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Wolfgang Tillmans: Rien ne nous y préparait — Tout nous y préparait

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Isabel Nogueira

Está um calor insuportável em Paris. O planeta mostra-nos, sem condescendência, que já não nos aguenta mais. A entrada no Centre Pompidou refresca, contudo, o pensamento e a visão torna-se mais larga. O edifício, já parcialmente em obras, apresenta antes do fecho uma das melhores exposições dos últimos anos, agora no amplo espaço da Bibliothèque Publique d'Information (BPI). Trata-se de uma notável restrospectiva de Wolfgang Tillmans (1968, Alemanha), que surge na sequência de outras retrospectivas do artista, das quais destacamos as que tiveram lugar na Tate Modern (Londres, 2017) e no MoMA (Nova Iorque, 2022).
 
São 35 anos de trabalho, que percorrem vários géneros fotográficos, inclusivamente, os três géneros tradicionais de representação bidimensional — paisagem, retrato e natureza-morta —, mas também a fotografia abstracta e arquitectónica, e ainda incursões no som, na música, na imagem em movimento e na documentação. A biblioteca tornou-se orgânica e imensamente viva, ao manter parte das estantes com os livros, assim como as secretárias e os computadores de pesquisa bibliográfica ou alguns sofás, agora misturados de modo desassombrado, coerente e vivo com o universo e a obra de Tillmans. A exposição desenvolve-se na verticalidade das paredes e na horizontalidade das largas vitrines. E, logo neste ponto, encontramos uma definição operatória de uma boa curadoria: a que enaltece a obra e que a faz destacar-se no espaço e no tempo de ligação com o espectador. Tillmans assume cumulativamente — e bem — esta função de artista-curador, por entre a arquitectura high-tech de Renzo Piano e Richard Rogers, com a estrutura exposta de tubulações de colorido codificado e vigas visíveis, invertendo a lógica da arquitectuta tradicional. A seu modo, tanto a arquitectura como as obras ganham, denotando mais um sintoma de uma curadoria bem conseguida.

A obra de Wolfgang Tillmans configura-se como um dos discursos visuais mais refinados e provocadores da contemporaneidade, precisamente porque transcende as fronteiras tradicionais entre os géneros fotográficos. A sua prática artística, que emerge nos anos 90 no contexto do próprio renascimento da fotografia como linguagem autoral e conceptual, destaca-se por uma abordagem simultaneamente íntima e cosmopolita, documental e experimental, rompendo as categorias do quotidiano e do sublime. De facto, Tillmans manipula a fotografia não apenas como meio de representação, mas como campo ontológico onde a imagem se torna investigação sobre a própria natureza da visibilidade. Há uma tensão produtiva que revela um olhar, que é simultaneamente político e sensorial, inelectualizado e mundano, racional e afectivo.

Os anos 90 assinalaram mudanças culturais e identitárias profundas. Entre 1992 e 1994, Tillmans mudou-se para Londres, começando a sua documentação da juventude queer, do clubbing, das festas rave — que cresciam no Reino Unido, oriundas do movimento acid house de Chicago —, da intimidade dos corpos e da vulnerabilidade do amor e da vida. A música aparece sempre como evocação, está sempre lá, exaltando vibração e superação da finitude. A relação de Tillmans com a música é estreita, chegando a trabalhar visualmente com bandas vindas da cena new wave electrónica dos anos 80, como Pet Shop Boys e Colourbox.

Por entre imagens muito pequenas e intimistas e outras de grande dimensão, a relação do artista com o mundo e, sobretudo, no mundo vai-se desencadeando ao longo do espaço expositivo, como uma história de vida, de afectos e de estética. A própria relação amorosa com o companheiro, o pintor Jochen Klein, que morreria na sequência de complicações colaterais à SIDA, em 1997, são de enorme expressão de amor e vulnerabilidade. Esta urgência vital percebe-se inclusivamente na recorrente opção por prender muitas das fotografias directamente com fita adesiva e grampos na parede, que questiona a sacralização da imagem e propõe uma relação mais imediata, menos hierárquica, entre a obra e o espectador.

Um dos aspectos mais radicalmente inovadores da obra de Tillmans é sua incursão na fotografia cameraless, ou seja, imagens produzidas sem o uso da câmera, através de manipulações químicas e ópticas directamente sobre o papel fotográfico. As magníficas séries Freischwimmer, Silver e Blushes são exemplos dessa vertente e vão ocupando, por vezes em pequenos conjuntos cromáticos, a espacialidade da sala. Mas há ainda flores, animais, paisagens, documentos, revistas — i-D Magazine, The Face, Spex, entre outras — e livros que publicaram imagens de Tillmans. A prática do artista com revistas não é apenas um veículo, mas uma parte essencial de sua estética e política, transformando o meio editorial numa forma de tornar a arte acessível, de inserir imagens críticas no quotidiano, assim como de politizar o acto de ver.

Tillmans é um activista e um defensor de causas. Há um canto que chama particularmente a nossa atenção pela apresentação de fotografias completamente negras, com o título: Memorial for the Victims of Organized Religions II (2024). A guerra, o totalitarismo e o genocídio são compilados no horror da imagem negra, que não se vê. A imagem mais brutal de finitude e de morte, que se destaca pela pausa silenciosa a que obriga na sua passagem. A obra de Wolfgang Tillmans configura uma relação de proximidade entre a vertente ética e a estética, recusando a separação entre arte e vida, entre forma e conteúdo, entre beleza e política. No final da exposição há um espaço com música e sofás de relaxamento. As pessoas estão deitadas e a iluminação baixa. Ao lado, um ecrã devolve-nos as ondas do mar e a beleza do mundo, numa redenção poética e catártica. O calor deixou, claro, há muito de incomodar. O dia parece que nasceu agora.

 

 

Wolfgang Tillmans
Centre Pompidou

 

 

 

Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia. 

 


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Wolfgang Tillmans: Rien ne nous y préparait − Tout nous y préparait. Vistas da exposição no Centre Pompidou, Paris, 2025. Fotos: © Jens Ziehe. Cortesia do artista e Centre Pompidou.

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