Ed. 07 / 2018
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Aprender a escutar um Criado-mudo 

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Maria Beatriz Marquilhas

 

Três anos depois da exposição Observações de uma realidade sincopada ter tomado conta das salas do Pavilhão Branco, Nicolás Robbio regressa a Portugal com a sua primeira exposição individual na galeria Bruno Múrias. Em Histórias de um Criado-Mudo, o artista argentino a viver em São Paulo reflecte sobre narrativas que foram silenciadas, omitidas na construção de uma memória partilhada. O protagonista da exposição — o criado-mudo — dá nome, no Brasil, a uma peça de mobiliário que, em Portugal, corresponde às mesas-de-cabeceira, criando um jogo de palavras que aponta para um servilismo sem voz, historicamente reprimido, mas omnipresente na intimidade do quotidiano e cujo sentido vai sendo actualizado pela linguagem.

No exercício desenvolvido pelo artista ecoam as palavras de Walter Benjamin quando afirma, na sua terceira tese Sobre o Conceito da História (1940), que “só para a humanidade redimida o passado se tornará citável em cada um dos seus momentos.”

O silêncio da História começa na separação entre o que permanece oculto e o que devém imagem colectiva. Numa referência aos cobogó, técnica de construção da arquitectura modernista brasileira, marcada por elementos vazados que possibilitam a passagem da luz e do ar, um muro erguido em terracota esconde histórias por trás da normatividade rígida da quadrícula. Denunciando o modo como o trabalho de Robbio está ancorado na prática do desenho, a face oculta da construção é como uma folha em branco povoada pelos objectos que ali habitam: caricas, velas, um galho de uma árvore, uma vassoura, uma garrafa, garfos, chaves, cigarros, fósforos, um livro, uma ferradura e pequenas figuras em barro. Se o lado central deste muro — a sua “fachada” — exibe um formalismo utópico, o seu lado interior desmente essa falsa ordem, revelando os inúmeros vestígios das histórias vividas na familiaridade dos lares, alheias a inquisições colectivas. A impossibilidade de correspondência entre as esferas pública e privada joga-se nas duas faces do mesmo edifício.

A denúncia do “teatro” da vida pública, marcada pela mentira e praticada no interesse de poucos, continua com Não há pior surdo que aquele que não quer ver (2018), uma projecção de vídeo onde vemos imagens do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A imagem encontra-se invertida e, aumentada com uma lupa, observamos a tradução do discurso em linguagem gestual, numa referência à mudez mencionada no título da exposição e à “surdez” deliberada que atravessa as sociedades que tornam possíveis episódios como os que ultimamente se têm vivido na cena política brasileira.

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Ainda numa alusão à realidade brasileira, numa das paredes da galeria ganha forma o que parece ser um altar no qual reconhecemos diversas partes do corpo humano em dezenas de figuras modeladas em arame. O título da obra — Figas (2018) — identifica esses fragmentos com os amuletos usados pelos etruscos na era romana, um gesto do corpo que se popularizou enquanto objecto, símbolo da sorte e de protecção contra o mau-olhado. Semelhantes às figuras de cera utilizadas na igreja católica para pedir ou agradecer a cura de uma determinada parte do corpo, trata-se de objectos cuja função simbólica se insere num código comum que liga o todo à intimidade de cada indivíduo. Ambas produtoras de uma memória colectiva, a prática artística tem afinidades com as práticas movidas pela fé: cria-se um objecto, dá-se-lhe um sentido, um nome e um lugar no fluxo acelerado das imagens, ergue-se-lhe um altar, um ponto de partilha, um pacto de entendimento mútuo.

Sobre a escova de uma vassoura invertida encontramos uma pequena palmeira de plástico, que nos leva a verificar uma caricata semelhança entre o objecto de limpeza e a árvore tropical. O título da peça — Tristes Trópicos (2018) — é uma alusão à obra de 1955 do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss sobre as tribos indígenas da Amazónia. A obra poderia ser o epitáfio da floresta tropical da Amazónia, cujo fim se adivinha próximo, perante um imparável desmatamento florestal, movido por interesses empresariais e políticos. Aqui, a espécie humana é identificada como culpada pela aniquilação da sua herança colectiva, em particular do imaginário da selva tropical, materializado na figura da palmeira.

No centro da galeria, Robbio coloca uma obra mais abstracta que se distancia das outras, assumindo um tom conclusivo. Um triângulo desenhado a giz e uma série de limas espalhadas aleatoriamente pelo chão compõem um Teorema acidental (2018). Se o triângulo é uma figura associada ao equilíbrio e à harmonia, ao rigor da geometria enquanto código colectivo, as limas pertencem ao mundo natural e a sua queda é imprevisível. A natureza representa a contingência que o Homem tenta disciplinar. Esta exposição, pelo contrário, fala-nos sobre o que os homens controlam ao exercer o governo das suas florestas, cidades e templos, e da pedra que escolhem para construir uma memória. Essa escolha estará sempre entre a partilha de um código universal e o respeito pela individualidade de cada fruto, entre a abstracção de um triângulo e a assertividade de uma lima em queda.

Nicolás Robbio

Galeria Bruno Múrias

Maria Beatriz Marquilhas

Licenciada e mestre em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo-se especializado em Comunicação e Artes com uma dissertação sobre o conceito na experiência artística. Contribui regularmente com artigos e ensaios para revistas. Vive e trabalha em Lisboa.

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Nicolás Robbio, Histórias de um Criado-mudo. Vistas da exposição na Galeria Bruno Múrias. Fotografias: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Galeria Bruno Múrias.

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