Ed. 07 / 2018
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Julião Sarmento: Leopard in a Cage – Projectos Inéditos (1969-2018)

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Isabel Nogueira

"Quando se apear, deixe seguir o carro antes de atravessar a rua", podemos ler numa das duas tapeçarias apresentadas nesta exposição de Julião Sarmento (n. 1948), que reproduzem — frente e verso — um bilhete de eléctrico, que possivelmente ficara num bolso e só agora conheceu concretização enquanto objecto artístico, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães. O título da mostra: Leopard in a Cage. Projectos Inéditos (1969-2018), com curadoria de Filipa Oliveira e Nuno Faria, chama claramente a atenção para o principal propósito da exposição: dar a ver trabalhos que, por variados motivos, não chegaram efectivamente a tomar corpo até ao presente e, por outro lado, apresentar alguns trabalhos recentes, também trazidos a público pela primeira vez. O título da exposição remete para o projecto Um Leopardo na S.N.B.A, proposto em Junho de 1975 à Sociedade Nacional de Belas-Artes, e que sucintamente consistia em soltar um leopardo vivo — não resistimos a ressaltar o “vivo”, descrito no texto em questão — na sala principal de exposições. O projecto toma agora, portanto e assumidamente, a forma de objecto artístico em si.

A questão objectual é consistente nesta mostra. Além das já referidas tapeçarias, que reproduzem num outro material, escala e contexto um objecto do quotidiano — uma ideia de 1969 —, podemos destacar Educational Hazard, uma ideia de 2004. Trata-se de um conjunto de caixas de madeira, de dimensões díspares, dentro das quais se alinham várias colecções de livros. Os livros são manuseados, alguns claramente usados, remetendo-nos para a acção sobre o objecto, para a sua utilização e, claro, para o desgaste, o uso, o tempo e a sua inequívoca passagem. Na verdade, este trabalho evoca o protagonista da acção, que nunca aparece: o leitor. Ainda na senda objectual, destaca-se um belo e depurado trabalho de homenagem a Carl Andre, o autor da conhecida série de título tautológico Equivalent, e que precisamente Julião Sarmento cita no carácter minimalista da obra assim como no seu próprio título: Equivalent I-V aka Back to 66 (Hommage to C.A.). Este aspecto de assumida repetição, quase de modo obsessivo, surge novamente e exponenciado nas duas séries de pinturas 20 Different Shades of Black… e All the Different Shades of White…, ambas de 2018, que representam todas as tonalidades de branco e preto disponíveis no ateliê do artista, revisitando a própria matéria de que se produz a obra.    

Regressemos a outro aspecto importante e que assume um fio condutor nesta exposição: a comummente designada por “animália”. Além do projecto inicialmente referido, nesta exposição o espectador depara-se com súbitas impressões sobre papel de peles de animais, tomando forma padrões inusitados de zebra, lobo, tigre ou leopardo. Aliás, estes trabalhos recordam — deste mesmo ano de 1975 — a peça em que se mostra uma mulher a vestir oito casacos de peles diferentes (Sem título – Casacos de Pele), estabelecendo uma relação performativa entre a pele, o corpo e a imagem. Ainda dos anos 70, há um conjunto de certo modo surpreendente, porque menos expectável no âmbito das obras de Sarmento, intitulado Um Quarto de (zebra, girafa, etc.). Parte do respectivo animal espreita no canto do espaço pictórico, mostrando um fora de campo quase do domínio do cinematográfico, numa plasticidade de cores vivas e luxuriantes. Outra ideia de 1975 é o projecto para postal — agora concretizado — Cheeta. Também o suporte fílmico super 8 está presente, com Acordar (1976).

Finalmente, uma peça chama particularmente a nossa atenção, apesar de se encontrar colocada de modo relativamente discreto na parede. Tem por título Secret (2000) e é um texto que propõe que algo — uma imagem fotográfica — permaneça secretamente guardada no tempo e no espaço:

"Take a Polaroid photo of someone you secretly lust for (…) Seal the envelope carefully, hide it in a secure place and never, never open it again".

Assim faremos. Nunca se saberá se o fizemos. E nós próprios talvez nos esqueçamos. A memória é falível. Mas a palavra é um tiro.

Julião Sarmento tem 50 anos de carreira, num percurso pontuado pela experimentação de suportes, de escalas e da própria reinvenção de si enquanto artista. Esta exposição propõe mais uma reinvenção, convidando a ver projectos que agora se tornam, afinal e eles próprios, obra ou, por outro lado, são agora concretizados. Além das questões já trazidas à colação, há ainda outro fio condutor, que é o tempo da arte. Estes trabalhos, precisamente porque alguns deles vêm — pelos menos enquanto ideia — dos anos 60, continuando, através de outras obras, pelos anos 70 e até à actualidade, constituem uma amostra de algumas das inquietações e questões artísticas proeminentes de Sarmento. A exposição é um todo orgânico no qual as peças se encaixam e ganham significado na disparidade dos elementos, tempos e formatos.

Leopard in a Cage – Projectos Inéditos (1969-2018) é uma das três exposições que inauguraram no Centro Internacional das Artes José de Guimarães e que, juntamente com Mundo Flutuante. Trabalhos: 1996-2018, de Pedro A. H. Paixão (n. 1971): uma mostra que interage com a coleção do CIAJG e Lábios de Flamingo — uma proposta de um museu imaginário dentro do museu, ou seja, a reunião de um conjunto de imagens, a seu modo familiar ao espectador, provocando uma espécie de reconhecimento ou de rememoração da própria história da arte —, convida a um percurso com inquietações, propósitos e objectos claramente variados.  

Julião Sarmento

CIAJG: Centro Internacional das Artes José de Guimarães

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

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Julião Sarmento, vistas gerais da exposição Leopard in a Cage – Projectos Inéditos (1969-2018). CIAJG-Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Direitos reservados © Fotografia: Vasco Célio. Cortesia do artista e CIAJG.

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