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Lourdes Castro (1930-2022)

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Isabel Nogueira

 

Lourdes Castro e as sombras de afecto

 

É uma geração de artistas que vai partindo e que não nos deixa indiferentes. Em muitos casos, as suas produções artísticas iniciaram-se ainda no final dos anos 50, num Portugal fechado, colonialista, reaccionário e conservador. Lourdes Castro (1930-2022) foi uma destas artistas que, tal como muitos outros e outras, rumaram a alguns países da Europa e, por vezes, também do continente americano, principalmente entre finais da década de 50 e meados da década de 70, destacando-se a acção de auxílio financeiro, a partir de 1957, por parte da Fundação Calouste Gulbenkian. De facto, o papel da Gulbenkian neste contexto foi preponderante, permitindo aos artistas a saída do país, no sentido da consolidação das suas carreiras e, claro, de novas vivências, de abertura ao mundo e da urgência em respirar liberdade.

Entre os vários artistas emigrados — e quando nos referimos a “emigrados” trata-se da vivência efectiva e durante um período considerável no estrangeiro, que em alguns casos se tornaria definitiva —, podemos destacar, desta geração nascida nos anos 30, e além de Lourdes Castro, Alberto Carneiro (1937-2017), Ângelo de Sousa (1938-2011), Bartolomeu Cid (1931-2008), Costa Pinheiro (1932-2015), Gonçalo Duarte (1935-1986), Helena Almeida (1934-2018), João Cutileiro (1937-2021), João Vieira (1934-2009), Jorge Pinheiro (n. 1931), José Escada (1934-1980), Manuel Alvess (1939-2009), Paula Rego (n. 1935), René Bertholo (1935-2005), entre outros, que viviam em São Paulo, Roma, Munique ou, na sua maioria, em Paris e Londres. Fernando Pernes concluía prosaicamente, em 1966 (Colóquio: Revista de Artes e Letras), sobre esta realidade: «De certo, já temos entre nós artistas de consciente modernidade. Mas a esses deve-se recomendar a urgente viagem para Paris ou para Londres, juntando o seu destino ao de Amadeo ou Vieira da Silva, que no grau de uma primeira e de uma segunda geração deram o sinal que continua aberto. E ficar, só merecerá a pena para quem não tenha a coragem ou os meios para partir».

Lourdes Castro, natural do Funchal, depois estudante na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, com cujo ensino não se terá, compreensivelmente, na época, identificado, partiria para Munique com René Bertholo, seu companheiro, em 1957. Seguiria depois para Paris. Em 1958, fundaria, com Gonçalo Duarte, João Vieira, José Escada e René Bertholo — que tinham partilhado um atelier por cima do café “Gelo”, em Lisboa, local conhecido pelas suas tertúlias —, e ainda com Costa Pinheiro, o “Grupo KWY”: as letras que não constavam do alfabeto português. Era uma jovem mulher entre os homens. O agrupamento durou uma década e, apesar deste núcleo central, teve outros colaboradores estrangeiros, tais como, Christo Javacheff e Jan Voss. O grupo desenvolveu diversas iniciativas, entre as quais a edição de uma notável revista homónima (1958-1963) — saíram 12 números de tiragem limitada (300 exemplares) —, assim como a organização de debates e de algumas exposições. O grupo chegou a expor em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, entre 11 e 20 de Dezembro de 1960. A revista, impressa manualmente e destinada a ser distribuída em Lisboa, Paris e Munique, representaria um espaço de experiências criativas livres. Lourdes Castro assina a capa do primeiro número. Esta publicação não seria propriamente uma revista de arte ou de crítica, mas ela própria um objecto artístico, o que se torna evidente pelo seu manuseamento.

Por estes anos, a artista encontrava-se esteticamente com alguma ligação ao informalismo, movimento genericamente abstracto e poético, que surgiu na Europa a seguir à II Guerra Mundial. Na verdade, e apesar da sua inequívoca singularidade, Lourdes Castro esteve sempre a par dos movimentos/tendências mais vanguardistas do momento. No início dos anos 60, iniciava as suas notáveis obras em assemblage, realizadas com peças do quotidiano — Comedor (1961), por exemplo —, numa clara interpelação do objecto na sua banalidade, tendência particularmente desencadeada com o movimento francês do nouveau réalisme, que se caracterizou-se por experiências artísticas que se debruçaram sobre a extensão, função e valor do próprio objecto, assim como pela redescoberta do readymade de Marcel Duchamp. E notemos que este movimento teve início oficial precisamente em 1960, aquando da assinatura do respectivo “manifesto”, entre outros, por Pierre Restany, Yves Klein, Arman ou Daniel Spoerri.  

Pouco tempo depois, ainda na década de 60, Lourdes Castro desenvolvia os trabalhos que não mais abandonaria e que se instituiriam como a sua marca inequívoca e indentificável: as sombras. Bordadas sobre lençóis, desenhadas nas paredes, recortadas em acrílico, surgem como uma matriz poderosa, póetica e até paradoxal em si, ao incorporem potenciais binómios, como presença-ausência; concretização-evocação; presente-passado; corpo-espírito, etc. Na verdade, muitas das sombras pertencem ao seu núcleo de afectos, como René Bertholo — destaquemos a bela peça Rue de Saints Pères, Paris (1964), mostrando o recorte do casal na parede num momento de partilha e de intimidade durante uma refeição —, ou amigos e colegas — Claudine Bury, Milvia Maglione, Maurice Henry, Christa Maar, entre outros. A imagem estática torna-se, afinal, incoporadora de uma história, como num teatro de sombras. Aliás, é conhecido o interesse de Lourdes Castro por esta linguagem artística. Após a residência na Deutscher Akademischer Austauschdienst, em Berlim, nos anos 70, a artista acabaria por incrementar a imagem em movimento, desenvolvendo trabalhos com Manuel Zimbro (1944-2003), e dando origem aos espectáculos As Cinco Estações (1976) e Linha do Horizonte (1981).

Lourdes Castro, tal como outras importantes artistas da sua geração, teve um contributo notável para a maior visibilidade das artistas mulheres, sobretudo, por motivos evidentes, após a democratização do regime, em 1974. Depois de residir 25 anos em Paris, em 1983 regressaria ao Funchal. E, na paisagem intensa da Madeira — onde, a partir da vegetação exuberante, tinha realizado o Grande Herbário de Sombras —, partiu. Permanencem as belas sombras de afecto.  

  

Lourdes Castro

 

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia. 

imagem: Sombras projetadas de Lourdes Castro e René Bertholo, Rue de Saints Pères, Paris, 1964.

 

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