Henrique Pavão: Ghost Ranch

Elegia do lugar
A nostalgia reflexiva, que aceita a irreversibilidade da perda e explora a experiência da memória e da ausência, é tema da mais recente exposição do artista Henrique Pavão (1991), no Rialto 6. Um ensaio poético e sensível sobre a experiência afetiva do lugar, a perda e uma possível redenção, Ghost Ranch convoca referências do cinema western, da história da arte contemporânea, da música experimental e do folk melancólico para construir uma narrativa íntima, e simultaneamente aberta. Nesse sentido, evoca figuras como Edward Abbey, Georgia O’Keeffe ou Michael Heizer, assim como Nick Drake e a sua reclusão silenciosa, para refletir sobre o poder transformador que existe no isolamento e na solidão, enquanto elemento catalisador e premissa do processo criativo. Assim, durante a preparação do trabalho que agora apresenta, e enquanto homenagem à paisagem, o artista viveu seis meses isolado numa casa de taipa no Alentejo. É neste lugar árido e de recolhimento que encontra o corpo de um boi que o calor e o ar seco matou, e é a partir desta imagem de perda e ruína que este projeto nasce.
Ao entrarmos no espaço expositivo, somos imediatamente convocados pelo som que inunda o ambiente. Um lamento ou um choro que parece emergir do interior da terra conduz-nos à escuridão. No entanto, ainda antes de o alcançarmos, surge uma vitrine iluminada no chão, sobre a qual teremos inevitavelmente de passar. Esta vitrine abriga os ossos do esqueleto do boi, agora transpostos para terracota, do mesmo solo terroso onde foi encontrado e o qual materializa também a casa que Pavão habitava. Formalmente, as esculturas são o elo físico e simbólico entre o corpo desaparecido e o território afetivo. A morte não é definitiva, a destruição inicial é acompanhada de um gesto de restituição: os ossos renascem moldados com a mesma terra que os engoliu, incorporando uma dimensão simbólica de devolução e de redenção. A paisagem, que outrora matou torna-se, pela mão do artista, matéria de ressurreição — uma tentativa de reconciliação entre memória, perda e continuidade. Já a vitrine, objeto que existe com a função de proteger tudo aquilo que é precioso, adquire uma dimensão mística de artefacto ou de relicário.
Ao percorrermos o caminho descendente, afundamo-nos sob as ruínas, como quem visita o interior de um túmulo e essa inversão do olhar é decisiva: o corpo é visto de baixo, num confronto sereno com a morte, como se estivéssemos enterrados com ele.
É nesta segunda sala que chegamos à fonte sonora, a paisagem ativada por uma guitarra elétrica Fender Jazzmaster afinada em Ré menor aberto. Esta afinação, considerada a mais triste do vocabulário musical do ocidente e amplamente usada em obras fúnebres, elegíacas ou nostálgicas, blues e country, revela igualmente a natureza romântica que carateriza a obra de Pavão, inserindo este artista na esfera do conceptualismo romântico.
A música, existencialmente próxima da morte, é feita do que escapa, do que não se fixa, do que vive apenas na duração. É a linguagem do indizível e da emoção pura, que tem o poder intrínseco de reanimar recordações. Neste sentido, e ao contrário dos planos estáticos da paisagem desértica do cinema western, o som de Ghost Ranch é resultado do movimento que anima a própria paisagem, a deslocação do mesmo ar seco que matou o boi, as folhas e os insetos que pousam nas cordas da guitarra. O som é a revelação amorosa do lugar, um gesto performativo em que a guitarra, enquanto medium atmosférico, é entregue aos elementos que se tornam simultaneamente instrumento e intérprete. Não sendo tocada por mãos humanas, a tradução do vento em som, imprevisível e melancólico, gera uma paisagem sonora misteriosa e fantasmagórica.
Ainda na montra que se encontra no exterior do espaço expositivo, surge suspensa a segunda obra da exposição, Bull Guitar Drag (after Christian Marclay). À semelhança do vídeo Guitar Drag, em que Marclay arrasta uma guitarra amplificada pelo alcatrão do Texas, conduzida por uma pick-up, Pavão recria esta ação na paisagem desértica do Alentejo. Um boi castanho de 600kg arrasta a guitarra pelo campo, no entanto este gesto brutal não é documentado, é salvo por dez segundos de som. A esta inversão de papéis, em que o animal é o performer e o humano espectador impotente, o artista abdica inevitavelmente do controlo, e a criação surge do imprevisto. Neste espaço vemos o resultado da destruição, o objeto-relíquia e o vestígio de um ato falhado e de uma ação agora invisível. Assim sendo, o boi emerge como figura mitológica, conjuntamente agente e alegoria, e o artista reconhece a derrota, o animal torna-se o músico ideal, encarnando uma liberdade que o humano apenas consegue imaginar.
Ghost Ranch é assim uma elegia à fatalidade de uma paisagem em desaparecimento, a um tempo mais lento de decomposição e ressurgimento. A transmutação que afirma uma melancolia que é ativada pela consciência do tempo finito, da erosão do lugar e da sua despedida. Ghost Ranch propõe um duelo silencioso entre o que morre e o que persiste. Um mapa íntimo e um tributo votivo pessoal à paisagem, ao tempo e à memória. Neste espaço límbico e ambivalente, de ausência e vestígio, o som velado que ecoa não fixa a memória como uma fotografia, mas reencena-a como ativador do lugar. Tudo aquilo que valorizamos profundamente existe ancorado a experiências intrinsecamente pessoais e, em certo sentido, sempre solitárias — “estamos sós com tudo aquilo que amamos”[1].
Carolina Quintela (1991), curadora. É licenciada e mestre em Escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, e pós-graduada em Curadoria e Programação das Artes pela Universidade Católica Portuguesa. Desde 2015 que se dedica ao desenvolvimento de projetos curatoriais, investigação e produção de textos. É Curadora e Investigadora do MACAM: Museu de Arte Contemporânea Armando Martins.
Henrique Pavão: Ghost Ranch. Vistas da exposição no Rialto6, Lisboa, 2025. Fotos: Bruno Lopes, excepto a última: Vasco Stocker Vilhena.
Nota:
[1] Hinos à noite, Friedrich Novalis.
