Jumana Manna: Broken, Taken, Erased, Tallied

“Eu faço parte da natureza. A natureza… sou eu.”
Broken, Taken, Erased, Tallied, exposição individual de Jumana Manna no Rialto6, elucida as narrativas alternativas da resistência palestiniana quotidiana contra a opressão e o extrativismo colonial do projeto sionista. Perscrutando toda esta destruição genocida — não apenas do povo palestiniano mas também da ecologia, das plantas, da terra e dos sistemas de conhecimento, formas de vida e diversidade cultural das suas gentes —, a exposição apresenta três instalações: Cache (2019), Old Bread International II (2023) e Water Arm I and II (2018); duas imagens de The Cleaning Collages (2018 e 2023); e três filmes com apresentação quinzenal alternada, nomeadamente Foragers (2022), A Magical Substance Flows Into Me (2016) e Wild Relatives (2019).[2] No seu conjunto, a mostra rejeita o enquadramento generalizado da situação, vista como um mero conflito bilateral entre Israel e a Palestina, e propõe um entendimento mais profundo em torno da forma como a ordem social global provoca a destruição de formas de vida sustentáveis — algo que é particularmente evidente na matriz capitalista colonial-ocidental do projeto genocida sionista da ocupação da Palestina.[3]
Manna aborda este tema com amor, humor e subtileza inabaláveis, percorrendo questões associadas, por exemplo, aos bancos de sementes, à regeneração da terra, às práticas agrícolas e de forrageio, às tradições musicais das culturas samaritana, curda, judaico-marroquina e beduína, aos sistemas de armazenamento e aos pequenos gestos que revelam a realidade de um quotidiano de resistência. Os seus filmes, firmados numa apurada sensibilidade ao ritmo da terra, vinculam as tradições do território ao carácter acolhedor e cativante de cenas de cozinha que nos transportam para o âmago desta resistência diária. Por sua vez, a apresentação destas obras no conforto da sala de cinema do Rialto6, equipada com duas poltronas, um sofá, um tapete e um grande ecrã com um sistema de som de alta qualidade, amplifica a intimidade que a obra de Manna exala.
Subindo para o primeiro andar de Broken, Taken, Erased, Tallied, o visitante depara-se com Cache: uma instalação de esculturas em cerâmica que pode ser decifrada com a ajuda do texto expositivo, no qual se explica que as formas de tubos e vasos “são inspiradas nos fragmentos de khabyas, estruturas para armazenamento de cereais que eram construídas em casas rurais do Levante, e que se tornaram obsoletas com a adoção de práticas de refrigeração”. No contexto contemporâneo do Rialto6, com as suas amplas janelas de vidro, as esculturas adquirem um magnetismo inquietante, remetendo para aquilo que o mundo urbano ignora. Descendo as escadas, no espaço adjacente, encontram-se Water Arms e Old Bread International II. Nesta, veem-se bocados de pão mofado em cerâmica, espalhados sobre jornais de vários países (talvez uma referência à dimensão global da questão). Como explica o texto expositivo, a peça “imita um cenário comum em cidades e vilas ao longo do Mediterrâneo: ao longo de saliências ou junto a caixotes do lixo, pão por comer é disposto como uma oferta para ser levado, consumido ou para enrijecer e apodrecer. … o pão que sobra é «oferecido» a recetores desconhecidos”. A obra suscita uma sensação mista de encanto e horror perante a pobreza, tão magnetizante aqui quanto a prática intercultural de partilhar o pão.
As narrativas não ficcionais dos filmes, apresentados em alternância de semana de semana, relacionam a “pequena vida” com conceitos mais amplos, assim desnovelando um entendimento sobre a forma como a opressão e erradicação coloniais configuram um sistema omnipresente que desenraíza tudo o que germina — e que encontra resistência em pequenas subversões, sobretudo nos territórios em que a presença do Estado é limitada. São sintomáticas disto as palavras de uma jovem mulher em A Magical Substance Flows Into Me: “Ao passo que a sociedade israelita tentava terraplanar, aniquilar e apagar as culturas da diáspora,” os samaritanos,[4] que continuaram a falar árabe e a preservar parte desse património, foram “relativamente capazes de manter a sua tradição sem grandes interferências.”[5]
Magical Substance, por sua vez, dá continuidade ao projeto arquivístico de Robert Lachman, judeu alemão que, na década de 1930, explorou as tradições musicais judaicas orientais e palestinianas — incluindo músicas de judeus curdos, palestinianos, beduínos e samaritanos — na Palestine Broadcasting Service, uma rádio estatal colonial britânica. As cenas mais fortes do filme acontecem em cozinhas: num dos casos, por exemplo, a jovem mencionada anteriormente canta enquanto mexe uma panela, encontrando-se um homem sentado à mesa em plano de fundo. Depois de a canção terminar, vemos a jovem no meio da cozinha, fitando a objetiva com um pano ao ombro enquanto fala da avó, de crescer numa casa que envergava uma bandeira de Israel, e da forma como, ao longo do tempo, foi rejeitando os mitos que se lhe haviam inculcado para obter um entendimento mais profundo da sua tradição. Trata-se de uma perspetiva íntima e pessoal entre todos os milhares de testemunhos que, com ternura, vinculam o individual ao coletivo.
Foragers também inclui uma cena marcante na cozinha: três senhoras idosas, mas incrivelmente enérgicas, cozinham e depois comem alimentos temperados com za’atar e ‘akkoub — e é impossível observá-las sem se esboçar um sorriso. O telefone toca, e uma delas atende. “Tens ‘akkoub? Bem, a minha irmã Aziza e a Umm Anwar vão aí abaixo buscar um bocadinho.”[6] Na base desta conversa está o tema central do filme: a proibição da colheita destas ervas tradicionais decretada pela Autoridade Israelita para a Proteção da Natureza. Os forrageadores são perseguidos e enfrentam multas pesadas, naquilo que se revela um benefício para a produção agrícola dos colonos israelitas e que, no entanto, destrói o ritmo natural da colheita sustentável, em relação de harmonia com a terra. Enquanto aquela autoridade, a par e passo com o greenwashing do Ocidente, se limita a declarar o perigo de extinção e a decretar a proibição da colheita daquelas plantas, as cenas dos interrogatórios dos forrageadores contam outra história: quando se colhe corretamente, nunca se retira a raiz; e, sem o forrageio (que funciona como poda), as plantas crescem menos. Apesar das multas, os forrageadores não desistem, muitas vezes trabalhando noite fora. Na cena inicial do filme, inclusivamente, mostra-se um homem a furar os pneus de uma carrinha da Autoridade. Num interrogatório, uma mulher lamenta que a tenham deixado trabalhar o dia todo antes de a interromperem. Noutro, um homem aponta que é ilegal colher plantas se se for palestiniano, mas não se se for judeu.
O terceiro filme, Wild Relatives, sublinha as complexidades da ecologia e da hegemonia mundial que destroem as formas de vida orgânicas, narrando o episódio da recolha de sementes do Silo Global de Sementes de Svalbard após a Guerra na Síria para recuperar a terra em Alepo. Conhecida como o “silo do juízo final,” esta estrutura faz parte de uma rede de centros de investigação criada no rescaldo da Revolução Verde sob a "crença de poder acabar com a fome no mundo e, no processo, combater o comunismo.”[7] A ideia é a de criar uma reserva mundial de sementes-padrão para a eventualidade de um desastre apocalíptico. O facto de se recorrer às sementes na sequência da destruição eco-apocalíptica da Guerra da Síria já revela que vivemos tempos apocalípticos, ainda que estes se distribuam de forma desigual pelo globo. Ao mesmo tempo, Wild Relatives expõe a omnipresença de uma ordem hegemónica global, tendo em conta não apenas a forma como as sementes-padrão modernas de alto rendimento vão eliminando as variedades autóctones mas também aquilo que se implica com o centro de investigação, financiado pelo Silo de Svalbard — um contraste marcado com as práticas nativas de preservação. No mesmo sentido, o filme mostra exemplos destas práticas, atentando no trabalho do agricultor orgânico Walid El-Youssef e num banco de sementes local dedicado à multiplicação orgânica de variedades nativas. O cenário, construído em madeira, é caseiro e rural, numa total contraposição estética com o panorama laboratorial de Svalbard; e as palavras do agricultor são especialmente impactantes: “Recolhemos sementes sempre que encontramos pessoas que plantem variedades locais. Tentamos manter contacto e construir amizades fortes. Trocamos sementes, experiências e ideias.” El-Youssef fala de minhocas, das formas de criar um solo feliz, de “uma produção sustentável para a terra e para nós”.[8] Trata-se de uma abordagem de apoio mútuo que se funda em afinidades e amizades, e não na tecnologia e numa colaboração unidirecional.
A economia também contribui para a destruição ecosocial. “Se cultivarmos a terra, os lucros não cobrem o que investimos. O negócio dos refugiados é mais lucrativo do que a agricultura. Porque, se tentarmos vender a nossa produção, vamos estar a competir com importações.”[9] Este é mais um exemplo da forma como a ordem hegemónica mundial oprime e corrói os sistemas de conhecimento orgânico; mas, ainda assim, a objetiva atenta e carinhosa de Manna consegue revelar as formas de resistência inelutável da vida quotidiana.
Sem hesitar perante a complexa diversidade que apresenta, Broken, Taken, Erased, Tallied relaciona intrinsecamente os aspetos sociais e ecológicos da opressão e, consequentemente, da resistência — “Eu faço parte da natureza. A natureza… sou eu”, diz o forrageador que é interrogado. A exposição pode inclusivamente ser vista como uma representação do ciclo ecológico da terra: as sementes e o plantio em Wild Relatives, as plantas da agricultura e do forrageio de Foragers, o armazenamento de alimentos em Cache, a cozinha como tema transversal aos três filmes, e as sobras oferecidas a transeuntes em Old Bread. No seu conjunto, a mostra desvela a destruição de um ecossistema global — as pessoas e a natureza como uma só entidade — que a hegemonia mundial procura erradicar e à qual se vai resistindo em todo o mundo através de pequenas ações subversivas: preservando tradições, forrageando com amor e, simplesmente, fazendo-se parte da natureza.
Maria Kruglyak é investigadora, crítica e escritora especializada em arte e cultura contemporânea. É editora-chefe e fundadora de Culturala, uma revista de arte e teoria cultural em rede que experimenta uma linguagem direta e accessível para a arte contemporânea. É mestre em História da Arte pela SOAS, Universidade de Londres, onde se focou na arte contemporânea do Leste e Sudeste Asiático. Completou um estágio curatorial e editorial no MAAT em 2022. Atualmente trabalha como redatora freelancer de arte.
Tradução do EN por Diogo Montenegro.
Jumana Manna: Broken, Taken, Erased, Tallied. Vistas gerais da exposição no espaço Rialto6, Lisboa 2024-2025. Fotos: Vasco Stocker de Vilhena. Cortesia Rialto6. Stills do filme Wild Relatives (2019). Cortesia da artista.
Notas:
[1] Citação do interrogatório a que é sujeito Ahmed, acusado de forragear za'atar. Atuação de Mahmoud Shawahde em Foragers (2022), de Jumana Manna.
[2] Nas próximas semanas, a programação vai-se intercalando, com Foragers a passar a 3 e 24 de janeiro; A Magical Substance Flows Into Me a 27 de dezembro e 18 de janeiro; e Wild Relatives a 10 de janeiro.
[3] Parafraseando o ativista egípcio Hossam el-Hamalawy, a luta palestiniana é a luta que une todas as lutas.
[4] Os samaritanos são o único povo que, desde os primórdios, habita a região até aos dias de hoje. Tendo vivido em isolamento persistente — quase ao ponto da extinção —, contam-se hoje cerca de 900 pessoas pertencentes a este grupo: metade em Holon, em Israel, e a outra metade em Nablus, na Cisjordânia. Embora o mito sionista se tenha impregnado em algumas das suas culturas mais recentes, as tradições dos samaritanos opõem-se àquela narrativa. Sobre a sua avó, que acreditava no mito sionista, diz a jovem mencionada anteriormente: “A minha avó nunca teve medo dos árabes. Aliás, dizendo assim até estou a ser injusta: ela chegava a esperar que um árabe passasse na rua para o convidar a entrar em casa e tomar chá. A experiência dela era a de alguém que não se tinha integrado. Mal saía de casa; vivia num país que só existia dentro das suas quatro paredes. A casa dela era Marrocos, e lá fora era outro mundo onde nunca ia. Com as suas especiarias, ajoelhada, a preparar a massa, a cozer pão… Para mim, isto era mágico. Como se ela viesse de um mundo que me atraía; um mundo que eu queria conhecer.” Citação retirada de Jumana Manna, A Magical Substance Flows Into Me (2016).
[5] Citação retirada de Jumana Manna, A Magical Substance Flows Into Me (2016).
[6] Umm Usama, citação retirada de Jumana Manna, Foragers (2022).
[7] Citação retirada de Jumana Manna, Wild Relatives (2019).
[8] Ibidem.
[9] Ibidem.
