Ed. 10-11-12 / 2019
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Yonamine: Union Jacking. Voice of the Voice£ess 

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Isabel Nogueira

 A cor da denúncia

 

Yonamine (n. 1975, Luanda) vive e trabalha em Harare, Zimbabwe, embora o seu percurso passe também por Berlim, Luanda e Lisboa. E é precisamente aqui, no espaço Cristina Guerra Contemporary Art, que o artista expõe sob o título Union Jacking. Voice of the Voice£ess. O título imediatamente adverte para o que se poderá ver. Yonamine cria uma voz que, através da sua obra, se expressa e se inquieta. Poderá ser a voz de quem poucas vezes a tem — quando a tem —, numa localização face ao mundo do capital, do consumo e do poder, na complexa ligação às consequências de um movimento colonial agressivo e dominador. E as coordenadas estão lançadas.  

O termo pós-colonialismo tem sido utilizado pelos historiadores após a II Grande Guerra e, nas suas várias amplitudes e implicações, procura pensar e analisar as consequências culturais, humanas, económicas, artísticas, políticas, geográficas, religiosas, sexuais, entre outras, do colonialismo nos países colonizados e nos países colonizadores. É importante trazer à colação a ideia de que os efeitos do movimento colonizador ocorrem, de modo evidentemente diferente e com um grau de consequência muito díspar, tanto nuns como noutros. Neste contexto, podemos referir os textos seminais de Albert Memmi, Edward Wadie Said, Frantz Omar Fanon, ou de Kwame Nkrumah. Trata-se de trabalhos efectivamente relevantes e que se estabeleceram como reflexões de fundo sobre esta questão, aos quais, naturalmente, se foram seguindo outros, de que são exemplos os textos de Joseph-Achille Mbembe. Todos procuram precisamente dar voz e problematizar. E esta voz perpassa a exposição em causa. 

De facto, e neste contexto, a arte assume-se como um factor implicativo de denúncia de aspectos que muitos governos desejaram e desejam manter na sombra, advertindo também para os perigos da globalização neoliberal ou para o capitalismo tardio, cujos expoentes têm sido o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. A arte pós-colonial encontra-se também intimamente ligada à globalização, ou seja, à reflexão crítica sobre as condições planetárias da produção artística, assim como da sua circulação e recepção. Mas, sobretudo, o pós-colonialismo na arte reflecte sobre questões que se prendem com as consequências tão impactantes, como a identidade cultural, artística ou religiosa, a exploração económica, humana, sexual, entre outras. A crítica à visão eurocentrista remete, em simultâneo, para a necessidade de revisão da narrativa histórica, intelectual e artística colonial. O próprio movimento anti-colonial “Négritude” — termo instituído por Aimé Césaire —, constituído por intelectuais negros oriundos de países colonizados pela França, foi de notória importância na chamada de atenção para a identidade africana e para o valor da cultura negra, logo nos anos 30 do século XX.

Nos anos 70 do século XX, Michel Foucault desenvolvia o conceito de “bio-poder” (Histoire de la sexualité I, La volonté de savoir, 1976), no contexto de um pensamento que claramente questionava a modernidade, nomeadamente no que se refere à prática dos estados modernos e a regulação dos que a ele estariam sujeitos, por meio de uma "(…) explosão de técnicas diversas e numerosas para obter a subjugação dos corpos e o controle de populações". O poder manifestava-se, concretamente, pelo princípio do direito, fazendo coincidir a vontade dominadora com a lei, e exercia-se por meio de mecanismos de interdição e sanção. Uma vez mais, era mostrado de que modo o poder pode ser exercido e tonar-se hegemónico e elemento contaminador a vários domínios. Centremo-nos concretamente na exposição em causa.

O som indistinto do zumbido de abelhas recebe o visitante neste espaço. Há uma inquietação, algo de incorpóreo, de desconfortável no ar. Yonamine apresenta uma complexa e viva instalação, pontuada pela diversidade de suportes — vídeo, escultura, assemblage, pintura, objectos diversos do quotidiano —, pela exuberância da cor — azul intenso, vermelho, amarelo, laranja, verde, preto, branco, etc. ­—, assim como pela complexidade da informação exposta, que requer uma atenção expectante e curiosa. O espaço torna-se explosivo, tanto do ponto de vista da sua plasticidade como dos conteúdos. Vejamos.

Os aspectos mais relevantes, no que a conteúdos diz respeito, prendem-se com o colonialismo na história do Zimbabwe, ex-colónia do Reino Unido, que chegou a ser conhecida como “A jóia de África”, e a crítica ao colonialismo britânico — atentemos inclusivamente no título da exposição e na utilização do símbolo que representa a libra esterlina —, assim como com o próprio estado da nação africana nos dias de hoje. E esta questão parece-nos francamente interessante, uma vez que, além de toda a problemática colonialista, é trabalhada aqui também a problemática pós-colonialista e os abusos de poder de vária ordem em que vivem — e agora perpetuada pelos dirigentes totalitaristas — muitas das nações africanas, como é precisamente o caso da história recente do Zimbabwe. E isto continua a ser um problema, uma outra triste face da moeda, um modelo abusivo que é continuadamente imposto de diversas maneiras.

Nesta exposição, Yonamine reporta-se a isto, desde a crítica à actuação britânica e à supremacia branca e ocidental, utilizando alguns dos símbolos do Reino Unido, tais como a bandeira (“Union Jack”), os uniformes militares, ou mesmo o conhecido tecido xadrez-escocês, até a crítica à ditadura de Robert Mugabe, no poder durante décadas, até 2017. A denúncia é feita. Yonamine apresenta cartazes com afirmações e notícias de jornais, que se reportam precisamente à corrupção, à manutenção de prisioneiros, a abusos de diversa ordem: “Workers stole my US$1M: Mugabe”. Algumas imagens de dirigentes assumem a forma de bonecos caricaturais, concorrendo para esta ideia de abuso, de quase irrealidade de acção e de posturas políticas. Como se, de repente, se passasse para o domínio da comicidade, tal é a ordem do abuso de poder.

Também os vídeos — Madzibaba (2019) ou Tree cutting specialists (2019) —, as capas de jornal e as pinturas indicam o estado das coisas: “Real life / real drama”. Aliás, as telas num azul intenso — designado evocativamente aqui por “azul indígena” — são dos melhores trabalhos da exposição. Mas, de facto, a peça mais impactante e complexa é a instalação Xplicit robbery (2019), que ocupa um espaço considerável e é constituída por vários dos elementos e iconografias já referenciados. O colorido é forte e atrai inevitavelmente o olhar, que depois é conduzido mais pormenorizadamente pelos jornais, cartazes, texturas, formas geometrizantes, entre diversas materialidades. Ao centro da composição, um holofote ilumina-a ao modo teatral.

O espectáculo vai começar e o espectador é convidado a vê-lo e a pensá-lo. A própria peça desvenda-se por camadas de complexidade, inclusivamente, e também, coincidentes com as camadas físicas que a constituem.

Uma outra questão chama a nossa atenção nesta mostra. Há um legado da pop art que se vislumbra presente. A imagem forte, plástica e colorida é apenas a primeira impressão. De facto, além deste aspecto mais evidente, existem outros. É o caso da utilização da gramática do quotidiano — político, social, económico, institucional, religioso, histórico, noticioso — como ponto de partida e de chegada do objecto artístico. Os cartazes, o recortes de jornais, de 1989 à actualidade, as imagens divulgadas pela imprensa, ou a própria questão objectual, tão íntima à pop art, percorrem a galeria. Ou seja, e no que à questão objectual diz respeito, por um lado, deparamo-nos com a apresentação do objecto no contexto expositivo, nomeadamente através de assemblage; por outro, verificamos uma reprodução exacta, naturalmente irónica, de um objecto banal do quotidiano, como é o caso da peça, em betão, que reproduz caixas de ovos (Ovos dourados, 2019). E recordamos, a este propósito, Arthur Danto, quando se referiu à importância da pop art (After the end of art: contemporary art and the pale of history, 1997): "A causa da mudança, no meu ponto de vista, foi a emergência de algo infelizmente chamado de pop art, que considero ser o movimento artístico mais crítico do século". Certamente. A cor aqui é, de facto, a da denúncia.

A modernidade no seu lado definidor de progresso e superação chegou a um lugar difícil, confuso, perigoso e errado, em muitos casos. Sob diversas formas, há um bolo que cresce e que faz convergir o capitalismo desenfreado e agressivo, as desigualdades de diversa ordem, o exercício do poder, a subjugação dos indivíduos aos sistemas autoritários, a perpetuação de um feudalismo de fundo, o medo, o colapso climático, a impunição, a injustiça, o racismo, a homofobia, o machismo, etc. No texto All that is solid melts into air (1982) — título citado de Karl Marx —, Marshall Berman afirma que "(…) a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma modernidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela despeja-nos a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia". Ou seja, a modernidade colocada em causa por si própria. Como superar esta estranha e inquietante dialéctica? Não sendo efectivamente fácil mudar o estado das coisas e do mundo, urge começar por reflectir, assinalar, perceber pontos de partida e de chegada conjuntos na construção de algo mais igualitário e justo. É o que nesta exposição também é proposto. Dar voz é sempre um possível e importante começo de alguma coisa, capaz de conduzir a uma vivência francamente melhor.  

 

Yonamine

Cristina Guerrra Contemporary Art

 

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Yonamine: Union Jacking. Voice of the Voice£ess. Vistas gerais da exposição Cristina Guerra Contemporary Art. Fotos: Vasco Stocker Vilhena. Cortesia do artista e Cristina Guerra Contemporary Art. 

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