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Pedro Barateiro: Abismo  

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David Silva Revés

 

12 de Março, o dia em que visitei a Galeria Filomena Soares. A inauguração das exposições de Pedro Barateiro e de Sara Bichão, que teria lugar nessa noite, estava já cancelada. As circunstâncias todos as sabemos, vivemos-lhes diariamente as hesitações e ansiedades. Foram breves os momentos em que ambas as exposições abririam de forma plena ao público, até ao posterior encerramento da galeria. Naquele mesmo dia de Março, o governo português decretaria estado de alerta e teria formalmente início o movimento de paralisação na qual praticamente todo o país mergulhou.

Escrevendo agora sobre Abismo, título da exposição de Pedro Barateiro, faço-o a partir da memória distante do meu encontro naquele espaço, auxiliando-me dos substitutos digitais que também aqui são disponibilizados. Memória-escrita-documentação, um conjunto que por si só não se distanciará do expectável que um exercício deste tipo se proponha realizar nesta revista. Nem tão-pouco fará diferir de forma impiedosa a maneira como a experiência de leitura se possa desenhar em relação à exposição comentada.  O que muda agora é a consciência da impossibilidade de que qualquer movimento muscular se possa dirigir rumo ao espaço físico que Abismo continua a ocupar.

 

Privada de público, esta exposição experimenta sozinha e inesperadamente aquela que era uma das intenções do artista quanto às condições de possibilidade na sua experiência relacional: uma certa “suspensão do espaço e do tempo”. Fatalmente, não por venturas estético-artísticas (ou, talvez, exactamente pelas direcções estetizantes que filtram o contexto actual), é esse mesmo estado de pastosidade espaciotemporal que nos engole agora, também sozinhos, no conforto dos nossos sofás (para os que aí têm o privilégio de poder permanecer).

Contudo, embora não o ideal, possa ser esse um lugar ainda produtivo para nos focarmos nesse outro espaço — mais instável, mais insurrecto, mais sombrio, ou paradoxalmente mais luminoso — que Abismo segrega ainda que num diferimento por imagens (nelas incluo naturalmente o som). Não deixará de ser curioso que o estado presente de Abismo se aproxime concretamente de uma das dimensões da realidade que a grande escultura de Pedro Barateiro convoca. Ao ser inspirada na configuração de um computador quântico, o confinamento desta escultura é dramaticamente realçado pelo facto de o dispositivo tecnológico que estiliza necessitar ele próprio de um espaço escrupulosamente estabilizado e livre de interferências exteriores para o seu real funcionamento.

Lembrando a forma de um lustre, a imagem do computador quântico lança a primeira luz sobre o discurso que Pedro Barateiro pretende explorar. Esse aparelho que, ao que se sabe, é mais devedor de uma promessa teórica do que de uma eficaz concretização técnica, perspectiva-se como capaz do tratamento de uma quantidade exponencialmente maior de informação por comparação ao mais desenvolvido computador comum,​​​​​ utilizando para isso os princípios elementares da mecânica quântica que o faz contemplar a possibilidade de simultaneidade de dois estados distintos da matéria — a chamada sobreposição quântica. Escusando-se os detalhes demasiado científicos (que não domino), é importante dizer que o advento consumado deste computador permitiria, por exemplo, não só avanços inimagináveis ao nível da medicina e da farmacêutica, como também um intenso desenvolvimento da inteligência artificial ou um extraordinário poder sobre o controlo de dados e dos seus sistemas de segurança. Ele é, por isso, a imagem de um futuro tecnológico que se pensa auspicioso, e igualmente a face de uma acérrima batalha pelo domínio da supremacia quântica, que grandes potências soberanas e gigantes tecnológicos desencadeiam neste preciso momento. De maneira silenciosa e obscura. Como na corrida armamentista do período da Guerra Fria.

Do vocabulário quântico, retenhamos agora a palavra anteriormente utilizada: sobreposição. E ela poderia, de uma só vez, descrever o gesto compositivo de Abismo, como também a poética, e a poiética, que alimentam a totalidade da obra de Pedro Barateiro — sobrepor. Sobrepor para decompor. Para chegar a unidades mais simples, a intensidades elementares. Para tocar o fio invisível e dificilmente perscrutável que, justamente pela sua prática, vemos unir subjectividades distantes e materialidades aparentemente contraditórias; realidades que vivem fora do campo artístico, mas que o contaminam e condicionam. Penso que Barateiro chamaria a esse fio o espírito revelado, resgatando novamente uma expressão de Ana Jotta vinda de outros contextos: “um artista é um revelador de espíritos” — frase que vai marcando, e pontuando, muitos trabalhos do artista.

Abismo não foge a essa premissa, embora ela não se produza numa aparição vocabular. Antes é materializada com especial latência, não só pela escultura, mas também pela faixa sonora e pelo póster que compõem a totalidade desta obra-exposição. Naturalmente, a sobreposição não é só conseguida pelo conjunto diferenciado de meios utilizados, mas sobretudo pelas camadas conceptuais que cada elemento faz articular, em si e entre si, para que possa ser tecida uma unidade singular entre distintos modos de administração da experiência humana através dos quais o indivíduo assenta, individual ou colectivamente, a sua relação com o mundo.

Tecnologia, economia, ciência, religião: os seus fantasmas, mais ou menos identificáveis, chegam-nos de diferentes direcções.

E aquela escultura geometrizada ganha assim outros contornos no centro de um espaço cenicamente construído que cativa a atmosfera de um templo. As suas evidências quânticas revestem-se agora de ressonâncias auráticas, totémicas, acentuadas por uma sonoridade imersiva onde se escutam cânticos corais e sons que associaríamos a um qualquer ritual xamânico ou cerimonial tribal. Que templo é este, poderemos perguntar — que divino espírito aí se sacraliza. E alguns dos breves relatos que Pedro Barateiro invoca por apropriação na lista de eventos inscrita no poster-folheto poderão oferecer-nos importantes chaves interpretativas: o início histórico do neoliberalismo; a noção de mercado livre de Milton Friedman; uma breve passagem sobre os processos de extracção de lítio; uma sucinta explicação sobre os princípios físicos do já referido computador quântico. Podemos agora antever de que espírito se poderá tratar. Pensamos no tenaz capitalismo, esse que estende a sua asa protectora sobre tudo e sobre todos.

Obviamente, a utilização reminiscente do dispositivo de sacralização actua como crítica e não como sublimação. Como crítica aos ditames que alimentam um agressivo mercado neoliberal; ao ideal de incessante eficácia produtiva que o sustenta e o faz operar numa obsessão materialista; à sua voracidade infinitamente cumulativa, supletiva ou suplantadora; ao seu ritmo de aceleração crescente; a uma desenfreada evolução tecnológica que derruba facilmente barreiras de equilíbrio quanto à sustentabilidade dos recursos naturais e das capacidades humanas. O artista investe todo o aparato expositivo de uma postura mordaz que faz colocar a questão na forma como a tecnologia e máquina de mercado — as suas temporalidades, espacialidades e produtos — foram, de alguma forma, deificados, e preencheram um lugar espectral, mas decisivo, quanto à atribuição de validade na totalidade da experiência. O abismo começaria aí. E para que sintamos esse abismo com o corpo, a faixa sonora assume uma espécie de sentido épico com tonalidades, diria, quase apocalíticas. Aos já referidos trechos sonoros juntam-se recortes de tumultos sociais, manifestações políticas, gritos de protesto ou melodias sintetizadas que cortam sons vindos do mundo natural.

Não posso agora deixar de fazer nota à forma como, ironicamente, Pedro Barateiro se inclui — e, nesse gesto, igualmente uma certa faceta do sistema artístico — dentro do mesmo regime que critica. Fá-lo com a inclusão da sua própria imagem na frente do póster disponibilizado (cada visitante poderia levar consigo um exemplar). Um auto-retrato em jeito de selfie, trazendo para o discurso um sentido satirizante do narcisismo contemporâneo. Atrás do seu rosto, Barateiro tem um boneco de feira, um demónio feroz e ao mesmo tempo risível. E como se a imagem não dissesse já tudo, o artista confirma-o no seu verso: “I am a monster. I am not a businessman. I am an amateur, a magician, a clown, an entrepreneur of my own actions, just like you.” — aos excertos narrativos que apropria, Pedro Barateiro justapõe frases suas, contrastantes na sua natureza subjectivante e perturbadora, entre o aforismo, a confissão e a revelação. Não sabemos, porém, se quem de facto fala é ainda o artista ou já o monstro. Não importa.

Retenho outra frase, a que finaliza a lista:

“Write a sentence on my back. Carve an image on my face” 

E aqui podemos perceber a dimensão implícita do gesto de Pedro Barateiro, muito mais acutilante, ao querer evidenciar algo mais subtil e insidioso. Algo que se localize antes da imagem ser esculpida, mesmo antes da frase ser escrita. Não esse espírito que descreve materialmente o capitalismo neoliberal em si (a frase escrita, a imagem  esculpida), mas aquilo que o antecede em movimento mobilizador.  

Voltando ao fictício templo, o que ele nos traz é uma ideia de crença, de confiança rumo à imagem teleológica da estrutura (a imagem quântica, que é a imagem da híper-tecnologia, que é a imagem do progresso científico, que é a imagem do capitalismo, é também a imagem de uma crença). Sabemos já que a finalidade voraz do capitalismo se assemelha, em muito, àquela que é, por exemplo, a promessa do cristianismo quanto à superação da carne. Contudo, entre ambos a dialética do corpo é substancialmente distinta. Não há transcendência no capitalismo, o capitalismo somos nós, faz-se e vive-se na Terra. E o pensamento que o sustenta, e que é muito mais profundo e antigo, é o da crença da superioridade do humano no mundo. Uma verticalidade alucinada mediada numa ideia de progresso constante em direcção à supremacia do corpo sobre a carne, e sobre tudo o resto. O sentido inquisitivo de Pedro Barateiro olha para essa inelutabilidade mobilizadora. Talvez o abismo tenha começado verdadeiramente aí. Hoje, mais do que nunca, experienciamos a sua vertigem.

 

Pedro Barateiro

Galeria Filomena Soares

David Revés (Lisboa, 1992). Investigador e curador independente. Mestre em Estudos Artísticos, vertente Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (2018). Tem explorado a área dos novos media e redes sociais, interessando-se pelos seus cruzamentos com a arte, museologia, sistemas expositivos e pelas questões ligadas à figura do espectador. Desenvolve uma prática crítica e ensaística com a qual contribui regularmente para algumas publicações, projectos de âmbito artístico ou académico.

 

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