Ed. 03-04 / 2019
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André Romão: Fauna

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Sara De Chiara

As luzes apagam-se lentamente. A sua intensidade diminui de modo a simular o pôr-do-sol sobre um horizonte transparente, um modelo de larga escala, em acrílico, do telhado de uma fábrica, com o habitual perfil serrado e pontiagudo, colocado ao nível do chão (Tramonto, 2019). Subitamente as luzes acendem-se e começam uma vez mais a escurecer, reiniciando o processo: um pôr-do-sol contínuo que revela a natureza ficcional e teatral da exposição de André Romão, Fauna, que começa nesta primeira sala e que serve como introdução à atmosfera nocturna da viagem que os visitantes estão prestes a começar.

Tal como na entrada de um teatro, filas de pósteres colados a uma grossa coluna cilíndrica anunciam a exposição, compondo a instalação Now that I have your attention (2019). Os pósteres mostram uma imagem aparentemente descontextualizada: um detalhe da cena que representa a decapitação de São João Baptista, pintada por Rogier van der Weyden. Neste detalhe, o corpo decapitado de São João parece ainda vivo, com o sangue a jorrar e a espirrar do pescoço cortado, como uma pequena fonte pulsante, traindo a estranha força plástica que dá forma a pequenas cristalizações.

Se existe alguma narrativa que Romão esteja a encenar é aquela inspirada nas Metamorfoses de Ovídio, e o detalhe do sangue retratado no póster evoca a imagem descrita no poema latino que explica a origem mitológica dos corais: o sangue derramado da cabeça de Medusa, cortada por Perseu, que transformou as algas marinhas em corais vermelhos.

O segundo capítulo da exposição é quase todo ele dedicado às Metamorfoses. Neste espaço encontramos uma instalação de som de quatro canais intitulada Of bodies changed to other forms I tell (2019), em que as vozes gravadas de Penny Rimbaud e Eve Libertine, respectivamente o baterista e a vocalista da antiga banda inglesa anarco-punk Crass, recitam versos do poema. O guião é composto por fragmentos que narram as transformações da personagem Aqueloo, o principal deus-rio grego. Acreditava-se que todas as nascentes, rios e oceanos tinham nele origem.

Esta colagem textual realça o poder metamórfico eleito por Ovídio como um princípio vital e existencial baseado na continuidade (e contiguidade) entre homem, natureza e divindade, profundamente relacionados numa cadeia ininterrupta de acções, uma sequência de visões como fotogramas (uma profecia do que viria a ser o cinema, como observou Italo Calvino). Para além disso, a água personificada por Aqueloo, a água sem forma que flui e assume diferentes formas apenas temporariamente, é o elemento que possivelmente melhor representa a ideia de fluxo constante, expressa no poema.

O princípio de uma metamorfose contínua reflecte-se na prática de Romão, que faz uso de objectos heterogéneos e de materiais de contextos diversos — vegetal, mineral, artificial, artístico, arqueológico, tecnológico —, alterando-os ou hibridizando-os, muitas vezes apresentando-os de um modo inusitado, criando tensões entre estes diferentes domínios. Uma referência ao poema surge também na recorrente forma rizomática ou fractal, evocando tanto o tema como a sua estrutura formal, com as histórias dentro das histórias, mitos dentro de mitos, e as suas variações.

O projecto do artista parece reflectir sobre a possibilidade de aplicar a lente das Metamorfoses, como se se tratasse de uma energia existencial latente, para observar e interpretar o mundo actual, questionando e testando as complexas interacções possíveis, por exemplo, entre natureza e o corpo humano ou entre natureza e aparelhos tecnológicos.

Gerador (2019), um gerador eléctrico polinizado por flores de acácia, uma planta invasora, instalado no chão da primeira sala é contrabalançado pelo modelo à escala real do PoSAT-1 que se encontra pendurado do tecto na segunda sala. Este foi o primeiro satélite português, símbolo de uma espécie de “polinização” humana do espaço, lançado em 1993 e actualmente à deriva. As metamorfoses não estão livres de conflitos e violência, como sublinha o curador Pedro Lapa, “ideias de mutação, adaptação e resistência” não estão isentas de “uma qualidade predatória e viral, análoga aos processos económicos”, sugerindo as diferentes implicações que a prática do artista aborda.

Antes de chegarmos aos dois últimos capítulos da exposição, uma pequena sala serve de intervalo ao fluxo narrativo. É exclusivamente iluminada pela luz de um frigorífico que contém algumas estatuetas arcaicas, de origem egípcia e grega, e aríbalos do Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa, que pertenceram à colecção de Ana Hatherly, aqui dispostos numa estranha estratigrafia ditada pelas prateleiras do frigorífico.

Na terceira sala, um grupo de novas esculturas, todas de 2019, são exibidas num plinto irregular inspirado pelas proporções do palco Noh. Para além da tensão entre formas e material, matéria inerte que parece vibrante e animada, estas esculturas estimulam uma reflexão sobre as relações recíprocas entre cheio e vazio ou entre formas côncavas e convexas, entre o molde e aquilo que é moldado.

Em Ear-coral os corais reaparecem como referência, aqui proliferam a partir de uma orelha de gesso. Testa é um fragmento de uma escultura de uma cabeça, deitada sobre um dos seus lados e revelando uma geode no seu interior. Armadura consiste numa superfície curva coberta de mexilhões (representando o significante, como nos diz Broodthaers), que faz lembrar a capa de um animal catafractário. E Noite que é composta por formas abstractas feitas de contraplacado azul, mas vagamente antropomórficas e tensas que parecem prontas a mover-se.

Na última sala, um vídeo a preto e branco, Sunrise (2019), mostra alguns furões a interagir e a brincar com um fragmento oco de uma escultura de um busto humano. O fragmento inerte da escultura partida contrasta com a vivacidade dos animais. A acção silenciosa decorre numa paisagem natural, com um canavial como pano de fundo, ao alvorecer. É o fim da viagem que se iniciou ao pôr-do-sol. No chão, em frente do vídeo, encontramos Box (2018), uma paisagem portátil, que consiste numa caixa de cartão que contém um fragmento de um habitat marinho com rochas, moluscos e a sombra de Aqueloo reflectida na água, numa das suas formas efémeras.

André Romão

Museu Coleção Berardo

Sara De Chiara é crítica de arte e curadora. Doutoranda em História da Arte Contemporânea na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade La Sapienza di Roma. Colaborou com a publicação do novo catálogo raisonné do artista Umberto Boccioni (2017). Escreve com regularidade para catálogos e revistas de arte contemporânea. Trabalhou como assistente editorial na redacção da revista científica "Storia dell'arte" (2012-2013) e durante vários anos trabalhou na DEPART Foundation onde organizou projetos e exposições na American Academy in Rome e no MACRO Museum, ambos em Roma (2012-2015).  

 

Tradução do inglês por Gonçalo Gama Pinto

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The lights slowly go down. They are dimming to simulate a sunset over a transparent skyline, a large acrylic glass model of a factory roof, with its typical sharp saw-tooth profile, lowered to floor level (Tramonto, 2019). Suddenly, the lights turn on, and start to dim again, and then again: a looping sunset which reveals the fictional, theatrical nature of André Romão’s exhibition Fauna, starting from this first room which also serves as an introduction to the nocturnal atmosphere of the journey viewers are about to take.

Exactly like at a theatre entrance, rows of posters attached to a cylindrical thick column announce the exhibition, composing the installation Now that I have your attention (2019). The posters show a picture apparently out of context: the detail of the scene representing the beheading of John the Baptist, painted by Rogier van der Weyden. In the close-up image, the beheaded body of St John seems still alive, the blood is gushing and spurting out of the severed neck, like a tiny pulsing fountain, betraying an unusual plastic force that gives shape to small concretions.

If there is a narrative that Romão is staging, it is inspired by Ovid’s Metamorphoses, and the detail of the blood depicted in the poster evokes the image described in the Latin poem to explain the mythological origin of corals: the blood spilled from the head of Medusa, severed by Perseus, which turned the seaweed into red corals.

To the Metamorphoses is almost entirely devoted the second room-chapter of the exhibition, filled with a four-channel sound installation titled Of bodies changed to other forms I tell (2019), in which the recorded voices of Penny Rimbaud and Eve Libertine, respectively drummer and vocalist of the former British anarcho-punk band Crass, recite verses from the poem. The script is composed of fragments that tell the transformations of the character Achelous, the main Greek river god; all springs, rivers, and oceans were believed to issue from him.

The resulting textual assemblage emphasises the metamorphic power elected by Ovid as a vital, existential principle, based on the continuity (and contiguity) between man, nature, deity, deeply intertwined in an uninterrupted chain of actions, a sequence of visions like fotograms (a prophecy of the cinema to come as Italo Calvino noted). Moreover, the water embodied by Achelous, the shapeless water that flows assuming different forms only in a temporary way, is the element that perhaps best represents the idea of constant flow, expressed in the poem.

The principle of a continuous metamorphosis is reflected in the practice of Romão, who employs heterogeneous objects and materials from different contexts — vegetal, mineral, artificial, artistic, archaeological, technological — altering or hybridizing them, often presenting them displayed in an unusual way, creating tensions between these different realms. A reference to the poem is also expressed in the recurring rhizomatic or fractal form, evoking its subject as well as its formal structure, with the stories inside the stories, myths within myths, and their variations.

The artist’s project seems to reflect on the possibility of applying the lens of the Metamorphoses, as an existential latent energy, to observe and interpret the present world, questioning and testing the possible complex interactions, for example, between nature and the human body, or nature and technological devices.

Gerador (2019), an electric generator pollinized by acacia flowers, a plant with an infesting root system, installed on the floor in the first room is counterbalanced by a 1:1 scale model of the first Portuguese satellite PoSAT-1, symbol of a sort of human “pollination” of the space, launched into orbit in 1993 and presently adrift, hanging from the ceiling in the second room. Metamorphoses are not free from conflicts and violence, as the curator Pedro Lapa underlines, “ideas of mutation, adaptation, and resistance” are not disjointed from “a predatory, viral quality, analogue to economical processes”, suggesting the different implications touched by the artist’s practice.

Before approaching the last two chapters of the exhibition, a small room serves as a break of the narrative flow. It is illuminated exclusively by the light of a grab and go fridge which contains some archaic, Egyptian and Greek statuettes and Aryballos from the National Archaeological Museum in Lisbon, that once belonged to Ana Hatherly’s collection, here arranged in a strange stratigraphy dictated by the shelves of the fridge.

In the third room, a group of new sculptures, all from 2019, are displayed on an irregular plinth, inspired by the proportions of the Noh stage. In addition to the tension between shapes and material, inert matter that seems vibrant and animated, these sculptures stimulate a reflection on the mutual relationship between full and empty or concave and convex shapes, the cast and what is molded.

In Ear-coral a reference to coral twigs returns, in this case they proliferate from a plaster ear, Testa is a fragment of a sculptural head, lying on one side showing a geode in its cavity, Armadura consists of a curved surface covered with mussels, (standing for the signifier as Broodthaers teaches), which resembles the mantle of a cataphract animal, and Noite, which is composed by abstract forms made of blue plywood, but vaguely anthropomorphic and tense that seem ready to move.

In the last room, the black and white video Sunrise (2019) documents some ferrets interacting and playing with the fragmented and hollow sculpture of a human bust. The inert fragment of the broken sculpture  contrasts with the lively activity of the animals; the silent action takes place in a natural landscape, with a canebrake as a backdrop, at dawn. It is the end of the journey begun at sunset.

On the floor in front of the video, Box (2018) is a portable landscape, a cardboard box containing a corner of a marine with rocks, molluscs and the shadow of Achelous reflected on the water, in one of its ephemeral forms.

 

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André Romão, Fauna. Vistas da exposição Museu Coleção Berardo. Fotos: David Rato. Cortesia do artista e Museu Coleção Berardo. 

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