Ed. 09 / 2018
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Um crime que urge reparar

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Samuel Silva

A história de um friso em calcário brando da Batalha

A palavra reparar que encontramos no título da exposição de João Penalva no hall da Culturgest do Porto — Um crime que urge reparar —  introduz-nos, por si só, a uma polissemia: em primeiro lugar, a uma certa ideia de desaceleração — parar e reparar; por outro lado, a um sentido de uma visão segunda, mais minuciosa e perscrutadora; e ainda, a uma noção de resgate ou justiça. É nesta toada semântica, proposta pelo título, que somos convidados a entrar na mais recente operação que Penalva preparou para o famoso octógono que o arquitecto Porfírio Pardal Monteiro desenhou, no final dos anos vinte do século passado, para a sede da Caixa Geral de Depósitos (CGD) do Porto.

À semelhança de projectos anteriores como Arquivos e Café (1993), realizados por ocasião das II Jornadas de Arte Contemporânea do Porto, Penalva insiste num cuidado espaço cénico composto por um conjunto de elementos expositivos que partem da especificidade e da história do próprio lugar. Porém, desta vez, o enredo permanece do princípio ao fim de mãos dadas com a factualidade dos artefactos apresentados restando muito pouco espaço para a incerteza, característica decisiva na experiência das suas instalações de 1993. No ambiente desenhado para o espaço da Culturgest, João Penalva reconstrói a história do desmantelamento de quatro frisos decorativos em Pedra de Ançã (de baixo e médio relevo) encomendados por Pardal Monteiro aos escultores Henrique Moreira, António Costa, Anjos Teixeira e Alexandre Silva. Uma peça escultórica inspirada em temas quotidianos da actividade humana, desde referências alegóricas aos ofícios populares a representações das artes tradicionais e eruditas, todo um simbolismo vinculado à cultura republicana predominante na década de 20, do século passado.

Segundo a instituição bancária em causa, a feroz evolução do mercado obrigou a sucessivas adaptações do espaço arquitectónico sendo a mais violenta realizada em 1953, onde foram retirados, para além dos frisos, os balcões originais, as paredes divisórias entre outras alterações. No encalço da história deste desmantelamento, João Penalva depara-se com uma peculiar carta redigida nos anos 1980 pelo então Professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Bernardo Xavier Coutinho. Este, movido pelo desejo de denúncia da delapidação do património público, endereçou ao director da CGD do Porto um pequeno relatório intitulado “Um crime que urge reparar”. Neste documento, profusamente ilustrado por fotografias, Xavier Coutinho lamenta a “destruição do friso à martelada” reivindicando junto do director a sua reconstituição com intuito de oferecer um “serviço inestimável à cultura e à arte do nosso tempo”. Num certo sentido, João Penalva alinha a sua intervenção com os desígnios da carta de Xavier Coutinho envolvendo o seu gesto por um desejo reparador e justiceiro.

A instalação em si define-se por um ambiente obscurecido onde sedimentos da ruína dos frisos apresentam-se não na sua ordenação original (impossível de refazer pela escassez de documentação) mas segundo a ordem em que se encontravam armazenados, sendo acompanhados por uma iluminação rasante que lhes conferem uma intensa teatralidade.

Em diálogo com este teatro de ruína, de feições arqueológicas, encontramos duas interpretações à escala real (realizadas com materiais de maquetização) que simulam os balcões de atendimento originais, também eles destruídos em 1953. O vermelho e o negro das paredes atribuem a toda a mise en scéne uma dimensão dramática, existindo ainda, como que num impulso reconstitutivo, desenhos figurativos a giz que indiciam o local e a escala dos frisos, assim como uma frase lapidar de Pardal Monteiro que percorre todo o perímetro do espaço dedicado ao friso: “Refiro-me ao friso em baixo-relevo que deve circundar todo o hall acima do coroamento dos lambris, friso que é composto de quatro grandes painéis e que, segundo a minha ideia, devem representar as várias modalidades da actividade humana. É meu parecer que esse friso deve ser executado em calcário brando da Batalha, por ser o mais económico de todos os materiais que se podem empregar.” Todo este conjunto cénico é composto é completado por um nicho documental onde se reproduz, na parede em grande escala, a carta e o respectivo relatório ilustrado de Xavier Coutinho.

Ao invés de muitas outras criações de João Penalva onde a ambiguidade e a incerteza parece ser condição determinante na experiência narrativa, neste caso em particular, as fotografias da Casa Alvão, pertencentes ao arquivo da CGD, inseridas na folha de sala, fazem cair por terra qualquer intenção ficcional. Por conseguinte, a factualidade fiduciária dos elementos expostos conferem à experiência uma sensação de veracidade, apenas atenuada pelo dramatismo do ambiente teatral.

A potência de toda a intervenção de Penalva resume-se à inteligência e precisão das suas decisões: não tenta repetir o que existiu alcançando a própria identidade do passado (a reconstituição absoluta), nem tenta apagar os vestígios da natureza interpretativa da sua acção.

Assim, aquilo que nos apresenta não é mais (nem outra coisa) que um exercício de reescrita, que na sua distância temporal e afectiva, revela muito mais sobre o modo — as formas operativas, os mecanismos de repreentação, os intervalos, o que não é dito — do que sobre a própria  realidade que pretende tratar.

Afinal, aquilo que move João Penalva não será tanto o desejo de reparação ou reconstituição de uma história particular, mas a possibilidade (mais uma vez) de inventar a arte como um lugar de privilégio para o exercício representacional de narrativas-objecto.

Ao mesmo tempo pressentimos neste projecto, como em muitas criações anteriores deste autor, uma recorrente preferência pelas pequenas narrativas, pelos rumores laterais, pelas histórias periféricas que tão rapidamente se apagam, que não resistem ao tempo nem às luzes contemporâneas, e que no jogo das representações anónimas entre os homens, nos interstícios das grandes instituições, fazem emergir o solo quebradiço em que elas assentam. E sobretudo por isso, torna-se pol​​​​​​​ítico.

João Penalva

Culturgest Porto

Samuel Silva é Artista Plástico, Professor Auxiliar Convidado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Investigador no Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade (I2ADS).​​​​​​​

 

João Penalva. Vistas da exposição Um crime que urge reparar. Culturgest Porto. Cortesia do artista e Culturgest.

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