Isabel Cordovil: The Enigma of Arrival

A casa é uma prisão: Notas sobre The Enigma of Arrival de Isabel Cordovil
A primeira casa
No dia 25 de julho de 2016, durante a Convenção Democrática Nacional em preparação para as eleições americanas do ano seguinte, a primeira dama Michelle Obama, proferiu um discurso emotivo de apoio ao candidato a presidente, e falando da sua experiência pessoal disse: “Eu acordo todas as manhãs numa casa construída por escravos.” Os discursos da primeira dama eram cuidadosamente escritos por Sarah Hurwitz, uma advogada formada em Harvard, que foi também redatora de alguns discursos de Barack Obama. Em 2017, um outro presidente tomaria posse para mudar a forma como a política é feita em todo o Ocidente a partir da Casa Branca.
A residência oficial e o local de trabalho do Presidente dos Estados Unidos, a Casa Branca, foi projectada pelo arquiteto irlandês James Hoban em estilo neoclássico. Construída entre 1792 e 1800, as paredes exteriores são de arenito do Aquia Creek pintado de branco. Em 1814, durante a Guerra de 1812, a Casa Branca foi incendiada pelas forças britânicas durante o Incêndio de Washington, em retaliação pelos actos de destruição das tropas americanas no Canadá. Depois de várias remodelações, em 1948, o palácio presidencial tornou-se tão instável que o Presidente Harry Truman teve de sair do edifício, para voltar em 1952 quando a maior parte dos acabamentos interiores e estuque originais ficaram demasiado danificadas para serem reinstalados. Do edifício original ficaram apenas as paredes exteriores, e toda a estrutura interior do edifício foi substituída por vigas de metal.
A pedra usada no exterior da casa, o arenito, também chamado grés (ou grês), é uma rocha sedimentar que resulta da compactação e litificação de um material granular da dimensão das areias. Os arenitos são rochas silicosas sedimentares, constituídos por grãos de sílica ou quartzo, ligados por cimento silicoso, argiloso ou calcário. São empregados em revestimentos, resistindo bem aos ataques de agentes agressivos da atmosfera.
Jacqueline Kennedy, dirigiu uma extensa e histórica decoração da casa entre 1961 e 1962, onde foram escolhidos diferentes períodos do início da República e da história mundial como temas para cada sala. Numa visita televisiva à casa no Dia dos Namorados de 1962, Jacqueline Kennedy mostrou ao público a sua restauração da Casa Branca. A visita a este espaço foi reconstruída no filme Jackie, de 2016, realizado por Pablo Larraín e o papel da primeira dama interpretado por Natalie Portman.
A segunda casa
O Partenon é um dos mais icónicos edifícios da história da Antiguidade e da arte Ocidental, no seu estilo clássico da Grécia Antiga. O principal edifício da Acrópole de Atenas foi construído para ser o templo dedicado à deusa grega Atena, e é feito em mármore do Monte Pentélico. A antiga pedreira é protegida por lei do governo grego e usada exclusivamente para obter material para o projecto de restauração da Acrópole. O seu nome tem origem na palavra grega "παρθενών" (parthenon), e significa o "quarto da mulher solteira" numa casa. No Partenon parece referir-se a uma das salas do templo dedicada a Atena.
A Acrópole de Atenas foi um dos locais mais disputados ao longo dos séculos. Conquistada, reconstruída e vandalizada por vários impérios, foi local de culto religioso, de política e de cultura. O Partenon, como a maioria dos templos gregos, servia também como tesouraria da cidade. Era o símbolo do poder, protegido pela sua localização, mas exposto ao escrutínio de todos. Harpocration escreveu que algumas pessoas costumavam chamar ao Partenon de “Hekatompedos”, não devido ao seu tamanho, mas devido à sua beleza e proporções. A arqueóloga Joan Breton Connelly defendeu recentemente a coerência do programa escultural do Partenon em apresentar uma sucessão de narrativas genealógicas que rastreiam a identidade ateniense através das eras: desde o nascimento de Atena, por meio de batalhas cósmicas e épicas, até o grande evento final da Idade de Bronze ateniense, a guerra de Erecteu e Eumolpo. Connelly indica uma função pedagógica para a decoração esculpida do Partenon, que estabelece e perpetua o mito de fundação, a memória, os valores e a identidade ateniense.
Em 1204, os cruzados invadem Atenas e rebatizam o Partenon de Notre-Dame de Atenas, tornando-o um templo católico. No final do século XIX foi amplamente considerado pelos americanos e europeus como o pináculo da realização arquitetónica humana e tornou-se um destino muito popular. As ruínas da Acrópole de Atenas são um dos maiores exemplos da influência da Antiguidade Clássica, e o período da história cultural entre os séculos VIII a.C. e V d.C. centrado no mar Mediterrâneo, compreendendo as civilizações entrelaçadas da Grécia antiga e da Roma antiga conhecidas como o mundo greco-romano. É o período em que a sociedade grega e romana floresceu e exerceu grande influência em toda a Europa, norte de África e Ásia ocidental.
A terceira casa
O texto que acompanha a exposição The Enigma of Arrival, de Isabel Cordovil, na Galeria Pedro Cera em Lisboa, refere o diálogo de Timeu, escrito por Platão por volta de 360 a.C., e é por isso óbvia a relação à Antiguidade Clássica como uma referência particular do conjunto de obras nesta mostra. É curioso a artista ter utilizado um texto aparentemente denso e de carácter filosófico, mas que se revela na simplicidade do uso das palavras como matéria.
O diálogo de Timeu começa com uma distinção entre o mundo físico e o mundo eterno. O mundo físico é o mundo que muda e desaparece: é o objeto da sensação irracional. O mundo eterno não muda: por isso é apreendido pela razão. Neste texto, Platão utiliza a figura do demiurgo como responsável pela inteligência ordenadora do Universo. O demiurgo é "o que trabalha para o público, o artífice, o operário manual".
Platão era cético em relação à experiência sensorial, vendo-a como enganadora e não confiável para obter o verdadeiro conhecimento. Em contraste, Aristóteles, o seu discípulo que o confrontou com uma visão diferente do mundo, via os sentidos como cruciais para entender a realidade, argumentando que o conhecimento começa com a percepção sensorial, que forma a base para a investigação intelectual. Platão pretende dar um corpo ao pensamento pela forma como molda as ideias em palavras, mais abstrato e idealista, enfatizando o reino das formas e as limitações da experiência sensorial. A filosofia de Aristóteles é mais empírica e prática, focando-se no mundo natural e na importância da observação. Ele acreditava que a essência de um objeto (a sua forma) poderia ser entendida estudando o próprio objeto.
Na exposição The Enigma of Arrival, Isabel Cordovil utiliza elementos da Antiguidade Clássica na construção de algumas das suas obras. São disso exemplos o capitel coríntio na escultura “Stadium fever” (2025); a impressão em negativo de colunas clássicas sobre uma parede da galeria na obra Ontem não te vi em Babilónia (2025); mas também as esculturas Aller e Retour (ambas de 2025) onde se veem bases de plintos que lembram um entablamento clássico. As referências ao classicismo nestas obras são a tentativa de se apropriarem de uma narrativa histórica que trata o tempo como o escultor por excelência. Há um programa que aqui se apoia para abordar o tema mais importante neste conjunto de obras: o tempo. O uso de formas clássicas reconhecidas, juntamente com o diálogo de Timeu, dão às obras uma gravidade, um peso e uma seriedade, que parecem trazer consigo muitas camadas de história.
A obra que empresta o título à exposição, The Enigma of Arrival, faz lembrar uma maquete de um edifício ou de um templo, com uma escadaria solene. No topo das escadas vemos uma caixa de música, uma escultura em miniatura, que toca uma peça da compositora romântica Joana Benedita de Faria Pinho, colocando-nos num momento único de intimidade e proximidade à obra. Ao ser tocada, a caixa de música produz um efeito real em toda a exposição ao desligar a iluminação “geral” da galeria, activando a luz presente em algumas das obras. Este acontecimento faz com que a exposição possa ser vista com uma tonalidade mais “diurna” e outra mais “nocturna”.
A cenografia que a artista decidiu criar para as esculturas faz pensar na galeria como uma casa, como se as obras sempre tivessem pertencido àquele lugar. A relação com o espaço da casa e os objectos que a ocupam está presente em toda a exposição. Do exterior da galeria vemos parte da obra Incoming, homecoming, 2025, uma caixa do correio e envelopes feitos de latão sem inscrições, sem remetente ou destinatário, como se as palavras ficassem fora da experiência. Outras obras usam a figuração humana, a escultura First things first, 2025, apresenta o torso de uma mulher que nos recebe logo à entrada. Encontramos depois fragmentos do corpo humano em outras obras: ossos de esqueleto, máscaras, ou uma cama/ maca com lençóis revoltos e um “compact disc” para ouvir música (Fantasy rider, 2025).
O corpo do espectador é requisitado pela diferença de escala das obras, tornando-se inevitável uma sensação de alteridade e empatia, como se as habitássemos e nelas existíssemos por momentos. A exposição consegue fazer uma coisa rara: criar uma ilusão da suspensão do tempo. Ainda que a presença da própria artista esteja por todo o lado, ao visitar a exposição somos espectadores activos. As obras, verdadeiros contentores de sentido, obrigam-nos a imaginar um conjunto de experiências e vivências.
A paleta de cores usada pela artista leva-nos ao essencial, ao sem artifício, como se a forma e a sua presença fossem constantes, sem interrupções. Pensamos na produção de objectos industriais na viragem do século XIX para o século XX antes da massificação do uso da cor que compartimentou toda a produção, e dessa forma expandiu as possibilidades de mercado. Os objectos que eram produzidos antes da industrialização tinham uma forma que não se afastava muito da sua utilidade; a sua subjectividade normativa antecede um mundo capitalista que foi inundado por objectos e pelas suas ideias.
A filosofia ocidental, que é parte da cultura onde operamos, está assente em pilares de uma casa em constante colapso e que precisamos manter. As dicotomias que formam a base do pensamento ocidental são uma forma de binarismo que contrapõem o bem e o mal, colocando-os em lados opostos, como se se tratasse de uma luta. A luta faz parte de uma narrativa que divide o mundo entre luz e sombra, e que expulsa possíveis matizes. As casas da democracia estão em decadência por verem os seus valores colocados em causa de forma irracional, motivados por interesses individuais e não colectivos. Se analisarmos concretamente os pilares da Casa Branca percebemos a diferença entre estes e os pilares do Partenon. Tijolo ou mármore, estrutura de metal ou parede de pladur, a construção tem-se tornado cada vez mais leve, de consumo fácil e rápida execução.
A casa é a prisão do belo. Poderíamos dizê-lo de outra forma: o belo é a prisão da casa. Ou talvez de muitas outras formas. Aceitar a complexidade dos discursos e a proliferação dos conceitos de beleza, é uma estratégia de sobrevivência ao convencional. A estética, foi substituída por várias formas do sensível. O neoconservadorismo da política que se observa no mundo ocidental cola à figura do autor, do artista, a figura do empreendedor, a idealização do herói que luta contra tudo e todos, que esquece que vem de uma comunidade e de um colectivo, e que é parte de uma família expandida que o criou. Isso aplica-se a todos os indivíduos. O sistema em que vivemos, que tem a sua origem na Antiguidade Clássica, continua obcecado pelo sucesso e pela tragédia. A beleza justifica a violência, como a facada nas costas do imperador, na escadaria de acesso ao senado, ao templo, ao tribunal, ao parlamento, onde todos aguardam a sua aclamação ou a sua morte.
Pedro Barateiro (n. 1979, Almada, Portugal) realizou exposições individuais no Kunsthalle Münster, CIAJG, CRAC Alsace, Fundação Carmona e Costa, Rialto6, P/////AKT, Basement Roma, REDCAT, Museu Coleção Berardo, Kunsthalle Basel, Kunsthalle Lissabon, Lumiar Cité, MARCO Vigo, Museu de Serralves, entre muitos outros. Participou em exposições coletivas como a Vilnius Biennial of Performance Art 2023, 13ª Bienal de Sharjah, 20ª SESC - Videobrasil, 11ª Bienal de la Havana, 29ª Bienal de São Paulo, 16ª Bienal de Sydney e 5ª Bienal de Berlim. As suas performances têm sido apresentadas em várias instituições como Centre Pompidou, ENSBA, Théâtre de la Ville de Paris e Fondation Ricard, Cinema Batalha, Teatro Rivoli, TDMII, Teatro Praga e Teatro São Luiz, entre outros. Editou vários livros, incluindo a monografia How to Make a Mask, (Kunsthalle Lissabon/ Sternberg Press), The Artist as Spectator e É só uma ferida (Documenta/ Mousse Publishing).
Barateiro organiza eventos e exposições na Spirit Shop. Em 2020, Juntamente com um grupo de artistas, iniciou a primeira associação de artistas visuais em Portugal: AAVP.
Isabel Cordovil: The Enigma of Arrival. Vistas gerais da exposição na Galeria Pedro Cera, Lisboa, 2025. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Galeria Pedro Cera.
