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Rui Calçada Bastos: I can’t see you, but I know you’re here 

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Isabel Nogueira

A pintura que aparece

I can’t see you, but I know you’re here (Galeria Bruno Múrias) é a mais recente exposição de Rui Calçada Bastos (n. 1971), uma bela mostra que serviu de mote à nossa conversa com o artista.

Isabel Nogueira (IN): Como vês e sentes esta exposição?

Rui Calçada Bastos (RCB): Esta exposição parte de uma ideia de memória e de retrato, que já estava presente naquela peça central da minha última exposição na Galeria Bruno Múrias [Paisagem para Desaparecidos, 2018], realizada com molduras, e resolvi levar este conceito mais longe e centrar-me agora apenas nas partes de madeira das molduras e na ideia do retrato. No fundo, esta exposição tem que ver com uma proposta de evocar todos os retratos que possam ter estado presentes naquelas molduras.

IN: Trata-se de retratos de pessoas que, na verdade não existem, que foram inventados por ti.

RCB: Sim, por um lado, foi uma vontade de voltar à prática da pintura; por outro, dentro desse processo, deixar que as obras aparecessem em vez de ser eu a ir atrás delas. O processo da realização foi lançar o bioxene — obviamente com algum controlo — e deixar que as figuras tomassem forma. Como se o retrato que aparecesse fosse algo até de fantasmagórico, tinha a expressão de algo fantasmagórico, mal definido, sem os contornos bem delineados, é uma sugestão de retrato.

IN: À excepção de um retrato, que é um auto-retrato.

RCB: Sim, é verdade, mais foi por acaso (risos). Só depois percebi que era parecido comigo.

IN: Sem ser, eventualmente, numa situação académica, de estudo, é a primeira vez que apresentas trabalhos em pintura. 

RCB: Sim, a minha formação é em Belas-Artes, em pintura, mas nunca tinha decidido apresentar pintura ou um projecto centrado na pintura.

IN: Esta exposição, se por um lado retoma a ideia de tempo e de retrato, inclusivamente expressa noutros trabalhos, por outro, mostra uma forma completamente nova de te expressares artisticamente. É o fechar de um ciclo ou o abrir de um novo?

RCB: Sim, creio que é o fechar deste ciclo em torno do retrato e das molduras. Eventualmente, poderei aqui voltar se me parecer que tenho algo mais a dizer sobre isto. Seguramente haverá imenso a dizer ainda sobre o retrato, mas entendo que sim, que o que surgiu na exposição de há dois anos parece-me terminar agora.  

IN: Outra peça importante na exposição actual, além dos retratos, é a instalação com os fios de pendurar quadros. Queres-nos falar um pouco deles?

RCB: Esses fios são de pinturas que estavam penduradas — como se penduravam primeiro — e, de repente, pareceu-me interessante colocar os fios sem as pinturas, evocando outra qualquer memória. Para mim fez sentido duas evocações da memória: a pinturas dos retratos e os fios de pinturas que estiveram ali.

IN: E as diversas frases que se encontram na zona mais elevada da exposição?

RCB: É o terceiro elemento. Os títulos provêm de uma reflexão em torno da história da pintura, sobretudo da história do retrato. A minha formação foi em pintura e sempre me habituei a reconhecer as pinturas pelos seus títulos. Fiz uma incursão em Matisse, Braque, Malevich, entre outros. Os títulos surgiram a partir de títulos de retratos destes e de outros artistas mas modificados por mim. Através dos títulos da história da arte criei os meus próprios títulos. Há um que é literalmente retirado de Paul Klee: “Possessed Girl”. A partir desse título pareceu-me interessante construir títulos meus que revisitassem coisas de que, de algum modo, me tenha socorrido para chegar a este ponto, a este corpo de trabalho. Segui a mesma lógica dos títulos que revisitei, ou seja, títulos curtos e descritivos mas que têm que ver com um universo de pesquisa meu. Por exemplo, um dos títulos reporta-se ao Rio Lethes, que é o rio do esquecimento. As pessoas bebiam a sua água e perdiam a memória. Mergulhei nesse universo dos títulos das pinturas e trouxe-os para o meu próprio universo.

IN: A pintura é uma “Possessed Girl”?

RCB: Vejo a pintura como algo com muita responsabilidade. É preciso ter algum cuidado e respeito. A pintura é a mais antiga de todas. Daí também algumas hesitações quando decidi apresentar este trabalho. Tive várias dúvidas. Mas o que me interessou foi também sair da minha zona de conforto, obrigar-me a entrar numa zona em que há um grau de risco qualquer que me faz estar atento a outras coisas e a ir mais para a frente.  

IN: Fizeste tu a própria curadoria da exposição, quer dizer, tomaste decisões sobre o que mostrar e o modo de o fazer.

RCB: Sim, e a exposição foi aparecendo após um processo obsessivo de trabalho. No final eram 190 pinturas e foram mostradas 77. Depois surgiu a ideia daquele azul/verde petróleo [cor das paredes da galeria], que confere um sentido museológico ao conjunto, uma proposta de leitura. Os fios aparecerem posteriormente, foi um trabalho de ateliê. Depois de experimentar a pintura na parede do ateliê e de ter decidido a cor apliquei alguns destes fios e percebi que ali havia algo que me interessava. A última proposta, a das frases, aconteceu com o intuito de levantar o olhar, que me pareceu importante.

IN: O que te deu mais prazer nesta exposição, uma peça, um momento?

RCB: O que gosto mais nesta exposição é o que gosto em todas: o processo que vai da ideia inicial ao resultado final. No fundo é o trajecto, o que está no meio, como conseguimos articular os vários aspectos do início ao fim.

IN: Surpreendes-te?

RCB: Sempre. Acho que é o que abre portas para a peça seguinte e assim sucessivamente.

IN: Qual é a tua peça seguinte, ou projecto seguinte?

RCB: Inauguro na Porta 14 uma peça completamente diferente, um vídeo. Há sempre um trabalho paralelo e constante no ateliê e esta peça foi resultado disso.

IN: És um artista de ateliê, ou seja, vais para lá mesmo sem um objectivo definido?

RCB: Sim, acho que é uma prática importante. Até podemos estar só a ler um livro e a fazer uns esboços, mas é importante lançar ideias para o ar até ao dia em que as obras vão aparecendo, começando a fazer sentido.

IN: Há algum projecto que gostasses muito de realizar?

RCB: Apetecia-me ir para a América do Sul, voltar àquela prática que tive durante muitos anos, a da viagem, e que, ultimamente, tem estado mais adormecida por estar muito tempo em Lisboa. Apesar de trabalhar muito no ateliê tenho essa necessidade de outras realidades, até de outros materiais. Neste momento, estou a planear uma saída.

IN: O cinema, concretamente um filme, também está presente nesta exposição.

RCB: Sim, o título da exposição I can’t see you, but I know you’re here é retirado de As asas do desejo, de Wim Wenders, quando o Bruno Ganz, que é um anjo, se aproxima do Peter Falk, que está na roulotte, e este lhe diz:I can’t see you, but I know you’re here”. Neste caso há este filme que se destaca, não só porque vivi em Berlim, mas por inúmeros motivos. Senti que esta frase era o que estava a pensar ao conceber esta exposição. O falar de algo que evocamos mas que não conseguimos ver. As próprias figuras dos retratos não são muito definidas. Mas há outros filmes de que gosto muito. O cinema é algo a que me sinto próximo, até pela minha prática do vídeo. O cineasta de que mais gosto é o Béla Tarr.

IN: Porquê?

RCB: Pela honestidade do trabalho, pela ausência de artifício, pela crueza, pela seriedade. É um realizador enorme. E lembro-me bastante daquele longo plano em que vão duas personagens de costas e que está tudo a voar, papéis a voar.

IN: Para concluir a questão do retrato, há alguma série de pinturas ou algum pintor de retrato que particularmente te impressione ou influencie?

RCB: Com toda a modéstia, gostava de ver nos retratos que fiz um Goya falhado, um Bacon falhado, uma Marlene Dumas falhada, um Toulouse-Lautrec falhado, ou seja, no fazer destes retratos mergulhei profundamente na história da pintura, do retrato, e acabou por se tornar inevitável todas essas referências, porque não o conseguimos contornar. Tudo junto faz o nosso trabalho. Interessam-me bastante os clássicos quando falamos de representação. Goya acima de tudo. Embora existam outros pintores — não necessariamente representativos — de que gosto muito, como o Frank Stella ou o Mark Rothko. Acho que as referências são importantes mas depois no fazer devemos desligarmo-nos e deixar que surja algo com a nossa voz. Muitas vezes, essa referências até surgem a posteriori, muitas vezes nem percebemos na altura que está a suceder, parece-me.   

IN: Estás satisfeito com esta exposição?

RCB: Estou, estou contente com a reacção das pessoas e acho que consegui construir um corpo de trabalho com o qual agora me sinto confortável.

IN: Foi um bom início de ano?

RCB: Foi (risos).

IN: Obrigada, Rui.

 

Rui Calçada Bastos

 

Galeria Bruno Múrias

 

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

 

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Rui Calçada Bastos: I can’t see you, but I know you’re here. Vistas gerais da exposição na Galeria Bruno Múrias. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Galeria Bruno Múrias. 

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