da exposição Nebula, e no trabalho desenvolvido pela Fondazione In Between Art Film.
Saodat Ismailova: Acho que foi um filme muito complexo para mim. Antes de mais, estava a lidar com um personagem que deixou um legado muito incerto e contraditório — não há nada de concreto escrito sobre ele. A sua história existe como um eco sobre um eco, reverberando através do tempo. Isso coloca-nos numa situação de tentar identificar aquilo que queremos realmente trazer para primeiro plano no filme.
Esta complexidade também permite que se desfolhem camadas incríveis: ele era tintureiro, alquimista, ilusionista ótico, pregador, profeta, por vezes interpretado como a primeira figura revolucionária. O momento em que entendi a direção que queria seguir foi quando me perguntei de que forma poderia ligar a sua história ao tempo actual, ao contexto em que nasci e cresci.
Nasci durante o período soviético, e a primeira vez que li sobre o Profeta Velado, seguido pelas pessoas vestidas de branco, foi nos livros de história soviéticos do Uzbequistão. Nessa altura, todas estas disciplinas eram manipuladas e construídas de acordo com a narrativa do centro — que para nós, à época, era Moscovo. Ele era-nos apresentado como uma espécie de proto-socialista, como se o socialismo tivesse nascido na grande Ásia Central. Essa ideia intrigou-me profundamente.
Também o fato de nunca vermos o seu rosto cria um vasto espaço para a imaginação — não há nada visual a que nos possamos agarrar, o que permite a expansão do campo de interpretação e diálogo. Portanto, o filme toca em muitas diferentes camadas, e foi assim que entrei nele.
Leonardo Bigazzi: A Fondazione foi fundada em 2019 por Beatrice Bulgari, para, como o nome indica, criar conexões e construir pontes entre a arte contemporânea e o cinema. O nosso programa dedica-se à comissão, produção e exposição de trabalhos de artistas visuais que experimentam com a linguagem da imagem em movimento. Já há algum tempo que sigo o trabalho da Saodat, e a segunda exposição que fizemos em Veneza, Nebula, foi a oportunidade perfeita para colaborarmos pela primeira vez.
As exposições em Veneza formam agora uma trilogia, e estamos neste momento a trabalhar no terceiro capítulo, que inaugurará em 2026. A ideia por detrás destas exposições foi dar uma forma tangível à nossa prática de comissões, trazendo estes trabalhos para dialogar num único ambiente e explorar como a imagem em movimento pode ser espacializada e experienciada no contexto tridimensional de um espaço expositivo.
Esta série de comissões tem origem num diálogo contínuo entre mim, o Alessandro Rabottini, co-curador das exposições, e a própria Beatrice. Mas, acima de tudo, começa com os artistas. Começo sempre por lhes perguntar: em que ideias têm andado a trabalhar agora? que projetos gostariam de desenvolver, mas para os quais ainda não encontraram apoio institucional?
A Saodat partilhou connosco duas ideias, e houve um momento em que lhe perguntei: que projeto sentes que é realmente urgente para ti? Acredito que o trabalho que surgiu dessa questão encapsula esse sentido de urgência. Há muito que admiro o seu trabalho anteriore, mas esta obra, na sua complexidade e na forma engaja com a história estratificada e intricada do seu país, é um grande passo em frente.
Sara Castelo Branco: Uma temática muito presente na tua obra, da qual já falaste anteriormente, é a das tradições e das formas de conhecimento uzbeques e da Ásia Central não serem reduzidas ao passado nos teus filmes, mas poderem, de alguma forma, ser traduzidas para as nossas vidas contemporâneas. Por outro lado, a tua prática toca também em questões ligadas ao impacto da atividade humana no ambiente ou no património cultural. Poderiam ambos falar-nos um pouco das dinâmicas de temporalidade no filme, isto é, destas ligações entre passado, presente e talvez até futuro em Melted into the Sun?
Saodat Ismailova: Penso que, de alguma forma, foi claro — porque o personagem era zoroastriano, e os zoroastrianos veneravam o Sol. E o Sol é intemporal, pelo menos para nós neste sistema solar. Foi natural para mim sobrepôr diferentes camadas de tempo, de que me aproximei pela perspetiva da adoração ao Sol.
Explorei o período pré-islâmico, o período soviético, o período islâmico, e a contemporaneidade — uma espécie de idade hiper-capitalista. Refleti também no património científico criado durante a era soviética. No filme, há uma parte filmada no Helio Complex — a Fornalha Solar que recolhe calor do sol para derreter metais.
Trabalhar com várias localizações, cada uma correspondente a uma diferente camada histórica, tornou-se uma viagem tanto visual como ideológica — traçando os sistemas de pensamento e crença que cada era deixou para trás. Estas camadas também apontam para futuros imaginados no contexto de qualquer tipo de sociedade que a humanidade tentou construir.
Mas a questão mantém-se: será a humanidade verdadeiramente capaz de construir uma sociedade justa, ou ficar-se-á pelo reino da imaginação, sonhos e teoria? Pode uma “sociedade solar” alinhar-se com a nossa natureza mais profunda? Pensar a partir daí ajudou-me a mover fluidamente entre camadas temporais — permitindo o desenrolar da temporalidade do filme num ritmo narrativo distinto.
Leonardo Bigazzi: A minha perspetiva era a de alguém que nunca visitou o Uzbequistão. Ainda assim, acho que o trabalho da Saodat tem uma capacidade extraordinária de nos conectar a significados ancestrais muito profundos, que, de uma forma curiosa e quase assombrosa, também ressoam nas culturas pagãs de Itália, por exemplo. Se olharmos para trás, pela lente da arqueologia, encontramos orações ao sol, ou um fascínio com elementos particulares da paisagem, em muitas civilizações. Rios, montanhas, e outras formas geológicas que carregam um peso espiritual ou simbólico.
Al-Muqanna, que Saodat escolheu como um Virgílio, é uma figura que se move fluidamente por todos estes espaços. Viajamos do laboratório soviético de investigação solar, para uma barragem parecida ao Monte Rushmore, mas com uma gigantesca figura de Lenin, ou para dois castelos do século IV ou V que foram destruídos e depois reconstruídos. A obra leva-nos por diferentes estratos temporais, atravessando dois milénios de história, e para além disso, se considerarmos também a intemporalidade das formas naturais. De repente, estamos intimamente ligados à vasta expansão do tempo histórico em si.
A obra desenrola-se num loop, regressando muitas vezes às mesmas imagens. Somos puxados para um fluxo que nos convida a deixar-nos ir, a rendermo-nos a esse fluxo de consciência e imagética, onde o tempo se sente denso e significativo, mas nunca preso a uma data ou lugar específicos. Somos imersos numa profunda sensação do que se pode chamar tempo profundo.
Sara Castelo Branco: Em relação também a esta ideia de temporalidade, acho que há uma temática que está presente no teu trabalho: a da transmissão de memórias, de conhecimento e histórias, que na Ásia Central está fortemente associada aos domínios femininos. Os teus filmes estão também muito ligados às tradições e aos elementos uzbeques que, de alguma forma, correm o risco de desaparecer.
Saodat Ismailova: Para mim, o filme é a forma mais forte e estável de transmissão. E no que toca à necessidade de engajar com a memória e o conhecimento local, é essencial considerar o período em que cresci. Era uma adolescente quando a União Soviética colapsou, portanto vivi o momento em que o vermelho se tornou verde, o branco se tornou preto, e vice-versa, uma e outra vez. Era um clima de mudança constante, em que as perspetivas mudavam de uma noite para a outra. Este esbatimento entre realidade e ilusão era algo que experimentávamos fisicamente, enquanto o país que conhecíamos se dissolvia à nossa volta.
Há duas razões pelas quais essa experiência se manteve central para mim. A primeira é profundamente intuitiva: lembro-me vividamente dos anos da Perestroika, quando tudo começou a derrapar — quando não havia nada sólido para nos segurarmos. E a única coisa a que nos podíamos ancorar era o que vinha da família. É por isso que continuo a regressar a estas questões; devem ser entendidas no contexto daquele momento histórico.
Em relação ao cinema em si, o meu pai era cineasta. Estudou em Moscovo, e pertenceu à geração do cinema uzbeque soviético. Eu cresci rodeada de filmes, portanto o cinema tornou-se uma linguagem natural e um espaço para reflexão — simplesmente sabia, “é isto que vou fazer”. Olhando agora para trás, para os filmes uzbeques, vejo um património extraordinário que maioritariamente desapareceu de vista. Mesmo dentro de um tão poderoso sistema ideológico, existia uma segunda ou terceira camada de verdade — algo que não poderia ser controlado. Isso, creio, é o verdadeiro poder do cinema: a capacidade de preservar o real, mesmo sob manipulação.
Leonardo Bigazzi: Sara, trazes à conversa um óptimo ponto: a transmissão é realmente central no trabalho de Saodat. Evidenciado, por exemplo, na sua decisão de dar o papel de Al-Muqanna a um poeta contemporâneo real.
O trabalho dela aborda uma história que não tem forma escrita, que tem sido passada oralmente através de gerações e séculos. Por isso, ela queria dialogar e co-escrever o texto com alguém que herdou uma certa urgência de expressar algo através de palavras, de dar voz a narrativas ancestrais e memórias culturais intangíveis.
O cinema chega ao Uzbequistão na década de 1920, e torna-se uma forma de fixar algumas destas histórias e vestígios, capturando-os pela primeira vez num suporte tangível que pudesse circular e ser transmitido. Mais uma vez, como observador, julgo que estas escolhas são muito conscientes, e profundamente significativas, na obra da Saodat.
Pessoalmente, enquanto curador, estou extremamente interessado em trabalhar com artistas cuja prática seja inerentemente política. Reflito muito sobre a ideia de “tradução”, sobre a capacidade do cinema para nos ligar a mundos e experiências que não as nossas. Através de imagens, palavras e textos, permite-nos chegar a essas histórias, como a que a Saodat nos está a transmitir através do seu trabalho.
Sara Castelo Branco: Há também uma forte ligação a esta ideia de transmissão cultural e espiritual na relação com os mundos femininos na Ásia Central. Uma das obras expostas, o filme Her Five Lives, também aborda as representações cinematográficas das mulheres nos filmes uzbeques, num contexto de transformação social e política mais alargado. Quais foram os critérios para o trabalho de edição que levaste a cabo?
Saodat Ismailova: Este trabalho foi feito durante a COVID, num ano em que não podíamos filmar. Essa limitação levou-me a criar um filme inteiramente composto de material de arquivo. A inspiração inicial veio de um texto da académica Marianne Kamp, que estuda as políticas soviéticas que traziam as mulheres para a força de trabalho. A tradição muçulmana é das mulheres ficarem em casa e usarem o véu, mas na União Soviética houve uma forte pulsão política para a emancipação — trazendo as mulheres para as fábricas, para os tratores, multiplicando o trabalho para industrializar a região.
Em As Três Vidas de Saodat, um ensaio curto e notável, Marianne Kamp entrevista uma mulher, politicamente ativa, no momento do colapso da União Soviética. Entrevistada várias vezes com alguns anos de difereça, a mulher relata três histórias de vida muito diferentes — em cada uma delas, convencendo-se a si mesma que está a revelar a verdade. Fascinou-me a forma como, embora o enquadramento ideológico fosse uma constante, os significados se alteravam. Foi nesse momento que pensei: quero fazer um filme sobre uma mulher, uma cuja vida se transforma enquanto a paisagem política muda. Daí o filme dividir-se em três capítulos.
Pensei também nos “capítulos” do cinema em si — em como a linguagem cinemática evoluiu através dos períodos históricos. Há cerca de 30 filmes mudos do cinema uzbeque inicial, completamente desconhecidos durante os tempos soviéticos. Veio depois o período Estalinista, focado na criação da ideia de nação: o Uzbequistão foi então construído enquanto república, emergindo da divisão em cinco repúblicas de uma região maior chamada Turquistão.
Depois chega a era Khrushchev, muito visível no cinema, na arte e na música. A pressão política manteve-se, mas suavizou. O cinema uzbeque começa a tomar uma forma poética: há uma cinematografia distinta, surgem atores fantásticos. O cinema começa a respirar. E depois vem a Perestroika, um período fascinante no cinema soviético que mereceria uma exploração aprofundada — é um momento em tudo o que foi escondido durante 70 anos vem de repente à superfície: política, crime, prostituição, drogas. Foi um momento turbulento e revelador, simultaneamente de esperança e luto profundo.
Por fim, o capítulo do pós-independência, onde o pulso de ferro da ideologia parece desaparecer, como se houvesse uma fina linha a que nos segurarmos. Olhando para os filmes deste período, é recorrente vermos mulheres a chorar — como se algo de essencial estivesse perdido. Essa sensação de desorientação deu forma à estrutura do filme: tornou-se uma espécie de colagem, um estudo — imaginar uma mulher a atravessar diferentes vidas enquanto o clima político ao seu redor muda continuamente.
Sara Castelo Branco: A exposição aqui no Batalha é composta por três filmes: este filme que vamos ver, Melted into the Sun, mas também Zukhra e Her Five Lives. Há uma dimensão histórica, cultural e evocativa comum a todos estes três filmes, mas eles são de alguma forma diferentes na sua forma. Houve alguma razão específica por detrás da seleção particular destes três filmes para esta exposição no Batalha?
Saodat Ismailova: Falámos sobre isso com o Guilherme, e a nossa intenção era, como disseste, oferecer diferentes perspetivas e pontos de entrada para a minha prática. Zukhra é de 2013 e Melted into the Sun é de 2024 — há uma clara evolução durante esse intervalo de dez anos. Penso que foi precisamente essa a ideia.
Os três filmes estão conectados por um instinto de sobrevivência partilhado, enquadrado por um cenário de mudanças sociais e políticas — cada um expresso através de uma linguagem cinemática diferente. Zukhra pode parecer inativa, mas o seu ato de dormir e esperar um futuro desconhecido torna-se um silencioso gesto de resistência. Her Five Lives explora concretamente o caso histórico do cinema uzbeque e as transformações radicais da sociedade, levando-nos mais uma vez a um espaço incerto que questiona: qual o próximo capítulo? Por sua vez, Melted into the Sun retrata uma figura ambiciosa — um profeta local que procurou construir uma sociedade baseada na igualdade, no poder não-hierárquico e não-extrativista da terra, mas que acaba por ficar preso nos seus próprios medos. Também isto ecoa questões que ressoam profundamente com o nosso tempo presente.
Acredito que estas subcorrentes partilhadas — de sobrevivência, transformação, e procura de significado no meio da mudança — são o que conecta os três filmes e o que definiu a sua seleção
Sara Castelo Branco: Muito obrigada, Saodat e Leonardo, por partilham as vossas ideias e reflexões interessantes e esclarecedoras.
A exposição estará patente até ao próximo dia 11 de Maio no Batalha Centro de Cinema, Porto.
Fondazione in Between Art Film
Nota da editora: Esta conversa foi transmitida ao vivo no Batalha Centro de Cinema, transcrita e editada, mantendo, no entanto, características da conversa oral original.
Saodat Ismailova: Melted into the Sun. Stills do filme. E imagens da conversa na inauguração e exibição do filme e exposição no Batalha Centro de Cinema, Porto, 2025. Cortesia da artista, Batalha Centro de Cinema e Fondazione in Between Art Film. Fotos: Rensto Cruz Santos.
