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Spillovers

Rita Natálio

 

Em 2020, foi encontrado um livro dentro de um poço. O poço estava, como muitas outras cavidades da vida, contaminado por atividades superficiais de monocultura intensiva. A sua água, tornada insalubre, havia secado por tempo indeterminado. Foi neste buraco seco, embora visceralmente marcado pela memória da água, que foi encontrada uma tradução de Lesbian peoples: material for a dictionary[1] escrito em 1976 por Monique Wittig e Sande Zeig.

Este livro poderia ter sido recebido como um manual ou algum tipo de texto fundacional para certo tipo de culto religioso ou ritual espiritual. Soube-se muito mais tarde que se tratava de um diário onde se anotavam as transformações fugazes da linguagem transcorporal e elemental, assim como um arquivo de práticas onde se compilavam e se conectavam descrições de objetos, figuras, problemas e estratégias político-afetivas que a comunidade de Spillovers (naquela altura chamadas apenas de “amantes” ou tão só de “mulheres lésbicas”) haviam tentado implementar na sua vida, face às crescentes agressões do turbo-capital e da ciênca moderna das divisões. Veja-se, a título de exemplo, a entrada Circulação da página  50 da tradução espanhola traduzida aqui para português:

Circulação

Passagem simultânea de calor e de electricidade através dos corpos que se misturam. Quando dois corpos repletos do calor e da eletricidade que atravessam a pele pelos poros, se aproximam, vibram ou começam a misturar-se, produz-se uma reação de condução e de circulação que faz com que cada poro absorva a energia que antes exalou sob uma forma outra. A celeridade de tal fenómeno, isto é, a transformação de calor e de eletricidade em energia, provocam uma radiação intensa dos corpos que praticam a circulação. É isto o que as amantes querem expressar quando dizem: “eu te circulo”, “tu me circulas”.

 

No livro, podia  entender-se que “as amantes” se percebiam como uma espécie de membranas que buscavam relacionar-se através de uma ecologia própria de conexões e dos seus limites. Mas em 1976, muites de nós tinham apenas 2 anos de idade ou tinham acabado de aprender a mexer com um anel e uma vareta em busca de água. E the problem was that we did not know whom we meant when we said we”, como disse 1 de nós[1] nessa altura. O pronome pessoal plural era uma prática que permitia apenas que não desaparecêssemos em outros pronomes que ignoravam as nossas vidas, embora não soubéssemos exatamente quem éramos. “Lésbicas” ou “mulheres” eram palavras-container que pareciam não chegar. Em 1976, também sabíamos muito pouco sobre rabdomância, hidrofeminismo[2] ou sobre o atravessamento de água por escalas, corpos e géneros. Equilibrar-nos sobre 2 pernas era algo que poderiamos fazer perfeitamente, assim como ler, embora certos constragimentos da visão e da verticalidade nos impedissem de tocar a irradiação de energia de forma mais complexa. A busca de água com uma vareta, necessitava de uma iniciação, de um cuidado especial, e o uso de antenas comuns às redes de amantes não era (ainda) uma tecnologia fácil de acessar.

Assim, considerando a humildade e a humidade da experiência, o glossário que aqui se apresenta propõe uma certa continuidade com a vidência de Wittig e Zeig, ao mesmo tempo que especula sobre os anéis e as bolsas de ficção[3] que Spillovers devem tocar e tecer para misturar os tempos e produzir água. Nesse processo de imersão, não é preciso temer ficar molhade e muito menos sentir dor ao beber água suja ou por ver uma torneira em fogo provocada por fracking de gás metano[4]. Todas estas dimensões, embora dolorosas, organizam o amor de Spillovers. E embora por vezes se dispense aqui o centrismo dos olhos e da leitura, imagens e conversas com práticas de cinema indígena, poesia radical e filosofias contra-coloniais são convocadas e pedem coisas muito simples: que no início os mundos sejam vividos a partir dessas referências, de Dionne Brand a Karrabing Film Colletive, de Astrida Neimanis a Ursula K. Le Guin. Faz-se assim o gesto necessário e anti-heróico de 2020: esquecer e cortar a comunicação com as elites antropocénicas, ao mesmo tempo que se carrega água para quem precisa. Como diz um provérzio Zen: Antes da iluminação (...) carregar água. Depois da iluminação (...) carregar água”. 

 

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GLOSSÁRIO

 

1.

SPILLOVERS

 

Ser 1 lover é sempre ser 1 Spillover. O efeito spill-over, que provoca o vazamento de líquidos e intenções, é a primeira condição do cooperação amorosa multiespécie e intersexo, sejam estes líquidos genitais, lacrimais ou bombeados a jato por partes do corpo menos óbvias como os cotovelos ou os pés. Produz-se água no encontro de 2 ou + entidades que se adequadamente colocada em mochilas, poderá transmutar para a condição de líquido amniótico, um líquido com propriedades amnésicas onde outras entidades poderão ser gestadas. Não é comum beber-se líquido amniótico a não ser em caso de enterramento em terras secas para produção de água, em períodos de escassez fortes ou de contaminação. São Spillovers todes que, numa vida sem protagonistas, desejam transbordar para fora de si e cruzar as fronteiras moles entre pessoas, territórios e paisagens.

 

2.

MOCHILAS

 

Mochilas são produções tecnológicas de Spillovers com funções variadas. Mochilas podem gerar e carregar bebés e podem ser trocadas entre corpos, independentemente do seu género. Mochilas podem carregar água. Mochilas carregam líquido amniótico e também carregam ideias ou histórias. Auto-reparam-se, são biodegradáveis mas têm um limite do seu uso, não são descartáveis. Mochilas não geram apenas bebés humanes, também podem criar parentescos vegetais ou minerais e por isso se diz que geram babyplants ou babyrocks. Mochilas também servem como estratégia de resistência em caso de contaminação aguda de lençóis freáticos (como demonstrado no filme Mermaids de Karrabing Film Colletive de 2018[1]), podendo em situações de emergência quebrar fronteiras duras como as das atuais fronteiras de estados-nações. São ferramentas para a migração ou transmigração dos corpos tendo a capacidade temporária de desativar passaportes.

 

 

3.

ÍRIS

 

Diz-se que, há muito tempo atrás, Spillovers experimentaram carregar água nas mochilas supracitadas, assim como palavras, abastecendo as sociedades multiespécie de vínculos inesperados e opacos. Desde então, se a água toca uma palavra dentro da mochila pode dividi-la em várias partes: isso aconteceu por exemplo com as palavras clitóris (clito-íris) e arco-íris, ferramentas de concentração e desdobramento emocional. Desde então, quando 1 ou + Spillovers conseguem encher e carregar uma mochila de água para um território dominado pelo pensamento da monocultura, a sua íris incha como se tratasse de um clitóris gerando uma chuva dourada altamente hidratante seguida de um arco-íris multicolor no céu. Esse acontecimento gera muito prazer, mas não podemos dizer que seja heróico ou se confunda com a tendência masculina para o culto de figuras específicas e erectas. Aliás, como diria, Spillover K. Le Guin “...it’s clear that the Hero does not look well in this bag. He needs a stage, a pedestal or a pinnacle. You put him in a bag and he looks like a rabbit, like a potato.”[1]

 

4.

ANTENAS

 

Quando encontrado dentro do buraco, Lesbian peoples: material for a dictionary apresentava esta página sublinhada e marcada dando a entender que parte do trabalho feito por Spillovers estava intimamente ligado à atenção colocada sobre corpos e água, e ao desenvolvimento de uma internet corporal altamente sofisticada.

 

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Protocolo para sintonizar antenas e tornar-se 1 Spillover

Spillovers usam as antenas das mãos, da nuca, dos pés, dos olhos, da língua, dos tornozelos, do clito-íris ou dos intestinos, para regenerar as suas membranas

ou algo à distância. Assim podem mobilizar coletivamente emoções, pensamento, relações ou experiências.
 

Seguem alguns exercícios para sintonizar as antenas, recolhidos de experiências empíricas: 

 


 

RUBBING: Tente esfregar 2 mãos juntas durante 2 minutos. Coloque em seguida cada palma das mãos-antenas nos olhos-antenas sem pressioná-los. Deixe o calor atravessar o volume do crânio e assim hidratar os orifícios e dutos comunicantes: covas dos olhos, testa, nuca, boca, garganta, peito. Por vezes, a conexão entre as antenas e o movimento hidratante do calor permite vizualizar padrões geométricos e cores.

PARTYING: Reúna 3 ou + Spillovers. Coloque aquela música favorita que deseja dançar agora. Dance freneticamente até fazer suar as cerca de 2 milhões de glândulas sudoríparas da pele. Utilize em seguida o vapor do suor para sintonizar as antenas. Esse suor evaporado converter-se-á numa oferenda coletiva para épocas de seca.

TOUCHING: Encoste-se no chão com 1 Spillover e apoie a sua nuca sobre a barriga de su partner. Solte todo o peso da cabeça e permita que esta se funda nas águas digestivas e intestinais de outrem. Ative a antena da nuca enquanto escuta os sons aquosos dos orgãos. Sensibilize a antena para acompanhar e faciliar a digestão e a eliminação de toxinas de su partner.

WALKING: Saia para caminhar num ritmo constante com 2 ou + Spillovers. Durante a caminhada, ative as antenas-raízes das plantas dos pés. Sinta como o movimento da circulação sanguínea se sincroniza com a seiva de plantas nas bordas dos caminhos. Usando as antenas-raízes dos pés, poderá conectar-se com águas subterrâneas. Permita que essas águas ascendam até à boca sob a forma de saliva. Então, beije 1 ou + Spillovers para que essa baba-seiva continue circulando.


 

5.

ANÉIS

 

Diz-se que anéis são correntes a partir das quais Spillovers constroem mundos. Anéis são ferramentas de visualização dos tempos. Para ver os tempos é preciso tocá-los, já que não se trata de uma tecnologia ocular, mas sim de um processo háptico. Anéis atravessam alquimicamente a formação das mochilas acima descritas. Diz-se que o primeiro anel de Spillovers surgiu junto a uma lagoa quando, para beber água, Spillover XYX teve que levar a boca ao nível da terra, deixando o cóccix e o ânus dirigidos para o alto. O problema destas formas circulares abertas (que eram já invocadas por Wittig e Zeig) complexificou-se com a dificuldade de falar sobre elas, visto que ao colocar a boca em anéis, a expressão verbal de XYX foi automaticamente excluída dos padrões de compreensão e acabou por transmutar para outras fontes de linguagem, também pouco consensuais para o mundo monocultural. Assim, a visualização de tempos passados presentes e futuros (através do toque anelar) tornou-se a única hipótese viável de recriar a linguagem. Hoje em dia, a busca amorosa de Spillovers passa por praticar este toque tendo em vista o transbordamento radical - da água e do confinamento identitário. À medida que, no mundo monocultural, se vão apertando os mais variados cinturões constrictores de destruição, encaramos uma corrida contra o tempo: gerar água e observar a sua corrente como fluxo e não como cadeia. É uma guerra por desdobrar os tempos.


Veja-se ainda a propósito desde tema, o comentário de Spillovers Stengers e Pignarre sobre círculos:

How people have bitched, expounded and sniggered about the womensgroups in the 1970s who learned that it was sometimes necessary for them to meet together without men’! They were called witches, and it was an insult, but in fact in their groups they accomplished the first gesture of witches, without first naming it as such: the casting of the circle, the creation of the protective space necessary to the practice of that which exposes, of what puts at risk in order to transform[1].

 

6.

CINTOS

 

Embora seja difícil de visualizar, é preciso imaginar que anéis movem-se autonomamente e, quando reunidos, formam tubos moles articulados ou uma espécie de cintos que trepam, locomovem-se e podem ser usados de diferentes formas junto ao corpo: na cintura, na cabeça como uma paramenta, na mão, ou unindo diferentes corpos. Com esses cintos, Spillovers praticam outras formas de cercar, envolver e até anilhar amores. Observam certos fenómenos de escassez e toxicidade (da água, da luz ou da terra) durante o que hoje se tem chamado de Antropoceno, como oráculos para um cuidado cada vez mais marcado da sua ternura háptica. Nas histórias orais de Spillovers, entidades e divindades surgem carregando ou ostentando cintos brilhantes, nos quais são encaixadas pedras ou pequenos ramos de madeira. Fazem mediação com o mundo dos não-vivos e dão acesso a códigos sensíveis opacos que raramente podem ser compartilhados a não ser sob a forma de práticas eróticas. Assim, os cintos são entidades vivas e elásticas. Aliás, precisam de trocar de pele com alguma regularidade, como costumam fazer as cobras ou outro tipo de animais rastejantes. Diz-se que essas peles poderão servir para criar a pele das mochilas e, eventualmente, poderão apertar ou reparar as mochilas depois que se rompem as águas durante o nascimento de alguém. Trazer um cinto mole ou um cobra à cintura é um troféu do movimento peristáltico que une Spillovers.

 

 

7.

CINTOS DE CASTIDADE

 

Ao longo da história, existiram outros tipos de cintos restritivos e duros, feitos em metal e, por vezes, com cadeados dispostos à frente dos orgãos sexuais. Invocamo-los aqui para que possam ser esquecidos. Diz-se que são cintos negativos, pois têm como função aniquilar ou separar as partes que envolvem. É errado pensarmos que são usados simplesmente para fins de abnegação sexual. Cintos duros de castidade cerebral e ética  impedem a circulação de energia, distribuindo o peso de forma muito desigual sobre entidades artificialmente divididas. Porém, não é preciso dar demasiada atenção a este problema, já que a sua memória está amplamente documentada em dicionários e iconografias populares. Importa apenas lembrar que, a toda a hora, em qualquer parte do planeta, cintos moles e cintos duros podem ser friccionados e por eles os sinos dobram. Fronteiras duras são expostas a fronteiras moles e a migração é a única resistência possível à compartimentação. Além disso, tendo em conta os inúmeros cercos sanitários e políticos formados em toda a superfície do Planeta Extrativo — desde pelo menos 1492 — tornou-se evidente que a poli-vibração de práticas amorosas aquáticas de Spillovers gera corrimentos de travessia, de resistência à violência colonial e diferenciófóbica.

8.

RECIPIENTES: CÁLICES OU CONES

 

Na gíria do transbordamento, diz-se que os corpos de Spillovers podem ser “recipientes” — cálices ou cones — quando colocados em V dentro da terra. Para isso, a cabeça é enterrada, assim como o tronco, deixando do lado de fora duas pernas abertas para o céu irradiando energia. A profusão energética gerada por essas duas pernas, espetadas como antenas para o alto, tem a capacidade de pressentir campos magnéticos aquosos antes invisíveis e assim gerar volumes aburdos de água. Nessa posição, também há a possibilidade de descontaminar a água através da agitação das pernas em forma de tesoura, assim abrindo e fechando os buracos genitais para bombear líquidos por dentro e por fora num processo que descrevemos aqui como de limpeza e fermentação. Em suma, se alguém diz “Não há água!”, imediatamente 1 Spillover se põe numa posição invertida. O propósito é buscar a água na terra, mas também em si mesme, porque se sabe que a água não está “num” lugar. É sabido que descargas poluentes contaminam todos os rios da terra e dos corpos e que só abrindo as relações se pode cuidar.

 

 

9.

CONEXÃO

 

Once you recall the connection, the crisis is no longer a crisis[1]. (Spillovers Desideri e Ferreira da Silva).

Este mantra recorda Spillovers de que existe uma ética da conexão e de seus limites para suportar problemas trazidos por práticas hegemónicas de separação.

 

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10.

ESQUECIMENTO

 

Small memories drift away. The brain — soft bag — collapses on itself. Stripped speech patterns float in the soul’s canyons where things are perennial[1]. (Spillover Etel Adan)

 

É sabido que a prática radical do corpo-cálice gera esquecimento das condições que associam um corpo a um sujeito. Diz-se que esse esquecimento pode estar associado a um processo mais coletivo de perda de referências sobre as formas livres de transcorporalizar água ou de gerar vida, como aconteceu com a memória de uma cauda ancestral que muites Spillovers conseguem lembrar que esqueceram. Spillovers não conseguem recordar exatamente como era esta cauda, de onde esta pendia (se na frente ou na parte de trás do corpo) ou para o que servia. Aliás, consta em certos ícaros que andar para trás era mais fácil, ou que frente e trás se confundiam já que a cauda poderia ser a memória de uma terceira ou quarta perna perdidas pela divisão dos corpos vitruvianos. Uma das coisas que dá muito prazer a Spillovers é jogar à tentativa de reprodução desses tempos atraves de posições e posturas que recordam o antes vivido (passado) pela projeção de um encaixe futuro (futuro ancestral).

 


 

Protocolo Tale of a Tail


The Tale of a Tail é o jogo com 2 ou + Splillovers que consiste em recordar a cauda perdida, um conjunto de anéis no fundo das costas, articulados, ou talvez vibracionais que podem ativar certas expansões entre ânus e anéis. Algumas posições a 2 envolvem colar ânus com ânus, estando em posição fetal, ou cruzar os dedos dos pés em jeito de oração e conexão sem fios com o universo. Diz-se que a cauda pode então materializar-se, acompanhada da memória da dor de ter sido arrancada ou exterminada ao longo de séculos, e nesse ato, o eixo do corpo se reconfigura a partir de novos centros e alianças. Para a maioria de Spillovers, é considerado elegante ser aguadeire dos mundos nestas condições extremas de soterramento, condições que poderiam ser para outres desconfortáveis. Cortar a comunicação com as elites heterocisbrancaspatriarcais através do esquecimento é um ato de amor Spillover com a terra.

 


 

11.

CONCENTRADOS DE ENERGIA

Raíz, íris, caroço, mamilo, clítoris são concentrados de energia articulados que servem para sorver-prover alimento e alento. São centros radiantes da fronteira-abraço entre mundos antes desligados. Permitem decifrar o lugar das cinturas moles do amor, diminuindo o peso da natureza ou da reza infinita sobre dívidas e divisões.

 

12.

ESCRITA-TERRA

 

Costuma chamar-se de escrita-terra a forma de comunicação através de corpos-cálices enterrados na terra. Como o processo de esquecimento é, como vimos, cumulativo e múltiplo, os corpos vão esquecendo-se de si mesmos mas também de modalidades mais manuais da escrita - como o desenho de letras ou a digitação. Tendo em conta este processo, há quem reconheça que este pequeno glosssário só poderá ter sido iniciado antes da evolução mais radical destas práticas. Spillovers, tornades cálices, foram progressivamente ficando desacordades de si mesmes, bebendo quantidades consideráveis de líquido amniótico, com propriedades amnésicas muito fortes. Também se esqueceram do uso das mochilas e tendem a crer que o ciclo de produção de uma vida só ocorre uma vez, não havendo lugar à re-produção.

 

13.

LEITURA-VAPOR

 

Diz-se que a leitura "seca o corpo” e por isso ela deve ser afetuada como vaporização. Apenas Spillovers que têm as mãos livres (e portanto não vivem enterradas) podem ler. O vapor de baba que sai da boca de 1 “splillover mãos livres” pode vazar para uma camisola molhada ou uma toalha, e depois ser esprimida para um copo, que concentra o conteúdo de um livro em forma de concentrado de energia. Muito esforço foi aplicado neste processo de redução de livros (books), para a ampliação de ganchos (hooks) conectivos.

 


 

Protocolo para vaporizar um livro (por exemplo este glossário)

 

Ler em voz alta. Algumes Spillovers tentam ler com as mãos. Outres tentam apoiar livros no corpo e permitir que o papel) concentre o calor na pele. Afirmam ser uma forma de incorporar a leitura, uma vez que esqueceram a confiança nela. Progressivamente, tornam-se capazes de “cantar”, respirando rápido e produzindo uma concentração de energia e calor, que transforma letras em sons, palavras em vapor e vapor em mantras. Quanto mais cantam, mais vapor e calor produzem. E quanto mais humidade emanam ao cantar, mais o livro lido desaparece.

 


 

POST SCRIPTUM: MUITAS PALAVRAS PARA ÁGUA

 

 


 

Rita Natálio. Artista e pesquisador. Lésbica não-binária. Os seus espaços de prática relacionam poesia, escrita ensaística e performance. Doutorando em Estudos Artísticos na FCSH-UNL e Antropologia na USP, com bolsa FCT, pesquisa desde 2014, o recente debate sobre o conceito de Antropoceno e o seu impacto sobre a redefinição disciplinar e estética das relações entre arte, política e ecologia. Estudou Artes do Espetáculo Coreográfico na Universidade de Paris VIII e é mestre em Psicologia pela PUC-SP onde estudou as relações entre imitação e invenção na obra de Gabriel Tarde. A partir da sua pesquisa doutoral, realizou uma série de conferências-performance, entre elas Antropocenas (2017) com João dos Santos Martins, Geofagia (2018) e Fóssil (2020). Publicou também dois livros de poesia – Artesanato (2015) e Plantas humanas (2017). Em 2019, participou de um grupo curatorial fomentado por Ailton Krenak que organizou Ameríndia: percursos do cinema indígena no Brasil na Fundação Calouste Gulbenkian, uma mostra que trouxe 5 cineastas indígenas a Portugal e apresentou mais de 30 filmes de produção indígena. Em 2020, co-organizou o seminário Re-politizar o Antropoceno dentro do projeto internacional Anthropocene Campus Lisboa e junto com Davide Scarso e Elisabeth Johnson, um projeto originado no HKW em Berlim e atualmente disseminado em diversas instituições culturais. Co-organiza com André e.Teodósio a chancela editorial Ed.______  que resulta da parceria Sistema Solar/Teatro Praga e que tem como foco as artes performativas e os sistemas de poder e protesto na atualidade. Colabora regularmente com o jornal de artes performativas Coreia.

 


 

Notas:

 


 

[1] A edição original francesa intitula-se Brouillon pour un dictionnaire des amantes e foi publicada pela editora Les Cahiers Rouges em 1976.

 

[2] Adrienne Rich, Notes towards a politics of location, 1984. Disponível aqui.

[3] Astrida Neimanis, Hydrofeminism: Or on Becoming a Body of Water. In Undutiful Daughters, edited by H. Gunkel, C. Nigianni, F. Söderbäck, 85-99. New York: Palgrave Macmillan, 2012. Disponível aqui.

[4] Ursula K. Le Guin The carrier bag theory of fiction, 1986. Disponível aqui.

[5] https://www.youtube.com/watch?v=4LBjSXWQRV8

 

[6] https://kadist.org/work/mermaids-or-aiden-in-wonderland/

[7] Ursula K. Le Guin, The carrier bag theory of fiction, 1986.

[8] Isabelle Stengers and Philippe Pigare, Capitalist Sorcery - Breaking the spell, PALGRAVE MACMILLAN, 2011, p 25.

[9] Denise Ferreira da Silva and Valentina Desideri, A conversation between Valentina Desideri and Denise Ferreira da Silva.

[10] Etel Adan, Sea and Fog, Nightboart Books, Collicoon: New York, 2012, p 4.

 

 


 

Imagens: 1: Rita Natálio. Coleção Museu Marítimo de ílhavo; 3. Video still from Mermaids or Aiden in the Wonderland, Karrabing Film Collective, 2018; 5. Esboço das antenas; 6. Movimento Peristáltico. Fonte: Wikipedia; 11. Rita Natálio. Coleção Museu Marítimo de ílhavo; 12. Antigas formas de leitura; 13. Novas formas de leitura. 

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