35 / 60

Entrevista a Hiuwai Chu e Raphael Fonseca

img_act687e5825215d4_626_6.jpg
Paula Ferreira

“The story must be true, but like a fable, and scary, but amusing. Off you go.”[1]

Günther Anders, The Molussian Catacombs

 

Encerrados nas masmorras de uma civilização totalitária, duas personagens ludibriam o tempo ao contar uma história. Na escuridão que dilui os dias em noites eternas, a narrativa se transforma em um exercício de reimaginar e reinventar a vida. A história é verdadeira, mas como uma fábula — um paradoxo que recobre a realidade de contornos fantasiosos. Essa imagem, retirada do livro de Günther Anders, propõe uma interpretação para o título Lúcido Devaneio que dialoga com as ideias propostas pelos curadores Hiuwai Chu e Raphael Fonseca. Tê-la como uma chave pode servir ao propósito de perceber os vínculos, nem sempre explícitos, sustentados pelas práticas dos vinte e dois artistas representados na exposição. Contando com a direção artística de João Laia, a exposição reúne um conjunto intergeracional e multidisciplinar de artistas que convocam a fabulação e a invenção de novos mundos como recurso indispensável à criação artística.

O que se segue é uma breve conversa com os curadores, que teve lugar na ocasião da inauguração, na Galeria Municipal do Porto.
 

Paula Ferreira (PF): Lúcido Devaneio é um projeto que visa criar um panorama das artes visuais em Portugal. O que esse formato específico propõe, em termos de pensamento curatorial, que o difere de outras exposições coletivas?

Raphael Fonseca (RF): Acho que é uma boa pergunta… Sinceramente, em nenhum momento fiquei pensando no peso da palavra "panorama". Para mim, trata-se de uma exposição com artistas de diferentes gerações e origens, que oferece uma lente sobre a produção artística contemporânea — não restritamente em Portugal, porque alguns dos artistas não vivem aqui, ainda que mantenham relações com o país. Quando a atenção é muito voltada ao peso conceitual de um panorama, a exposição ganha uma carga diferente. Aqui, a intenção foi construir uma boa exposição, com boas obras, de artistas que têm alguma relação com Portugal atualmente.

Além disso, há uma coisa que nos ofereceu liberdade: o fato de que esta é a primeira exposição nesse formato, o que fez com que não houvesse a responsabilidade de seguir um projeto com uma longa trajetória histórica. É como fazer a primeira edição de uma bienal, por exemplo; não existe um modelo anterior, então é possível experimentar. Quando você chega à 40ª edição, existe um percurso trilhado, e as escolhas se tornam mais condicionadas. Para Lúcido Devaneio, não tivémos esse tipo de limitação — o que foi muito positivo.

Hiuwai Chu (HC): Diria que é uma experiência diferente, porque, quando se trata apenas de uma exposição coletiva, há um tema ou uma tese orientadora — é uma construção a partir de uma ideia. O formato “panorama” não impõe essa necessidade de um conceito unificador, a construção acontece de “baixo para cima”, por assim dizer. Parte-se da escuta, da observação do que está acontecendo no território abrangido, e a partir daí, a exposição vai ganhando forma.

Em 2021, realizei um projeto semelhante no MACBA, que era ainda mais localizado — não tinha como foco a Espanha, nem mesmo a Catalunha, mas as práticas artísticas situadas em Barcelona e seus arredores. Portanto, era uma escala menor, mas com uma intenção similar, de observar o contexto, entender o que os artistas estavam produzindo, quais eram as suas preocupações, quais práticas estavam em curso naquele momento… Lúcido Devaneio foi desenvolvida de maneira próxima, com pesquisa de campo, visitas a ateliês, escuta atenta — sempre construindo de baixo para cima. Para mim, esse método de trabalho tem sido uma experiência reveladora e, do ponto de vista curatorial, também é uma forma diferente de trabalhar. Há, ainda, um aspecto mais enriquecedor, que é o diálogo — não apenas com os artistas, mas principalmente com o Raphael Fonseca e com o João Laia. O processo de troca, de nos desafiarmos mutuamente, de termos que explicar por que certas obras nos tocavam ou por que achamos importante incluí-las, foi fundamental. Acho que esse aspecto conversacional foi realmente a chave do projeto.

PF: Apesar dessas perspectivas distintas acerca do peso conceitual de um “panorama”, quais são os desafios suscitados especificamente por esse gênero de projeto?

HC: Para ser sincera, esse é um gênero de projeto muito desafiador. Justamente por tratar-se de um panorama, palavra que por si só cria expectativas — as quais, a meu ver, nunca poderiam ser atendidas. Realmente acredito ser impossível oferecer um panorama completo de uma cena artística, e tal nunca foi a intenção da exposição. Definitivamente, a intenção não era criar uma seleção do “melhor dentro da cena artística em Portugal”. É uma exposição muito específica, com o objetivo de dar visibilidade, especialmente internacional, a artistas com trajetórias sólidas, consistentes, mas que poderiam se beneficiar de uma maior projeção fora do país. E, nesse sentido, acho que o uso da palavra “panorama” pode ser um pouco enganoso — é, antes, como um recorte, o nosso recorte, muito específico, do que conseguimos captar. Além disso, lidamos, como em todo projeto, com muitas limitações; serem apenas 20 artistas, o espaço, o orçamento e etc. Dentro dos vários limites impostos, tentamos montar uma exposição que envolvesse diferentes gerações, diversos meios e suportes, e que desse uma ideia da diversidade da paisagem artística em Portugal.

Na verdade, a exposição é apenas a parte visível do projeto, o mais importante foi o processo. As viagens feitas até aqui, o envolvimento com o cenário local, com os artistas, com as galerias, com os espaços independentes... Esse tipo de engajamento a longo prazo é o que eu levo comigo. Fazer uma exposição com base em um tema específico é muito mais simples; é definido o tema e selecionados os artistas que estão trabalhando em torno dele. Mas esse processo de pesquisa foi diferente. Ele nos levou por caminhos tortuosos, o que é algo bonito. Há algo valoroso em perder-se nesse tipo de processo. Perder-se para depois emergir com algo. Na minha concepção, esse é o verdadeiro projeto. Apesar dessa parte acabar por não ser visível ao público, acredito que a intenção era também envolver curadores de fora, permitir que eles dialogassem com o contexto português, tivessem múltiplas conversas com diferentes agentes e saíssem desse processo com relações construídas — relações que vão continuar além da exposição.

Portanto, sim, “panorama” é uma palavra que gera expectativas exageradas, é o gênero de projeto que, não importa o resultado, haverá críticas e artistas que ficaram de fora. Por outro lado, entendo o peso que uma exposição como essa carrega, especialmente por causa do título e do subtítulo, que têm um caráter institucional — e que, vale dizer, não foi algo definido por nós, curadores. Então, estou totalmente aberta às críticas. Acho importante ouvi-las. Mas também acho essencial deixar claro que, para mim, essa mostra não é uma fotografia definitiva da cena artística portuguesa — a mesma é muito mais porosa e rica do que aquilo que conseguimos abarcar. Por mais rica que seja, o que está além dela é exponencialmente mais vasto.

Por fim, vale dizer que, ao longo da duração da exposição, outros curadores também serão convidados, não só para ver a mostra, mas também para fazer visitas a ateliês e conhecer os artistas. E esse é um trabalho que me parece relevante, pois há muitos aspectos do projeto que vão além do que é visível. Há qualidades intangíveis e camadas menos evidentes, é importante que as pessoas compreendam. E digo isso não como uma crítica — antes pelo contrário.

PF: Reconhecendo que vocês vêm de trajetórias bastante díspares — tanto entre si quanto em relação ao contexto português —, qual foi o papel do diálogo no processo curatorial? Como se deu a construção conjunta de uma exposição que olha para o contexto da arte contemporânea em Portugal?

RF: Essa experiência foi única, justamente por conta da parceria com a Hiuwai Chu, dessa espécie muito interessante de “casamento curatorial”. Foi bastante enriquecedor aprender com o olhar dela. Também, quando se faz uma curadoria a dois, os tempos são diferentes, não há o desejo de uma só pessoa, mas um encontro de vontades. Há encontros, ajustes, limitações clássicas — espaço, orçamento, o que é viável ou não. E, claro, tivemos o acompanhamento do João Laia, diretor da instituição, que, em certos momentos, deu opiniões e direcionamentos. Então, embora seja uma curadoria nossa, ela aconteceu sob o guarda-chuva de um projeto criado por ele e dentro da instituição que ele dirige. Existe uma expectativa, tanto da parte dele quanto da nossa, de que o projeto seja significativo.

Foi um grande aprendizado lidar com todos esses desejos e expectativas distintos. E, com os artistas, a experiência foi maravilhosa, todos foram muito abertos e generosos. Houveram trocas muito ricas, apesar de sentir que os artistas não estavam acostumados a receber curadores estrangeiros para visitas de estúdio. Acho que existe certa carência de conversas entre artistas locais e curadores de fora. E, nesse sentido, foi uma via de mão dupla — os artistas ganharam, e nós também aprendemos. Esse processo também foi fundamental, inclusive com artistas que acabaram por não entrar na exposição.

HC: Sim, a existência do diálogo e dessas relações foram essenciais, porque também entrei nesse processo de forma quase ingênua, com abertura, disposta a descobrir. É claro que há conversas com pessoas do meio que acabam direcionando o conhecimento sobre determinados artistas, isso é inevitável. Mas justamente por isso, a conversa e o diálogo em equipe são fundamentais — para entender de onde os próprios artistas estão partindo, como se relacionam com seu trabalho, com a cidade onde vivem, com o contexto cultural e político ao redor. As visitas aos ateliês também revelaram muito. Portfólios são ótimos, exposições também trazem muitas informações, mas nada substitui o encontro, a conversa com o artista. Então, todas essas trocas foram essenciais.

PF: Lúcido Devaneio propõe um recorte claramente intergeracional e interdisciplinar. Podem partilhar um pouco o que esteve por trás dessas escolhas, ou de que maneira essas vozes tão diferentes dialogam dentro da exposição?

RF: Sim, a exposição “bagunça” um pouco as gerações de artistas. Mas eu acho que o que aproxima esses artistas está mais relacionado à nossa escolha curatorial, do que com uma “identidade comum” entre artistas portugueses. Quando olhamos desde o exterior, com uma vontade genuína de representar a multiplicidade da produção artística, é possível perceber direções muito variadas. E, nesse contexto, a nossa escolha foi a de trabalhar com artistas que compartilham essa ideia de fabulação — esse “devaneio” que dá título à exposição. Isso cria uma certa coesão, mas é claro que, se ampliarmos o foco para além da nossa seleção, é possível encontrar um espectro muito mais diverso de abordagens e linguagens.

O que me chamou muito a atenção, especificamente no trabalho de uma geração mais jovem de artistas que está representada na exposição — talvez a partir dos millennials —, é que me parece não existir mais uma obrigação de “representar Portugal”. Parece que, antes, havia esse peso, falar da ditadura, da história, da “identidade nacional”, que, agora, assume uma abordagem mais livre, íntima, mais voltada para poéticas pessoais — que podem ser autobiográficas, identitárias (entre muitas aspas), ou mesmo simbólicas. Esses elementos talvez sejam aquilo que relaciona os trabalhos, mas, de novo, é algo que reflete antes a nossa curadoria do que uma característica da cena portuguesa de modo geral.

PF: E em relação aos media e linguagens abordadas?

RF: Desde o início, sabíamos que trabalharíamos com cerca de 20 artistas — o que, obviamente, faz com que seja impossível abarcar todas as linguagens e media existentes. Nesse sentido, acho que a exposição também reflete como nós operamos, enquanto curadores. Tanto eu quanto a Hiuwai temos uma relação com o objeto — gostamos de trabalhar essas presenças, e essa exposição é, de certo modo, uma reflexão disso, não é voltada para o efêmero. Alguém comentou que ela é "totêmica", e até concordo, talvez seja.

PF: Nesse processo de pesquisa, descobertas e trocas com tantos artistas — inclusive com aqueles que não figuram na exposição —, houve algo de particular sobre a produção artística portuguesa que se destacasse? Refiro-me tanto em termos de expressões artísticas quanto ao nível institucional.

HC: Não houve algo especialmente fora do comum, mas senti uma forte noção de comunidade, uma vontade muito clara de fazer as coisas por conta própria. Assim como houve muitas críticas em relação ao sistema — a falta de apoio, a necessidade de oportunidades fora do país, a dificuldade de movimento dentro de um meio tão circunscrito. No fim de quase todas as visitas aos ateliês, perguntávamos aos artistas as suas opiniões acerca do contexto local, e o que pude notar foi uma iniciativa bastante independente e autônoma, especialmente no Porto. Há muitos projetos independentes surgindo de artistas que se unem para realizar exposições e projetos. Sem ficar à espera que algo aconteça, tomando a frente, e isso é algo que valorizo muito.

Também senti uma generosidade, uma abertura verdadeira em relação à prática artística. Em vários sentidos, na verdade. Uma frontalidade para consigo mesmos, enquanto artistas — no sentido de experimentar, de explorar a materialidade, sem tanto a preocupação com tendências, por exemplo. Claro que há tendências, é inevitável que haja, mas senti que cada um segue um caminho muito próprio e pessoal. Existe uma autenticidade real, uma originalidade nas práticas. E, embora muitos digam que o meio é pequeno, sinto que há uma dimensão internacional no trabalho, algo que ressoa com questões globais, que se conecta com práticas artísticas de outros contextos ao redor do mundo.

RF: Acho que existe, em Portugal, um certo desejo de internacionalização por parte de muitos artistas. Porém, grande parte daqueles com quem conversamos comentou sobre certa dificuldade, sobre a falta de oportunidades fora do país, a ausência de curadores estrangeiros por aqui, entre outras questões… e há, nisso, um aspecto financeiro. Falta investimento público que permita aos artistas terem mobilidade, realizarem exposições no exterior, poderem contar com apoio institucional.

PF: Um ano e meio se passou desde o início desse processo. Gostaria de saber o que ficou enquanto expectativa, o que se cumpriu e o que permanece em aberto…

RF: De modo geral, acho que estamos satisfeitos com o que foi realizado. É importante lembrar que a escolha dos artistas não foi feita um ano e meio atrás — isso aconteceu no começo deste ano. Então, talvez a sua pergunta valha mais para o que conseguimos concretizar em seis meses. Dentro do que era possível, acho que cumprimos o que nos propusemos. Claro que uma exposição é sempre aberta à leitura — o público vai interpretar como quiser. Mas acredito que conseguimos apresentar uma mostra com mídias variadas, escalas distintas e artistas de diferentes gerações e regiões. Algo que me marcou foi perceber essa barreira invisível, que talvez nem seja tão invisível assim, entre Lisboa e o Porto. Muitos artistas do Porto não expõem em Lisboa, e vice-versa. E uma das coisas mais bonitas que aconteceu foi durante um jantar que organizamos aqui: vários artistas que estavam na mesma exposição não se conheciam, nunca tinham se visto. Isso foi incrível. Se conseguimos criar esse encontro, essa rede, esse senso de comunidade entre artistas, então uma parte do nosso papel foi cumprida. A exposição não é só para o público; ela também é para os próprios artistas.

Claro que sempre vão existir ausências. Toda exposição que pretende ser panorâmica é uma falácia, no sentido em que está fadada a nunca representar um todo (se é que ele existe). Mas, ao menos, ela pode ser uma lente — uma maneira de olhar.

 

Galeria Municipal do Porto

 

Paula Ferreira é escritora, fotógrafa e pesquisadora independente. Nascida em São Paulo, atualmente vive em Lisboa. É pós-graduada em Fotografia pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e em Estética pela FCSH NOVA. É fundadora de Aos Cuidados, projeto que abrange publicações impressas, exposições e workshops dentro de temáticas relacionadas ao acesso à saúde e aos direitos aos cuidados, sempre por uma perspectiva feminista, interseccional e transdisciplinar. Em 2023, realizou a curadoria da exposição Bandeira Branca, na Galeria Irmã Feia, e o ciclo de cinema Escrever a Liberdade, no Museu do Aljube. Foi assistente curadora na Anozero: Bienal de Coimbra, edição de 2024.
 

O texto foi escrito em português do Brasil.

 

Lucid Reverie - Exhibition view _ Cred. Dinis Santos-GMP_Easy-Resize.com
Lucid Reverie -Mariana Caló & Francisco Queimadela-Cred. Dinis Santos-GMP_Easy-Resize.com
Lucid Reverie - Tiago Mestre _ Cred. Dinis Santos-GMP
Lucid Reverie - Sara Bichão 2 _ Cred. Sérgio Monteiro-GMP_Easy-Resize.com
Lucid Reverie - Exhibition view _ Cred. Sérgio Monteiro-GMP_Easy-Resize.com

Lúcido Devaneio – Panorama da Arte Contemporânea Portuguesa. Vistas da exposição na Galeria Municipal do Porto, 2025. Fotos: Dinis Santos e Sérgio Monteiro. Cortesia Galeria Municipal do Porto.

 

 


Nota:

[1] Grifo da autora.

Voltar ao topo