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Silvia Bächli: Side facing the wind

Silvia Bachli, Side facing the wind, Culturgest Porto - Fotos Alexandre Delmar (12).jpg
Cristina Sanchez-Kozyreva

 

O rito do outono

 

A exposição Side facing the wind, de Silvia Bächli, assemelha-se a uma lufada de ar fresco. Elaborada a partir do ateliê, a sua gramática — pinceladas lisas de guache em tons terra sobre folhas de papel brancas — traz às salas da galeria uma energia descontraída. Uma série de faixas horizontais em tonalidades avermelhadas plasmam-se sobre as paredes como se de pautas musicais se tratasse, surgindo ao longo da exposição numa sucessão de refrões; stick figures minimais em tonalidade cinza asfalto mostram-se a correr em conjunto, sugerindo uma corridinha alegre para fugir ao chuvisco outonal — ou talvez sejam cruzamentos vistos de cima, algum género de símbolo arcaico da intersecção das estradas contemporâneas. De facto, alguns desenhos encontram-se repletos de sobreposições, como que refletindo as densas artérias de uma grande metrópole, e algumas folhas de papel estão praticamente despidas de elementos, como que focando algum caminho ou atalho rural contra um céu que, de tão brilhante, é ofuscantemente branco. Há ainda outras folhas que comportam diversas linhas ondulantes, fazendo lembrar os recortes de campos de arroz imaginados; ou talvez teias de aranha que algum desenho animado aracnídeo tenha deixado para trás; ou até limites intangíveis de placas tectónicas que aqui se tornam visíveis. Aquilo que parecer aos olhos do leitor será tão acertado quanto aquilo que pareceu aos meus.

A obra de Bächli é uma resposta visual às observações físicas que lhe surgem enquanto pinta no ateliê. A artista olha para a sua própria mão aberta, a segurar a folha de papel — na verdade, um dos desenhos quase parece uma mão com seis dedos —, e a sua própria perceção do seu corpo. Porém, trata-se igualmente de uma resposta às suas memórias, a partir de observações suas enquanto fazia outra coisa, algures — ouvi dizer que Bächli se lembra dos seus passeios e do seu movimento em geral —, para as quais, como é óbvio, nunca haverá uma tradução exata. Também não é que precisemos dela, no entanto, já que estas pinturas sem moldura, aplicadas diretamente sobre a parede, a diferentes alturas e em diferentes sítios, dispostas ou em grupo ou isoladamente, falam, no seu todo, uma generosa linguagem poética. Em geral, constroem uma composição-instalação de pinceladas manuais em tonalidades outonais como que configurando pautas e acentuações musicais, reivindicando assim o seu lugar no cosmos da poesia, com os seus mistérios e vazios expressivos, com as suas emoções e a sua fluidez musical.

No trabalho de Bächli, o elemento escultural é recente. Aqui, porém, temos a sorte de encontrar um ótimo conjunto de esculturas sobre uma mesa alta na última sala do espaço expositivo. São feitas em gesso — pedaços de paredes demolidas aos quais a artista não só acrescentou mais uma camada de destruição como também conferiu tonalidades terra. A materialidade destes objetos absorve o nosso olhar de uma forma mais plácida, trazendo um equilíbrio à energia mais agitada dos desenhos. Ocasionalmente assentes uns sobre os outros, estes blocos geométricos irregulares desenham assim formas humanoides naïf — a propósito, ficamos a saber, pela folha de sala, que Bächli se refere às suas peças como "actrizes" que se reúnem, conversam umas com as outras ou simplesmente existem, como seres fantásticos da floresta ou do deserto que tivessem sido convocados pela prática artística visualmente musical de Bächli. E assim, além da poesia e da música, estes trabalhos são em simultâneo biográficos e abstratos, abrindo-se igualmente a qualquer análise junguiana alheia e/ou a leituras emocionais e corporais. Na verdade, sabe-se que Bächli se compara à figura do compositor, fazendo também equivaler o visitante ao executante.

Vêm-me à cabeça as cores das folhas e dos descampados de outono, o que é igualmente oportuno; mas também me lembro de uma certa flânerie citadina, o que incluiria jardins viçosos e passeios molhados — manchas de verdes e castanhos surgem sobre as paredes brancas; e também da sinestesia de Kandinsky, sons e elementos da natureza, e das cuidadas e espantosas características de alguma paisagem suíça (não consigo evitar imaginar o ambiente da artista). E depois há um sem-número de outras ideias fragmentárias que surgem por associação e cuja descrição se facilitaria caso a fizesse como se de um sonho se tratasse, o que seria uma matéria igualmente pessoal e irrelevante para este contexto.

Se aceitarmos que a cor e a forma, mesmo sem uma qualidade representacional, podem espoletar respostas emocionais, então esta exposição propiciará um sentimento jubilante de liberdade. Curiosamente, ao longo dos seus últimos 40 anos de prática desenhística, Bächli recorreu com frequência apenas a uma palete de cinzentos para as suas exposições. Aqui, no entanto, parece dar às cores uma importância constante, numa apresentação praticamente democrática — bem como ao branco, que, se concordarmos em entender as peças da artista como intérpretes, parece ter um papel próprio a desempenhar. O branco pode estar aqui a representar silêncios e pausas de uma forma central, tal como quando se compõe música. Deste modo, transforma-se num espaço negativo-positivo que dá estrutura a uma melodia visual, realçando as diferentes tonalidades e pinceladas e conferindo-lhes forma e propósito.

Em última instância, as instalações desenhísticas de Bächli descartam os limites impostos pelos papéis retangulares nos quais desenha, e o branco do papel funde-se com o branco da parede: é a fáscia do corpo de trabalho, o silêncio que concatena os sons visuais que aquele contém. Chegado o fim da exposição, o ritmo abranda, provavelmente porque a plataforma sobre a qual se encontram as suas pequenas esculturas nos detém; e, sobre isto, poderíamos dizer que é somente uma clareira imaginária onde se está prestes a dar um concerto, e onde a nós, espectadores, se juntam todas as personagens presentes na obra de Bächli — para em conjunto descansarmos e ouvirmos.

 

Silvia Bächli

Culturgest

 

Fidelidade Arte

 

 

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribuiu, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic. É editora chefe da revista digital Curtain Magazine.

 

Tradução do EN por Diogo Montenegro

 

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Silvia Bächli: Side facing the wind. Vistas da exposição no espaço Fidelidade Arte. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia de Culturest/Fundação CGD.

Silvia Bachli, Side facing the wind, Culturgest Porto - Fotos Alexandre Delmar (4)
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Silvia Bächli: Side facing the wind. Vistas gerais da exposição no espaço da Culturgest Porto. Fotos: Alexandre Delmar. Cortesia de Culturest/Fundação CGD.

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