Ed. 06 / 2018
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Deriva Urbana: Lisboa

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A Contemporânea #2 "Deriva Urbana Lisboa" encontra-se à venda nos seguintes locais: 

Almedina Gulbenkian; Almedina Rato; Almedina Saldanha (Lisboa)

AE FAUP (Porto)

Banca 31 (Lisboa) 

Culturgest (Lisboa) 

FBAUP (Porto)

Fnac (Lisboa e Porto)

Fund. Arpad Szenes Vieira da Silva (Lisboa) 

Fundação Leal  Rios (Lisboa) 

Galeria Solar (Vila do Conde)

Galeria Zé dos Bois (Lisboa) 

Inc. (Porto)

Manifesto (Matosinhos)

Museu Coleção Berardo/ CCB (Lisboa) 

Museu de Serralves (Porto)

Mag Kiosk (Lisboa) 

STET (Lisboa) 

Distopia (Lisboa) 

Linha de Sombra / Cinemateca (Lisboa) 

Sistema Solar (Lisboa) 

Solmar (São Miguel, Açores)

Under the Cover (Lisboa) 

Deriva Urbana Lisboa

Editorial:

Sérgio Fazenda Rodrigues

I

Quando Celina Brás, directora da revista Contemporânea, me convidou para ser o editor deste número, existia já a vontade de trabalhar sobre a cidade de Lisboa. Esta edição especial, a segunda em papel, surge assim, na sequência da anterior, dedicada à cidade do Porto (através do conceito “Crónicas de Arte”, da autoria de Antónia Gaeta), mas como um outro olhar, focado na expressão que o sector da arte contemporânea tem numa relação directa com o território.

Tendo em conta o período de transformação que a cidade de Lisboa atravessa, começou-se por equacionar o que seria pertinente desenvolver no âmbito das artes visuais. Embora existam inúmeras leituras em torno do que pode ser específico a esta cidade, revelou-se útil e aliciante, perceber, antes de mais, os elementos que constituem essa mudança.

Deste modo, atendendo à expressão evidente que esta dinâmica veio a adquirir, traduzida na abertura de novos espaços culturais, no estabelecer de vários intercâmbios, na angariação de novos habitantes e na criação de outros públicos, é imperativo perceber o que alimenta, caracteriza e constitui, todo este processo. É certo que isso cruza um conjunto de vários factores, que se alargam a diversos campos e que vão, entre outros, da política à economia, ou da cultura, ao marketing e ao turismo. Também é certo que, quer como herança de uma nova conjuntura socioeconómico (que emerge da lenta recuperação de uma recente crise financeira), quer como engrenagem de uma afirmação cultural que, de forma crescente, se vai consolidando, Lisboa assume uma mudança, onde a arte contemporânea é um elemento importante.

Com isso em mente e restrito ao âmbito do que uma revista pode oferecer, tomou-se como principal desafio, desenvolver um olhar que indague este fenómeno e perceba as expressões de maior curiosidade, e movimento, que se sentem em torno das artes visuais. Atente-se, porém, que a revista não propõe um registo conclusivo, programando-se antes, como uma auscultação ao espírito do tempo. Nessa auscultação, deseja-se sim, abrir espaço para um estudo futuro, que se entende necessário e se quer aprofundado.

II

É importante entender a forma como esta realidade se traduz, quer na esfera socioeconómica, quer na dimensão física do território. Ao longo da revista, indagam-se as movimentações que se geram, as zonas que se afirmam, as pontes ou os intercâmbios que se estabelecem e a forma como tudo isto transforma, ou não, o corpo da própria cidade. Esta é uma visão que importa debater no tempo e no espaço e que marca uma capital que, embora de pequena dimensão, afirma-se já, policêntrica, dispersa e cosmopolita.

Para cumprir este intento, recorreu-se à noção de Dèrive e à ideia de psicogeografia, desenvolvidas por Guy Débord, no decorrer do século XX. Promove-se, assim, uma deambulação pela cidade, que é apoiada na gestão de um mapa de afinidades, ou numa cartografia de aproximações, que não tem uma lógica cartesiana e não é mensurável, apenas, pela métrica e pelo posicionamento de cada elemento. Pretende-se, assim, estruturar uma leitura que incide no interesse e no modo de funcionamento de vários intervenientes, cruzando áreas de influência, sistemas de reverberação e lógicas de sobreposição no, e do, território em que estão inscritos.

Cumprindo essa ideia, a revista organiza-se em três núcleos principais, discorrendo sobre o perfil institucional, o sistema comercial e o carácter independente. Contudo, esta não é uma compartimentação estanque, interessando perceber a natureza híbrida e dinâmica, que muitos dos exemplos aqui apresentados, detêm.

No início de cada núcleo, demarca-se um texto que assume uma visão abrangente do que está a ser debatido. Na sequência deste primeiro texto, surge ainda um grupo de outros escritos, focados num olhar mais específico, individual e/ou comparativo, sob o formato de entrevistas, textos corridos, e/ou registos cruzados.

Cada texto, ou conjunto de textos, é intercalado por um ensaio visual, de um artista diferente, desenvolvido especificamente para a revista. No total, criam-se vários olhares sobre a cidade e sobre aquilo que a caracteriza, indo do tempo histórico à circulação do presente e do registo da vivência individual, ao imaginário da memória colectiva.

No final dos três núcleos, regista-se a opinião de um grupo de intervenientes estrangeiros que, tendo-se mudado recentemente para Lisboa, ou trabalhando na cidade com uma periodicidade regular, viabilizam uma outra leitura, que é feita de fora para dentro.

A revista termina com um conjunto de mapas que assentam, graficamente, uma possível sistematização do que ao longo das páginas foi sendo referido. Invocando a memória de Guy Débord, a informação estrutura-se de modo parcelar, estudando caso a caso – institucional, comercial, independente, as localizações predominantes e, de forma cruzada, no conjunto, a sobreposição de toda a informação anterior.

Assim, torna-se curioso perceber uma aparente simetria na zona ribeirinha da cidade, assente no seu desenvolvimento histórico, social e económico, que a disposição dos equipamentos culturais, ainda hoje denuncia. Veja-se o exemplo da dicotomia entre Belém, com o seu agrupamento de museus de carácter simbólico e vocação turística e a zona de Xabregas, com as suas galerias e espaços independentes, de carácter descomprometido. Ou, ainda a forma como o famoso “Y” de Lisboa, formado pelas linhas de vale da Avenida da Liberdade e da Avenida Almirante Reis, que sempre definiram, ao longo do seu tempo, uma parte burguesa e uma parte popular da cidade, marcam também hoje, um local onde predominam galerias (a Oeste da Avenida da Liberdade) e outro onde surgem um número significativo de espaços independentes (a Este da Avenida Almirante Reis). Atente-se, de igual forma, como ao longo da chamada sétima colina, do Cais do Sodré ao Bairro Alto, Príncipe Real, Largo do Rato e Campo de Ourique, há uma densidade de instituições, galerias e espaços independentes, que respondem à sedimentação cultural de uma zona histórica. Por contraponto, na zona das avenidas novas e na zona de Alvalade, onde convivem instituições, espaços independentes e, com maior incidência, galerias, respondendo ao crescimento espaçado da cidade para Norte. Por outro lado, é interessante perceber como os processos de gentrificação, com tudo o que isso acarreta, transformam a cidade e convertem antigas zonas industriais (como Marvila, ou parte da zona de Alvalade), em novos pólos, de uso reinventado e carácter, por vezes, postiço. Mas, mais do que fixar uma conclusão, importa ressalvar que aquilo que este número da revista Contemporânea pretende é, apenas, indagar outras formas de entendimento da cidade, percebendo a relação que isso estabelece com a dinâmica do sector artístico.

III

O enquadramento das artes visuais na cidade de Lisboa tem, hoje, um panorama amplo e complexo. Não é possível proceder a uma análise estanque, na medida em que a natureza dos elementos focados, quer ao nível da sua posição, quer ao nível do seu funcionamento, existe num registo de sobreposição que é difícil de contextualizar.

Tome-se o exemplo, a nível institucional, do papel que alguns privados ocupam, cumprindo o que seria, predominantemente, um papel estatal (do qual a Fundação Calouste de Gulbenkian, é um caso paradigmático). Ou ainda, a nível comercial, o intenso papel que as galerias desenvolvem, de forma pouco apoiada, na promoção de artistas por outras geografias (atente-se às inúmeras feiras de arte e ao intercâmbio que isso possibilita com outros pares internacionais). Veja-se, também, nos casos independentes, como artistas e curadores procuram novas formas de se organizarem, fazendo face a uma existência que é complexa e mutante (repare-se no caso do projecto “Empty Cube” que, durante dez anos, ocupou vários de espaços diferentes, ao longo de muito curtos períodos de tempo).

Refira-se, ainda, que aquilo que esta revista apresenta, não é uma listagem de todos os agentes que existem e trabalham na cidade, nem tampouco uma compilação de todas as diferentes perspectivas e posicionamentos que marcam o actual panorama de Lisboa. É, tão-somente, o registo de alguns casos de interesse que ajudam a perceber melhor o tema em questão; considerando, também, aqueles que não estão agora em funcionamento mas que, são notórios, pela herança que deixaram e/ou pelas vias que abriram.

O que se pretende então fazer é, em tom descomprometido, mas atento, aproximarmo-nos de um registo de deambulação, com um olhar que pede, simultaneamente, para ser focado e panorâmico, individualizado e sobreposto, numa realidade que é poliédrica e reflexiva.

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