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Redes, Colaboração e Resistência em/entre Portugal e Brasil, 1962-1982

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Isabel Nogueira

 

É uma exposição que, sobretudo num formato historicista e documental, se debruça eficazmente sobre a palavra, na sua poética, significado, expressão visual, ou até na sua luta. E a palavra surge escrita, dita, não vocalizada, evocada, desenhada, filmada. Uma das frases mais certeiras e enxutas da mostra é inspiradora: «#resistência exige #método». E resistir continua a ser preciso, fundamental e, a seu modo, perigoso. Sobretudo em tempos exigentes, como aqueles a que a exposição se reporta (1962-1982). Mas que poderíamos, por motivos diferentes, estender ao tempo actual. Detenhamo-nos sobre esta mostra, que nos permite uma reflexão mais alargada relativamente ao momento artístico, político e vivencial que convoca.

Com curadoria de Rui Torres, esta iniciativa reúne obras da Colecção Moraes-Barbosa (São Paulo, Brasil) e do Arquivo Fernando Aguiar (Lisboa, Portugal), e apresenta trabalhos de Abílio-José Santos, Ana Hatherly, António Aragão, António Campos Rosado, Ernesto de Melo e Castro, Haroldo de Campos, Iberê, Liberto Cruz, Neide Sá, Peo, Regina Silveira, Salette Tavares, Silvestre Pestana, entre outros artistas particularmente relevantes ao nível do universo em causa. Mas que poderia ter presente ainda outros artistas, tais como António Barros, por exemplo. A proposta curatorial identifica seis agregadores em torno dos quais se organizam as publicações trazidas para este espaço: resistência, método, colaboração, apropriação, rede e pesquisa. Trata-se de uma espécie de palavras de ordem, de um qualquer imperativo conceptual, potencialmente convertido em acção. E, por entre revistas, livros, arte postal, cartazes, recortes de imprensa ou documentação audiovisual e fotografias, é construído um universo singular e por vezes até enigmático.

Esta ideia de resistência é importante e, neste contexto político e artístico, chama particularmente a nossa atenção. Por estes anos, Portugal e Brasil viviam apertadas ditaduras, com a repressão e a censura que as caracterizam. No caso do Brasil, como sabemos, tratou-se de uma ditadura militar, que conheceu momentos especialmente duros, tais como o período do governo de Emílio Médici. O regime ditatorial só conheceria final em 1985. Em ambos os países, a cultura e a arte foram fundamentais para se ir conseguindo construir algumas bolhas de respiração. Aliás, no Brasil, o próprio Tropicalismo teve um papel francamente relevante neste sentido, ao mesmo tempo que se propunha sedimentar a identidade cultural brasileira. Ou seja, através precisamente da arte e da cultura, quer dizer, através da sua capacidade de resistência e de colaboração — outra ideia fundamental evocada nesta exposição — o Mundo e a Vida não se abandonaram. Não sucumbiram.

A relação do binómio Arte-Vida foi, de resto, uma constante do movimento geral da neovanguarda internacional, ao longo das décadas de 60 e 70.

O movimento Fluxus representou-o com assertividade e convicção e é oportunamente também referenciado nesta mostra. Em Portugal, nos anos 70, incrementa-se uma relevante conduta experimental, determinante para o desenvolvimento das artes visuais, num sentido alargado, e numa busca constante da vanguarda crítica e conceptual. No intuito exploratório e colaborativo, sucederam-se diversos eventos, acções e publicações.  Podemos mencionar eventos tidos como seminais, e sobretudo ligados à poesia experimental a à música, tais como Concerto e Audição Pictórica (Galeria Divulgação, 1965) e Conferência Objecto (Galeria Quadrante, 1967), nos quais intervieram Ana Hatherly, Ernesto de Melo e Castro, entre outros artistas. E, precisamente entre 1964 e 1966, seria editada a importante revista Poesia Experimental, também presente nesta exposição.

Mas também de relevo — e aqui convocada — foi a acção do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, que, ao longo dos anos 70 e pelos anos 80, iria definir uma singular confluência de linguagens experimentais — em espírito de criação e de aprendizagem ou, se preferirmos, a ideia vostelliana de “artista/educador” —, organizadas em diversos momentos, de entre os quais se podem destacar Novas Tendências na Arte Portuguesa, ciclo intercalado com Poesia Visual Portuguesa (1979-1980). No catálogo registava-se: «Em Coimbra, (…) o CAPC, visando suprir uma lacuna cultural, assumindo o papel que lhe compete, como meio criador de arte e gerador das suas trocas e, fundamentalmente, como centro difusor do que de novo e inquietante se esteja a produzir nos domínios da arte, mormente a portuguesa». Certamente.

Experimenta-se, ao mesmo tempo que se traça um novo caminho, polvilhado por novas abordagens e incorporações. Os suportes conhecem um notável desenvolvimento, e as técnicas contaminam-se e expandem-se. Nesta proposta curatorial a apalavra, o poema, a imagem, surgem como actos de resistência e de afirmação, conferindo voz, proclamando ideias, procurando, na verdade, uma revolução. O próprio grafismo das palavras nas paredes brancas evidencia esta urgência, por exemplo visível, entre outras, na frase de Vladimir Maiakovski: «Não há arte revolucionária sem forma revolucionária». E voltamos ao início, à palavra na seu significado, forma, beleza, poder e urgência. E resistir continua a ser urgente. E poético.  

 

Galeria Avenida da Índia

 

 

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 








 

Vistas da exposição Redes, colaboração e resistência em/entre Portugal e Brasil, 1962-1982; 2021; Galeria Avenida da Índia. Fotos © Bruno Lopes. Cortesia de Galerias Municipais/Egeac.

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