Fernando Marques Penteado: Rascunhos Teimosos ___ Ficções Ardentes
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São longuíssimas as horas que os dedos do artista demoram no vaivém dos encontros entre linha, tela e agulha — diz-me, quando sentamos para conversar no sofá, um objeto que nunca teve em casa, mas que agora repousa na galeria do museu. Tão longas que, para frear o vórtice que o tempo perfaz no gênero repetitivo de tarefa que é o bordado, vê-se a inventar os capítulos das vidas de suas personagens, em parte nascidas por influência dos romances policiais que costuma ler ao se deitar. Da casa que teve, desfez-se de tudo — inclusive da antiga biblioteca — para ir à Inglaterra estudar. Voltou a adquirir livros somente para acalmar a hora antes de dormir. As páginas dos romances acompanham o descanso do corpo e das mãos, no sono que restaura o espírito para o dia seguinte de trabalho, que será, por sua vez, passado em companhia da rádio belga que ecoa canções clássicas. São longuíssimas as horas que passa em seu ateliê, em Bruxelas — o bordado, mesmo quando utilizado um ponto único, é um ofício lento. Foi aprendido dentro de uma instituição carcerária, como um caminho para aproximar-se dos homens que lhe interessavam. Era um expediente coletivo e ao mesmo tempo uma maneira de construir, na distração que os fazeres manuais costumam propiciar ao pudor das palavras, uma relação de confiança e intimidade. Na roda de homens internos, passavam-se horas dedicadas a um ofício historicamente feminilizado e reservado a uma educação doméstica classista1 — mas era através dele que se construíam vínculos emocionais e de amizade, e que desenhos ganhavam nova vida na viçosidade das linhas. A ondulação dos dedos atravessando o pano com a agulha é um movimento que permaneceu contínuo na prática do artista — mesmo depois de encerrados os projetos dentro dos estabelecimentos carcerários —, o que fez nascer, pouco a pouco, as figuras que habitam o seu imaginário. Os retratos das personagens e os petiscos servidos nos jantares que frequentam, o congelamento no tempo de uma passagem bíblica, um ato sexual entre dois homens, uma assemblage feita a partir de objetos-memória, ou paisagens montanhosas… O biográfico sublimado em uma relação de amor com a ficção, ambos adornados com todo o exagero romântico que o artista reivindica através de uma estética que dispensa a legitimação institucional da Arte escrita em letra maiúscula. Nas paredes do museu, que estão pintadas como o interior de uma casa, primeiro é dado a saber a “estória” de Xavier — que um dia acordou e estava “sozinho em uma casa modesta com uma mãe metódica, um pai introspectivo, e ninguém mais”2 —, e a seguir surgem dois retratos fixos às estruturas de antigas raquetes de tênis — um deles poderia perfeitamente pertencer-lhe. Na galeria ao lado, a mesa está do mesmo jeito que foi deixada quando os amigos saíram do recinto — o cinzeiro cheio de bitucas de cigarro repousa ao lado de um isqueiro amarelo estampado com a frase “I ♡ Porto”, as anotações feitas em um pequeno caderno de bolso descansam ao lado da caneta, o casaco esquecido permanece sobre o encosto da cadeira. São ausências que anunciam um possível retorno iminente; ou vestígios de uma tarde passada entre Diego Jose, homem com a curiosa profissão de “editor de diálogos”, e Rafael Arenas Amoros, herdeiro de uma loja de bricolagem onde à noite promove palestras sobre arte e cultura3. Em qualquer uma das hipóteses, adentrar esse espaço é como dar um mergulho profundo na intimidade de outrem, familiarizando-se repentina e imediatamente com o incógnito. Alguns talvez chamassem a isso uncanny — um recurso à teoria psicanalítica para tentar racionalizar tal experiência. O artista, contudo, utilizou outra palavra, wonder — embora talvez sirva de sinônimo, uma vez que também alude àquilo que não é familiar. Ao maravilhamento, ou à perplexidade de estar imerso em um desconhecido demasiado conhecido — uncanny, afterall. Na dinâmica estabelecida entre as memórias sociabilizadas mais recônditas e aquilo que jamais seria expectável (dentro do cânone da arte ocidental, pelo menos), se extrai a força singular do seu trabalho. As mantas de crochê que por décadas recobriam os móveis nas casas de nossas avós; os pequeninos quadros de pontocruz que eram oferecidos aos recém-nascidos e pendurados sobre os seus berços; os ex-votos ofertados sempre que fosse necessário pedir proteção ou a cura de alguma mazela; as coleções de enciclopédias ilustradas que eram mantidas em casa e consultadas sempre que o desejo de conhecer um pouco sobre o mundo despontava; os bibelôs de porcelana adormecidos nas prateleiras resguardadas por vitrines de vidro; ou as lembranças infames legadas ao esquecimento proposital da vergonha, como a vez que achamos revistas pornográficas embaixo da cama de um familiar mais velho — a partir dessas, e de uma vasta coleção de memórias, é nutrido o substrato do familiar. Do que as gerações e geografias mais distantes possuem como traço compartilhado. Do que, de tão banal, só pode ser enxergado quando descontextualizado ou exacerbado. O trivial tornado totem, o vulgar romantizado — o contínuo exercício estético de afirmação do encantamento implícito no prosaico. Mas é indispensável não ir ao engano; não se trata de arte naïf, cada escolha tem consciência da sua profunda implicação política. O artista se apropria das estéticas marginalizadas porque também a elas pertence — e o desconcerto só não é aliado da familiaridade para quem não consegue falar a mesma língua que a sua. Àqueles que, afortunados, conseguem, o artista oferece um mundo habitado por afetos singelos.
Fernando Marques Penteado
Culturgest
Paula Ferreira é escritora, fotógrafa e pesquisadora independente. Nascida em São Paulo, atualmente vive em Lisboa. É pós-graduada em Fotografia pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e em Estética pela FCSH NOVA. É fundadora de Aos Cuidados, projeto que abrange publicações impressas, exposições e workshops dentro de temáticas relacionadas ao acesso à saúde e aos direitos aos cuidados, sempre por uma perspectiva feminista, interseccional e transdisciplinar. Em 2023, realizou a curadoria da exposição Bandeira Branca, na Galeria Irmã Feia, e o ciclo de cinema Escrever a Liberdade, no Museu do Aljube. Foi assistente curadora na Anozero: Bienal de Coimbra, edição de 2024.
Este texto foi escrito em português do Brasil.
Fernando Marques Penteado: Rascunhos Teimosos___Ficções Ardentes. Vistas da exposição na Culturgest, Lisboa 2025. Fotos: António Jorge Silva. Cortesia do artista e Culturgest.
Notas:
1 PARKER, Rozsika. The Subversive Stitch: Embroidery and the Making of the Feminine. London: Women’s Press, 1984. ISBN 0704338831 / 9780704338838. Disponível em: archive.org/details/subversivestitch00park.
2, 3 Folha de Sala Rascunhos Teimosos ___ Ficções Ardentes de Fernando Marques Penteado, Culturgest Lisboa, 2025.

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