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Tamara MacArthur: Wished On the Moon For More than I Ever Knew

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Marta Espiridião

Wished On The Moon For More Than I Ever Knew

ou

E se a fantasia, afinal, fosse só desejo?

[A ficção] é uma forma de tentar descrever o que de facto está a acontecer, o que as pessoas realmente fazem e sentem, como as pessoas se relacionam com tudo o que existe neste vasto saco, nesta barriga do universo, neste útero das coisas que serão e neste túmulo das coisas que foram, esta história sem fim. […] Ainda há sementes para serem colhidas e espaço no saco das estrelas.

Ursula K. Le Guin, A ficção como Cesta: Uma Teoria

 

 

 

 

 

Foi um bom dia: depois de tratar das coisas que tinha a fazer, passei uma hora no jardim a ler ao sol. De seguida, pus-me a caminho da Kunsthalle Lissabon — a pé, já que a meteorologia o permitia —, e lá apareci às 18h02. Logo cumprimentei os presentes, que me disseram que tinha sido a primeira a chegar. Andava atenta às redes sociais da instituição, bem como às dos meus amigues que nela trabalham, e sabia que esta ocasião ia ser especial — algo a que gostaria particularmente de ir sozinha. Também me tinham dito que ia haver uma performance, e que esta apenas iria acontecer no dia da inauguração. Agradou-me ter sido a primeira, assim como me agradou estar sozinha — por vezes, estarmos sozinhes, sem a proteção da proximidade daqueles a quem amamos ou de cuja companhia gostamos, é a melhor forma de sermos vulneráveis a um desconhecido fantástico.

Entrar na instalação Wished On The Moon For More Than I Ever Knew, de Tamara MacArthur, foi como entrar num sonho. Diante de mim, desvelava-se um ambiente de uma construção minuciosa, com montanhas apaineladas que davam lugar a uma pequena ponte sobre um rio aparentemente invisível — ali estava eu, sob o signo de inúmeras estrelas, imersa no som do teremim e do espaço sideral. No final deste caminho mágico, um pequeno lago albergava uma estrela caída com uma cara humana que me fitava e sorria. Aí, as montanhas transformavam-se em pequenos penhascos, onde me sentei, sozinha com a estrela. Enquanto ali estive, os seus olhos e boca não pararam de sorrir para mim; mirando em redor, procurei evitar-lhe o olhar — ali estava o meu corpo, rodeado por montanhas de papel, sob uma dispersão de estrelas encerradas numa ténue abóbada de um azul profundo. Pendurada sobre a estrela caída, uma lua tímida revelava-se lembrança do céu e do lar. Será que a estrela pede desejos à lua? Poderei eu fazê-lo? Talvez eu própria, ao começar a ouvir vozes a descer as escadas e ao perceber que chegara a hora de as subir, desejasse que estes minutos tivessem durado um pouco mais. Depois, agradeci à estrela, assim como agradeci a Tamara, por este momento.

 

 

A obra de Tamara MacArthur, e em particular Wishing on the Moon, é algo que me transporta para outra dimensão: para um mundo de sonhos que a Marta da minha infância não encontrava senão em livros de fantasia. O jogo que MacArthur promove com a construção cenográfica permite-nos mergulhar nos mundos por si criados, o que potencia excecionalmente a relação do corpo com a obra [e o momento em que a habitamos]. Mas os mundos que Tamara constrói têm uma qualidade mais do que material: é como se estas sensibilidades, estes sorrisos e estas lágrimas fossem a cola que tudo junta, que tudo mantém vivo. Na Kunsthalle, MacArthur constrói um mundo de montanhas, papel, estrelas e glitter, mas também de melancolia, de ânsia, de sonho: o sentimento de insignificância quando olhamos um céu noturno estrelado, o movimento corporal do nosso peito quando olhamos para uma lua luminosa — todos estes sentimentos e sensações em turbilhão numa sala tão exígua. Acredito que a arte se trata em grande medida de afetos, das dores e alegrias de se estar vivo, de se ser um corpo num mundo; e, nos trabalhos de MacArthur, encontro lugares onde se pode ser sensível, onde se pode ser vulnerável — encontro uma arte que é emoção, ou até, porventura, uma emoção que é arte.

Ao sair da Kunsthalle, fiquei com a sensação de que ali deixava algo de mim, mas também que trazia comigo algo muito maior. Os dias iam passando, e eu dava por mim a sonhar acordada com a instalação, a pensar sobre as singularidades e sensibilidades daquele lugar mágico; e assim o carreguei em mim durante mais um bocadinho. Remetendo para contos infantis, para canções pop e para a nossa relação com o mundo natural, a [verdadeira] fantasia de MacArthur reporta-se à intimidade, à proximidade e à compreensão. Ao construir estes mundos, Tamara está efetivamente a materializar paisagens e territórios oníricos nos quais, através da performance, não só realiza esta fantasia como também espera pacientemente para nos dar tudo, lançando-nos delicada e atenciosamente um convite para devolvermos tanto quanto queiramos. As suas performances, com horas de duração, estão carregadas de emoção e intensidade: nelas, torna-se impossível não sentir.

Tendo a fantasia como motor da sua obra, MacArthur elabora espaços nos quais explora a sua vulnerabilidade, almejando uma interação entre a sua sensibilidade e as dos visitantes num ecossistema partilhado de sentimento e consciência em permanente expansão e mutação.

Tamara sabe que não pode pedir vulnerabilidade sem a mostrar primeiro, e é por isso que se espoja nos seus sentimentos, construindo, a partir das suas emoções, estes espaços ao seu redor, em preparação para o dia em que tudo se dá. Recolhendo energias, trocas, afetos, MacArthur traz tudo à superfície quando chega a hora da performance — quando chega o verdadeiro momento da vulnerabilidade. A intensidade quase poderia ser catártica — como se de repente um dilúvio nos surpreendesse —, não fosse a vulnerabilidade, em si, o lugar da reciprocidade: Tamara deita-se diante de nós, na profundidade dos seus próprios sentimentos, libertando e, ao mesmo tempo, absorvendo os nossos, como uma esponja com olhos brilhantes.

Neste ciclo, os nossos próprios corpos alimentam o ato performativo, o que, por um lado, nos torna parte fundamental do acontecimento e, por outro, também nos permite manter a nossa identidade; diria eu, porventura, que até nos convida a partilhar a nossa própria identidade. É exatamente isto que significa cuidar: permitir-nos e aos outros um sentimento de vulnerabilidade, mas dentro de limites acordados em conjunto.

 

Estas paisagens oníricas persistem após a performance; no entanto, porque construídas a partir da matéria instável de que são feitos os sentimentos, revelam-se [ou aproximam-se singularmente de] uma reflexão real de um mundo interior — as suas vidas confinam-se ao espaço e tempo em que existem. O propósito delas é estarem ali, no seu agora; é serem construídas pelas mãos que criam e por aquelas que ajudam; é juntarem-se a camadas e camadas de sensibilidade e interproximidade. No fim da exposição, tudo isto vai ser desmontado, camada por camada, e deixar de existir, como uma emoção frugal e efervescente que nos apanha de surpresa para logo desaparecer numa questão de segundos. E, à semelhança de um sentimento, ou de uma estrela cadente, não importa quanto queiramos que permaneça: já se foi — esvanecente, em mutação, cada experiência sempre diferente, tal como nós.

Às vezes, a arte é desejar.

 

 

 

 

 

 

 

Tamara MacArthur

 

 

Kunsthalle Lissabon

 

 

 

 

Marta Espiridião, Curadora e investigadora independente, é actualmente estudante de doutoramento no Transart Institute com o projecto de investigação "Feminist Killjoys: New Embodiments in Moving Image", no qual se estabelece uma relação directa entre a democratização das artes e a acessibilidade aos dispositivos de produção artística e o advento global do cinema no século XX, o que tornou estas tecnologias acessíveis às mulheres, aos corpos queer e racializados, ao mesmo tempo que as questões de género, sexualidade e hegemonia racial começaram a tornar-se visíveis. 

Nos últimos anos curou várias exposições e eventos, como a exposição colectiva e o programa público "Erro 417": Expectation Failed" (2021-2), projecto vencedor do concurso curatorial "Expo'98 no Porto", Galeria Municipal do Porto; "Sonic Materialities" (2020), um programa de envolvimento e exposição de Andreia Santana, financiado pelo Criatório; e criou vários projectos curatoriais independentes, dos quais se destaca "Corpos no Espaço - arquivo crítico de experiências não-normativas da cidade" (Lisboa), um espaço crítico para repensar o lugar dos corpos não-normativos dentro das paisagens urbanas, como se relacionam com o ambiente comum, e de que forma a cidade exerce violência discriminatória sobre identidades e corpos.

 

 

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Tamara MacArthur, Wished On the Moon For More than I Knew. Vistas de Exposição. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia da Artista e Kunsthalle Lissabon.

 

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