Ed. 11 / 2018
5 / 16

Andreia Santana: The outcast manufacturers

8046.jpg
José Marmeleira

Andreia Santana (Lisboa, 1991) estabelece uma relação com o tempo dos objectos, com o mundo das coisas entendida na sua dimensão temporal e cultural. Com os objectos que são preexistentes ao seu fazer e com os objectos que ela própria faz, dando-lhes forma e existência. Parafraseando David Silva Revés no livro História da Falta, Andreia Santana pensa a origem, a transformação e a ruína dos objectos. Repita-se: o seu tempo. O modo como nos relacionamos com eles, assegurando-lhe uma permanência incerta (no museu, no arquivo) ou esquecendo-os, relegando-os para a obscuridade do olvido. Objectos que podem ser de uso, de culto, artísticos, ferramentas, instrumentos. Ou apenas fragmentos de objectos que, na sua modéstia, podem dizer-nos algo do que o mundo foi ou ainda é.

Será redundante afirmar que Andreia Santana não concebe a história dos objectos (portanto, o conjunto das suas histórias) como uma arqueóloga, que não pretende conhecer ou classificar as coisas. Mas frise-se: o arquivo, no interior do seu trabalho, consiste, sobretudo, num repertório de materiais, ideias, formas, contornos, imagens que transcendem qualquer função epistemológica. O desejo de lhes trazer visibilidade — uma visibilidade que é assegurada pela arte — não se confunde com os protocolos do trabalho científico.

Na exposição, História da Falta, realizada no Museu de Serralves em 2017, a artista lidava com estruturas em chapa de ferro, restos da produção industrial, materiais ou objectos usados na fabricação de ferramentas. Marcas e ruínas de uma fabricação historicamente situada que ainda é, e certa medida, a nossa. Em The Outcast Manufacturers, patente na Galeria Filomena Soares, recua a um tempo ou tempos pré-industriais. Na sequência de uma residência no Peabody Museum, na Universidade de Harvard, em Massachusetts (EUA), estudou e pesquisou objectos encontrados em  escavações arqueológicas, nunca equiparados ao estatuto museológico de artefacto,  e compilados pelo arquivista e investigador William Corliss.

Estes objectos quasi-artefactos que só parcialmente existem, dado que não têm visibilidade pública: estão afastados do “público”, da luz do museu. Permanecem misteriosos, de espaço e tempo incertos, não totalmente identificados. Ou embora, historicamente situados (nas culturas pré-colombianas, por exemplo), carecem de pistas que os arrumem, que os tornem, pelos critérios das ciências históricas e sociais, suficientemente representativos. O que representam? O que nos dizem? A resposta é incompleta, reticente, quando não muda. São, podem ser enigmas.

Mas a arqueologia de Andreia Santana fala, pois é transfiguradora. Sugere uma correspondência ou reciprocidade, instável, indefinida, entre as formas desses objectos, os seus contornos, desenhos, inscrições e as obras que apresenta na galeria: desenhos, esculturas. 

Há um espanto admirado, permitido pelo olhar da descoberta, e um outro, decisivo e duplo: o de imaginação reprodutiva e produtiva que guia o seu fazer.

As obras não são meros duplos ou negativos, mas outros objectos, que existem no espaço da galeria, produzidos pela artista, no desenho sobre grandes superfícies, na manipulação dos instrumentos, no moldar do ferro.

Saímos do arquivo e dessa arqueologia, para o lugar das obras no espaço da galeria. O ferro é o material, ou melhor, a matéria da qual e com a qual Andreia Santa desenha, esculpe, faz. Nas paredes, o desenho sai da tela, é da tela. Ou, melhor a tela é também desenho e o ferro torna-se desenho no cubo branco. O seu fundo originário contempla as formas ou superfícies desses objectos encontrados quando em residência, aquilo que a artista viu; já aquilo que Andreia Santana materializou, são raios, linhas, ziguezagues, vértices. Pensa-se em algumas obras de Fernando Lanhas ou, em termos visuais, nas rupturas do Vorticismo que Wyndham Lewis exaltou entre 1914 e 1917 em Inglaterra. Mas a sensação de movimento está suspensa, não há violência ou referência a qualquer tipo de choque: os desenhos não representam, nem dizem nada para além das suas linhas. No máximo, revelam uma emanação difusa, inacessível como o título, Afasia, parece significar: linhas de sombras sob o peso delicado do ferro. No chão, a série de esculturas Agnosia (reminiscentes de seixos) sugerem uma quase funcionalidade, dir-se-ia mesmo, um cariz decorativo, mas não há reconhecimento: biomórficas, furtam-se a um sentido ou um contexto unívoco. Como também o fazem as esculturas Ouroboros, nas quais se divisam frisos, e que, embora imóveis, ameaçam mover-se, rolar no chão, se tocadas.

Na primeira sala da galeria, aparecem outros desenhos, revelando o gesto da artista, expresso num traço rápido, fino e preciso, que afirma um dos aspectos mais signficativos do seu trabalho: o modo como poetiza, torna sensível, a dimensão mais conceptual e teórica das suas pesquisas. São esculturas-desenhos que se estendem, que crescem verticalmente do chão. De uma escala humana, não escondem o seu carácter gráfico, mas nelas (como nas outras peças) persiste algo de indiscernível, de profundamente elusivo, frágil. No ar, aparentam uma leveza, como se fossem desenhos de fumo, arabescos, motivos botânicos, desenhos, doodles. Vistas de uma perspectiva, reduzidas a uma só linha ou ponto, quase que desaparecem, para, de outro lugar no espaço, reaparecem como desenhos de chamas apagadas. Sempre no limiar de um desvanecimento, de uma invisibilidade que a materialidade do ferro, a sua durabilidade, contraria, se não nega. Nesse momento, não nos falam de outros objectos, se não deles mesmos, da sua pura presença ali, irredutível a qualquer arqueologia.

Andreia Santana

Galeria Filomena Soares

José Marmeleira Jornalista e crítico nas áreas da música pop e da arte contemporânea. Colabora no jornal Público e na revista Time Out Lisboa. Lecciona Fundamentos do Jornalismo na Universidade Europeia e está a realizar o doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais (ICS-UNL). 

 

01 (2)
8030
8033
8047
8029
8045
00
8048
8026
8027
8035
8037
8043
8041
8038

Andreia Santana. The outcast manufacturers. Vistas da exposição na Galeria Filomena Soares. Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares. 

Voltar ao topo