Ed. 06 / 2018
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Para além da forma, o texto

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Susana Ventura

Sobre a exposição de Fernanda Fragateiro For us a book is a small building, na galeria Baginski.

A frase de Alison Smithson, que Fernanda Fragateiro toma para título da sua recente exposição na galeria Baginski, implica, desde a sua origem, algo desviante. Não se interprete esta ideia como se compreendêssemos a comparação como um afastamento da disciplina (nem seria essa a intenção de Alison e Peter Smithson [1] ao comparar um livro a um pequeno edifício), mas como uma necessidade implícita de se pensar de outra forma, diferenciadora, sobre a obra de arquitectura.

E, na presente exposição, implica pensar, igualmente, de forma diferenciada sobre a obra de arte, porque não se confundem.

Essa é uma clareza intrínseca à exposição de Fragateiro (e a várias outras obras suas que evocam a disciplina da arquitectura): a referência não é literal (embora o “livro de arquitectura” esteja, fisicamente, presente na exposição, como uma matéria que é transformada plasticamente - em obra de arte - e como conteúdo ideológico cuja acção é, principalmente, política), nem existe qualquer tentativa de colagem a essa outra forma, mas compreendida, em si mesma, como um texto, assumindo-se que este é o livro de Fragateiro, que nos vai desvelando as questões que atingem a arquitectura ou, mais importante ainda, a vida que nos toca a todos nós; nós que habitamos este mundo.

Será este um primeiro grau de abstracção necessário para remover qualquer ideia de representação arquitectónica, parecendo-nos determinante para superar a diferença, que muitas vezes nos faz hesitar, em relacionar obras de arquitectura e obras de arte (mesmo se nos detivermos, apenas, no domínio da representação arquitectónica de que os livros e os desenhos são exemplos). As obras de Fragateiro, presentes nesta exposição e criadas em específico para o espaço da galeria Baginski, jamais poderão ser compreendidas como representações de uma obra de arquitectura e, em particular, do Robin Hood Gardens, o edifício de habitação social desenhado pelos Smithsons e concluído em 1972, cujo processo de demolição está em curso desde Agosto do ano passado. Uma representação deste encontra-se, por exemplo, na actual Bienal de Arquitectura de Veneza através da exposição de um fragmento da “street in the sky”, a paradigmática galeria elevada desenhada pelos Smithsons para promover a interacção entre vizinhos, adquirido e preservado pelo museu londrino Victoria & Albert (cujo futuro parece ser o da inevitável morte de artefacto arqueológico), e de uma instalação em vídeo criada pelo artista Sul-Coreano Do Ho Suh, conhecido por trabalhar a relação entre memória e espaço doméstico, que vai revelando os espaços interiores dos vários apartamentos e as diferentes apropriações pelos respectivos habitantes.

Em Elevation (Quite side) e Janela Azul, duas obras que dialogam entre si na sala lateral da galeria (uma conversa rítmica entre plano vertical e horizontal ou parede e chão), ressaltam, inevitável e primeiramente, as qualidades estéticas de cada uma: o movimento longilíneo quebrado, as dimensões colossais, o ritmo alternado entre distância-proximidade e luz polida-sombra, a leveza de “pontas”, que caracterizam a primeira, e o azul forte, o jogo de diagonais infinitas e a breve elevação do chão para encontrar um apoio, aparentemente improvisado, num objet trouvé, que enformam a segunda.

Ambas as obras decorrem de uma apropriação de Fragateiro de elementos (do desenho) do Robin Hood Gardens (a primeira, do alçado do lado do jardim, e a segunda, de uma grade de protecção), sem, no entanto, se confundirem com representações da obra arquitectónica, adquirindo, pelo contrário, essa autonomia que é exigida à obra de arte, não obstante ambas nascerem da mesma necessidade de fazer o espaço “falar”, anotando sobre este algumas ideias, manipulando-lhe as direcções e as escalas, criando jogos de vazio e cheio, sombras e presenças cromáticas… (como numa obra de arquitectura).

 

 

Eis que nessa mesma sala, surge uma outra possibilidade de leitura, a do texto que dá, igualmente, expressão àquelas obras. Duas edições de Ordinariness and Light formam, na parede, um ângulo recto suspenso e inacabado. Este livro dos Smithsons recapitula o trabalho desta dupla de arquitectos ao longo de dezassete anos, estruturado em dois momentos: o desenvolvimento inicial das teorias urbanas (1952-1960) e a sua posterior efectivação nos projectos construídos (1963-1970). Os argumentos do livro, os vários textos e as respectivas ilustrações pretendiam evidenciar como uma pequena alteração na nossa maneira de ver as coisas comuns poderia restituir os valores clássicos. As coisas ordinárias e simples, sob uma outra luz (a luz funciona, igualmente, como metáfora: simboliza, em simultâneo, um novo olhar e uma crítica à luz modernista dos jogos de volumes de Le Corbusier, ou ainda, à luz asséptica dos edifícios modernos), favoreceriam uma participação comprometida e activa entre a comunidade de modo a combater a deterioração da vida urbana e a devolver à cidade a sua capacidade de libertação, voltando esta a respirar. Robin Hood Gardens, um dos edifícios construídos, propiciou aos Smithsons testar várias destas ideias em obra, sendo considerado o culminar efectivo destas.

Num gesto duplamente crítico, na sua obra Ordinariness and Light, after Alison and Peter Smithson, Fragateiro recupera a crítica destes arquitectos à arquitectura modernista preconizada por Le Corbusier (o ângulo recto virtual remete-nos para este), como transforma o texto do livro no próprio conteúdo crítico da sua obra, simultaneamente estético, político e social.

E todos os elementos outrora vistos sob uma determinada perspectiva revelam-se outros sob um olhar distinto. O objet trouvé remete para a estética “as found”, nomeada pelos Smithsons após o encontro com Nigel Henderson e a descoberta das fotografias deste de situações urbanas informais no seio de um bairro da classe trabalhadora (Bethnal Green), onde Henderson residia com a mulher. As found correspondia não só a esse novo olhar sobre as coisas prosaicas, como estimulava a compreensão dos vestígios ou traços encontrados como importantes rememorações de como é que um determinado lugar se foi construindo e veio a existir como tal. No capacete azul de Janela Azul, lê-se Expo 98, constituindo-se como o vestígio da demolição dos bairros informais que deram origem à construção da Expo 98 e ao consequente apagamento de um outro debate sobre políticas de habitação.

O livro de Fragateiro fala-nos, afinal, sobre a necessidade basilar do acesso à habitação e a obrigação do estado social responder a esta, de que Robin Hood Gardens é exemplo no contexto do pós-guerra Inglês, através da estética as found, a qual, em Fragateiro, se caracteriza, ainda, pela dicotomia destruição-construção, tanto material e esteticamente (quando a artista recolhe fragmentos de demolições nos edifícios da Baixa Pombalina, resultantes da pressão da especulação imobiliária gerada por grupos multinacionais, e os reconfigura numa nova composição), como social e politicamente (conservando um vestígio da memória colectiva que essas mesmas demolições têm vindo a eliminar).

As found encontra a sua expressão, em pleno, na obra in situ que nos recebe na principal sala da galeria, alimentando-se do espaço, desenhando-o e reinventando-o, como habitual noutras obras de Fragateiro. Um gesto aparentemente simples, de traçar uma linha perpendicular às paredes que delimitam os seus extremos, apodera-se do nosso corpo físico, esmagando-o por momentos, quando pretendemos passar para o outro lado da galeria. O peso que sentimos, ainda que feito suspenso pelo artifício de uma viga metálica, torna-se no peso de cada um dos fragmentos, de cada memória, de uma outra possibilidade de existência, se olharmos dessa outra forma para as coisas comuns. E esse peso é, certamente, também, o da artista em falar, com cor aguerrida, das demolições do bairro 6 de Maio, na Amadora, das quais provêm os fragmentos coloridos e relembrar essas outras vidas tornadas em suspenso (não obstante a beleza sublime da peça poder, momentaneamente, suster o nosso pensamento). Passando para o outro lado de As found, pensamos no seu oposto perante a secção, que nos é dada a ver, de Lexikon der Kunst de corte perfeito, à qual se contrapõe um buraco que Fragateiro escavou na parede da galeria para mostrar o seu interior ou, afinal, o que é que se esconde muitas vezes, sendo dessa imperceptibilidade (das próprias obras, também) que nasce o sentido político. As found sustém a nossa respiração, assim que entramos na galeria, e, talvez por isso, Lexikon der Kunst seja tão subtil na sua forma e na sua escala, mas extremamente crítico nesse diálogo que cria com a primeira.

Numa exposição que se enquadra num contexto internacional de artistas que têm vindo a trabalhar o Brutalismo, as obras presentes relembram-nos as palavras da artista londrina Jessie Brennan a propósito das suas peças em torno do Robin Hood Gardens (como por exemplo, A Fall of Ordinariness and Light, de 2014, uma série de quatro desenhos a grafite do alçado do lado do jardim, que mostra o edifício - ou o progresso social - gradualmente a colapsar): “We hope that social housing, like the spirit of a dormant brutalism, has the potential to rise and disentangle itself from the logic of capitalist profit, and simply be a place to live.”

Fernanda Fragateiro

Galeria Baginski

Susana Ventura (Coimbra, 1978) Arquitecta de formação (darq-FCTUC, 2003), contudo prefere dedicar-se à curadoria, à escrita e à investigação, cruzando diferentes áreas do conhecimento. Gosta de pensar sobre arte, arquitectura, fotografia, cinema e dança, e ensaiar, ora em textos, ora em exposições, outras possibilidades de pensamento. (Por isso, também, doutorou-se em Filosofia, na especialidade de Estética, FCSH-UNL, 2013, sob orientação científica de José Gil). Recentemente, foi co-curadora de “Utopia/Distopia”, no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa (MAAT). 

 

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Imagens: Fernanda Fragateiro, For us a book is a small building, vistas da exposição na galeria Baginski. Fotos: António Jorge Silva. Cortesia da artista e Galeria Baginski.

Notas:

[1] Alison Smithson e o seu marido Peter Smithson conheceram-se enquanto estudantes de arquitectura na Universidade de Durham, ficando conhecidos, sobretudo, pela sua participação nas reuniões do Team X, um conjunto informal de arquitectos que lançaram a crítica ao Movimento Moderno, e pelo estilo New Brutalism, cunhado por Reyner Banham, próximo desta dupla de arquitectos.

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