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Programa Espacial Autónomo InterGaláctico

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Mattia Tosti

Rumo ao Infinito e Mais Além: As Paisagens Terrestres e Cósmicas dos Zapatistas em colaboração com Rigo 23

 

A 1 de janeiro de 1994, o Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) um grupo armado de rebeldes, maioritariamente indígenas, tomou várias cidades no sul do México. No dia seguinte, o jornal local La Jornada publicava a manchete “Sublevación en Chiapas”, assinalando o início da revolta zapatista. Mais de três décadas volvidas, os zapatistas continuam a governar uma rede de territórios autónomos ao longo de uma vasta região de Chiapas, o estado mais pobre do México e o que concentra a maior população indígena do país. Enquanto movimento revolucionário, os zapatistas desafiam categorizações ideológicas simples, incluindo o alinhamento com tradicionais vanguardas de esquerda. O que se pode afirmar, com algum grau de certeza, é que o seu projeto político se define por um posicionamento firmemente anticapitalista e por uma prática política assente em cosmologias indígenas, tradições comunais, e numa longa história de resistência ao colonialismo. Ainda que a sua orientação ideológica seja deliberadamente aberta, a abordagem zapatista à governação é muito clara: uma forma de democracia direta que procura desmantelar estruturas verticais de poder em favor de alternativas horizontais. Esta visão é talvez melhor expressa pelo seu princípio “Mandar obedeciendo” (mandar obedecendo), que reimagina a liderança subordinada à vontade da comunidade. Aquilo que foi inicialmente descrito nos jornais locais como uma simples “revolta” era, na verdade, o início de um exemplo único de autodeterminação indígena e de reimaginação política radical, cuja autonomia e legado persistem até hoje.

Em Programa Espacial Autónomo Intergaláctico, atualmente em exibição na ZDB 8 Marvila, o artista português Rigo 23 (Madeira, 1966) apresenta o resultado de uma colaboração de longa data com tecedores, pintores e carpinteiros da comunidade zapatista. Ao longo de quase três anos e nove visitas a Chiapas, desenvolveram uma instalação coletiva que resiste a lógicas de autoria individual, abrindo um espaço para a partilha das estéticas, cosmologias e poéticas singulares do universo zapatista. A premissa da exposição é simples: partindo dos encuentros intergalácticos anuais do grupo — encontros políticos que simbolizam a sua visão de um mundo sem fronteiras — Rigo 23 perguntou-lhes como viajariam para um encontro além da Via Láctea, e o que levariam consigo. O resultado é uma exposição vibrante, divertida e, ao mesmo tempo, repleta de camadas, que reimagina as viagens espaciais através da imaginação coletiva dos zapatistas.

Rigo 23 moveu-se sempre por precupações políticas, éticas e de justiça — temas que aborda, sobretudo, através de projetos colaborativos e socialmente comprometidos. Numa entrevista telefónica após a minha visita à exposição, descreveu-se como um “artista paisagista” de experiências vividas, alguém que retrata terrenos moldados pelas aspirações, esperanças e lutas das pessoas. Inicialmente reconhecido por criar murais de rua conceptuais que apropriavam a tipografia dos sinais de trânsito, a sua prática expandiu-se para um envolvimento direto com a realidade de figuras dissidentes — rebeldes, prisioneiros políticos, comunidades indígenas e artistas que desafiavam o mito do “sonho americano” e expunham as suas injustiças sistémicas. A abordagem de Rigo assemelhava-se, no início, à dos muralistas chicanos — que retratavam líderes comunitários, ativistas e trabalhadores como forma de homenagear os seus contributos, reivindicar o espaço público e dar visibilidade às suas lutas. Contudo, ao longo do tempo, o seu trabalho foi-se afastando gradualmente das estratégias tradicionais de representação, e da própria noção de autoria individual. Em vez de utilizar diferentes meios para retratar outras pessoas, escolheu mobilizar o seu próprio privilégio enquanto artista reconhecido, branco e europeu, para criar uma plataforma centrada nas histórias e nas obras de arte de outros. Este gesto radical de solidariedade artística e política tornou-se, paradoxalmente, um traço definidor da sua prática. As suas recentes “paisagens humanas” oferecem vislumbres não-mediados das lutas e aspirações das pessoas e comunidades que admira.

O movimento zapatista é, inquestionavelmente, um desses casos, e a exposição Programa Espacial Autónomo Intergaláctico na ZDB 8 Marvila é o mais recente projeto em que Rigo 23 utiliza esta abordagem colaborativa. À entrada, os visitantes são recebidos por uma faixa pintada sobre a parede: Esta usted en territorio zapatista en rebeldia. Aqui manda el pueblo y el gobierno obedece ("Estás em território rebelde zapatista. Aqui manda o povo e o governo obedece"), uma declaração que assinala a extensão simbólica da sua zona extraterritorial para o interior do espaço expositivo. A exposição desenrola-se, então, como uma instalação imersiva, recriando corredores, salas e postos de controlo, onde pinturas coloridas, bordados, murais, vídeos e esculturas apresentam diferentes perspetivas sobre a cultura e a cosmologia zapatista.

Há uma iconografia recorrente que atravessa todas as obras: figuras humanas mascaradas, espigas de milhos e caracóis. A máscara, usada durante a insurreição para proteger os membros das retaliações por parte do Estado, transformou-se num símbolo da identidade coletiva do grupo. O milho, alimento tradicional e uma cultura sagrada, sustenta as comunidades indígenas há milhares de anos. O caracol representa a abordagem dos zapatistas à rebelião, paciente e assentes na terra. Várias peças carregam slogans em espanhol com aparentes erros gramaticais que, neste contexto, devem ser lidos não como erros, mas como atos de resistência e reapropriação de uma língua que lhes foi imposta há séculos. Outras obras celebram momentos-chave da história do movimento — como a proibição do cultivo de OGM no México — ou expressam solidariedade com outras lutas, como a luta palestiniana. Estas ligações refletem a convicção dos zapatistas de que, mesmo quando geograficamente distantes, os povos oprimidos partilham lutas próximas. A exposição culmina com uma escultura de grande escala: uma nave espacial em forma de espiga de milho, representação tridimensional de uma pintura de um artista da comunidade que serviu de visão orientadora para o projeto. Esta obra é uma poderosa reapropriação do imaginário espacial - que hoje parece completamente dominado pelas fantasias masculinistas de conquista e expansão de alguns bilionários — por uma comunidade à margem do capital.

É significativo que todas as obras da exposição sejam deliberadamente apresentadas sem assinaturas individuais, sublinhando a ênfase na identidade partilhada do grupo. Esta opção alinha-se com o conceito de “scenius”, cunhado por Brian Eno para descrever a inteligência e criatividade coletivas de uma comunidade, em contraste com a ideia de “génio”, entendida como o trabalho de uma figura isolada. Segundo Eno, embora a história da arte atribua sempre as grandes ideias a indivíduos, estas emergem, na realidade, de cenas culturais densamente entrelaçadas e de redes de conhecimento partilhado.[1] O profundo respeito e cuidado com que Rigo 23 se envolveu com o scenius da comunidade zapatista ao longo de todo o projeto é uma das grandes forças da exposição.

Como referido, os artistas participantes tiveram carte blanche no que diz respeito a todas as decisões estéticas, e todo o processo de avaliação e aprovação da exposição seguiu os enquadramentos políticos e burocráticos da própria comunidade. Para o iniciar formalmente, Rigo teve de apresentar a proposta a uma Junta de Buen Gobierno (Conselho de Bom Governo), respeitando o processo de decisão colectiva da comunidade e o seu ritmo reconhecidamente demorado. Como lhe foi aconselhado desde o início: “Ármate de tu paciencia más tenaz y ve a plantar tus semillas” (“Arma-te da tua paciência mais tenaz e vai plantar as tuas sementes”). Este espírito de paciência, respeito e reciprocidade parece ter moldado todo o processo da exposição.

Ao sair da exposição, deixando para trás o universo dos zapatistas, fui confrontado, mesmo em frente, com um enorme cartaz a anunciar apartamentos de luxo com preços de quase um milhão de euros. Era impossível não sentir a dissonância: um movimento de guerrilha indígena exposto num bairro em acelerada gentrificação, promovido como um novo “hub” de tecnologia e criação. Quando, por telefone, coloquei a questão a Rigo 23, ele reconheceu a contradição, mas explicou que, ao contrário de alguns movimentos de esquerda que aspiram à pureza, os zapatistas abraçam a incongruência. É precisamente nestes espaços contestados, acrescentou, que as histórias de resiliência mais precisam de ser contadas.

Saí a pensar na presença destes dois mundos tão distantes, e em conflito, na mesma área. Ainda assim, o prazer de ter encontrado esta pequena fração do mundo resiliente e visionário dos Zapatistas rapidamente se impôs sobre esta tensão. Deixou-me com um ténue e inesperado sentimento de esperança — um sentimento que não soube, de imediato, situar. Foi só mais tarde, durante a conversa com Rigo 23, que encontrei uma explicação. Perguntei-lhe sobre as origens do projeto, e a sua resposta surpreendeu-me: traçou o início à Revolução dos Cravos, a que assistiu com apenas oito anos. A possibilidade de uma mudança súbita e radical na ordem social fazia parte da sua compreensão do mundo desde tenra idade. Ao ouvir estas palavras, percebi por que motivo tinha saído da exposição, de certa forma, animado. No meu caso, tendo nascido nos anos 90, a possibilidade de mudança nunca esteve presente. No mundo em que cresci, a imaginação política coletiva estava sitiada por aquilo a que Mark Fisher chamou “realismo capitalista” — a ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Esta exposição desafiou, de alguma forma, a mentalidade cerrada do “não há alternativa” com que fui educado. Testemunhar os resultados do seu processo partilhado também me tocou, fez-me pensar que a verdadeira força das práticas colaborativas não reside tanto em juntar as pessoas, mas em despertar as possibilidades da sua força comum e da sua imaginação sem limites — seja ela criativa ou política. Esta abordagem coletiva, aliada à história singular do movimento zapatista, parece lembrar-nos que, mesmo em tempos sombrios ou em condições imperfeitas, as faíscas de resistência continuam a cintilar. Neste sentido, a exposição Programa Espacial Autónomo Intergaláctico serve como  testemunho de que as alternativas não só existem, como sempre existiram. Mesmo sistematicamente privadas do espaço para se desenvolverem e do ar para respirar, elas têm estado lá, a sonhar com um mundo melhor — ou, como diriam os zapatistas, com um mundo que contém muitos mundos.

 

Rigo23

ZDB 8 Marvila

 

Mattia Tosti (Roma, 1993) é um curador e escritor ítalo-brasileiro. Desenvolve uma prática curatorial baseada na investigação e no compromisso com o contexto, onde questões políticas e sociais são abordadas através de colaborações entre diferentes linguagens e metodologias interdisciplinares. O seu percurso profissional inclui experiências em museus como o MAC São Paulo e o MAAT Lisboa, bem como em galerias de arte contemporânea, tendo desempenhado o cargo de diretor da Monitor Lisboa entre 2020 e 2025. Como curador independente, concebeu exposições para espaços institucionais, comerciais e não convencionais. Em colaboração com Orsola Vannocci Bonsi, criou o projecto Órbitas, uma série de exposições realizadas no Cosmos CAC. Enquanto membro do colectivo Da Luz, foi responsável pela curadoria da secção de vídeo-arte do Festival de Cinema Italiano em Lisboa em três edições (2022, 2023, 2025). Os seus textos foram publicados em editoras académicas como a Routledge e a De Gruyter, assim como em várias revistas internacionais.

 









Programa Espacial Autónomo InterGaláctico — exposição de Rigo 23 em diálogo com membr@s do Movimento Zapatista. Vistas da exposição na ZDB 8 Marvila. Fotos: Vasco Vilhena. Cortesia do artista e ZDB.

 


Nota:

[1] *- “Basic Income: How do we get there? Brian Eno, David Graeber and Frances Coppola” Uploaded by letmelooktv, 10th of December 2015, 8’:10”-10’:30”, https://www.youtube.com/watch?v=62PfsX1Hxx4

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