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João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira: Ama como a estrada começa 

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Alexandre Melo

Atirar um pau ao Coiso

 

Uma cama de alarme antes da eternidade

                                                     — Mário Cesariny, O Navio de Espelhos

                                                      in Titânia e a Cidade Queimada, 1977 

Conversa ao jantar em Paris

 

Não sei se por causa de alguma coisa que estivéssemos em vias de comer, começámos a falar sobre a necessidade e a dificuldade de encontrar palavras para substituir nos ditados populares portugueses formulações suscetíveis de estimular a violência ou um menor apreço em relação a animais que desejamos estimar. “Vozes de ...“ ; “Atirei um...“ “; ...escondido com o...“. São muitos os exemplos possíveis. Se não quisermos abdicar dos provérbios ocorreu-me que, pelo menos na linguagem falada, poderíamos substituir o nome do animal pela palavra genérica “coiso”, pronunciada de modo rápido e quase inaudível. A ideia foi bem acolhida e continuamos a comer já não me lembro o quê.

Cesariny tinha um especial apreço por gatos e assim como assim ainda há pessoas que não desdenham considerar alguns homens um bocado coisos.

Ao refletir sobre a exposição de João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira na Galeria Cristina Guerra  — que aqui abordo enquanto antecedente direto da instalação no MAAT — apercebi-me que o assunto se poderia complicar. O título da exposição, A Mão na Coisa, A Coisa na Boca, A Boca na Coisa, A Coisa na Mão, (2018), citava expressões usadas num documento de 1953 da Câmara de Lisboa que fixava as multas a aplicar a quem praticasse determinadas atividades de natureza sexual em espaços públicos. O aspeto mais interessante da portaria consistia em não utilizar, na descrição dessas práticas, qualquer vocábulo sexualmente explícito.

Mesmo a polícia compreende que estamos no território do que não só não deve ser feito como não deve sequer ser nomeado. Uma curiosidade: as multas mais elevadas são para “Aquilo atrás daquilo” e “Com a língua naquilo” que, para além da multa, dá direito a ser preso e fotografado.

O lugar central da galeria Cristina Guerra foi ocupado por uma obra que agora integra a Coleção António Cachola. Uma construção em metal intitulada “Vadios” (palavra utilizada na lei de Julho 1912 que penalizava a homossexualidade, substituindo a palavra homossexual até à revogação da lei em 1982). Trata-se de uma estrutura circular em metal com uma proteção lateral parcial que resguarda o que se passa no seu interior. O visitante é levado a circundar esta estrutura e entrar no interior do espaço que se revela como sendo uma variante dos urinóis públicos que há umas décadas atrás faziam parte do quotidiano da experiência do equipamento urbano de Lisboa. A disposição em círculo das cabinas individuais ecoa a lógica do panoptycon e favorece uma dinâmica de observação e interação que, por sua vez, caracteriza espaços específicos de alguns sex clubs e de outros locais de engate e promoção de atividade sexual em geral. Esta referência é reforçada pelas aberturas circulares entre os separadores das várias cabinas devidamente colocadas à altura dos famosos “glory holes”.

Todas as superfícies da construção  estão cobertas de inscrições manuais — como é habitual encontrar em casas de banho públicas — de fragmentos de textos de alguns escritores que, ao longo do século XX, fizeram referências explícitas a práticas homossexuais. Entre os autores citados encontram-se alguns nomes maiores da literatura Portuguesa como Bocage, Almada Negreiros ou Mário Cesariny e autores menos conhecidos como Judith Teixeira, Raul Leal, Pedro Homem de Melo ou António Botto.  

A utilização dos urinóis públicos como lugares de engate homossexual está associada historicamente a lógicas de repressão política e transgressão moral. Estas duas lógicas estão frequentemente associadas em situações históricas de repressão (como foi o caso da ditadura que governou Portugal entre 1926 e 1974) mas a ideia de “transgressão”, em si mesma, como valor subversivo genérico, pode manter a sua produtividade mesmo em regimes democráticos e liberais. Trata-se de uma modalidade do imaginário, e designadamente do imaginário (e das práticas) sexuais que se queira vivida à margem da lei, do bom senso e dos “bons costumes”.  Esta é uma ideia que pode ser associada a algumas correntes do pensamento e atitude “queer” e levanta questões éticas e jurídicas da maior relevância para muitas discussões atuais.

 

Homem sou eu dentro da minha farda 

Mário Cesariny, ob.cit. 

 

João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira durante uma estadia em Paris, em 2018, levaram por diante uma pesquisa dedicada a Mário Cesariny focada nas atividades e peripécias associadas; o seu fascínio pela Torre de Saint-Jacques, descrito no Diário de Composição e a passagem pela prisão de Fresnes acusado de “atentado ao pudor”.

Atualmente os autores estão de novo em Paris onde prosseguem a investigação em torno dos movimentos de libertação sexual nos anos 60 e 70 nesta cidade, contemporâneos da emigração massiva de portugueses para Paris.

No caminho das minhas leituras de Cesariny A Cidade Queimada é um livro que ocupa um lugar especial também no que diz respeito à relação com as artes plásticas: a “linha de água”, linha dos ombros, linha de cintura.

Mário Cesariny é talvez a pessoa mais extraordinária da vida cultural portuguesa do século XX.

Pessoa extraordinária no sentido literal de coisa que se não encontra com facilidade no dia a dia mediático da pocilga digital. Artista fora do comum cujos trabalhos e posturas continuam a ser irredutíveis a resumos e explicações e nem sequer se deixam apanhar pelas variadas e sofisticadas sistematizações que têm enriquecido a exegese de alguns outros indiscutíveis génios da literatura nacional. Há tantas coisas que não se sabem e tantas outras que não se deixam perceber. É como se fosse sempre a primeira vez ou a segunda ou a terceira, etc.

Tudo isto e mais diz José Manuel dos Santos no seu belo texto O Espelho Vazio (Prefácio de Uma Grande Razão, Assírio & Alvim, 2007): “Cesariny é como um desses astros mortos que continuam a iluminar a nossa noite“  

Ama como a estrada começa é um verso de Cesariny e é o título da obra apresentada no MAAT, uma das mais completas e substanciais instalações dos autores. Construção fechada com dois andares a que se acede subindo uma escada depois de ouvir os avisos do “porteiro”. Torre (como a Torre de Saint Jacques de A Cidade Queimada), igreja, convento ou prisão. O fechamento circular é um dado fundamental porque permite a criação de um mundo novo, autónomo e oposto ao mundo exterior: um reverso da realidade isolado da banalidade quotidiana.

Aqui é sempre noite e não há janelas

Numa versão leve poderíamos falar da entrada num bar ou numa pequena discoteca mas é mais pertinente a comparação com uma sauna masculina ou um  clube de sexo. Uma ressonância de masmorra ou prisão em aroma de camarata de escola ou quartel: calor, suor, humidade.

No piso superior, a que a escada dá acesso, reconhecemos uma cela e um chuveiro. Uma grade quadriculada deixa ver que caminhamos sobre um tanque no piso inferior. Uma atmosfera saturada por uma iluminação abafada e uma música que sai de uma telefonia num décor repleto de objetos inesperados recuperados à iconografia da pintura e escultura surrealistas (fálicas velas de cera, luvas adornadas com pregos, cartolas com pinhas, bengalas com pés, caracóis numa bota onde se lê "Please hold me the forgotten way “, um verso de René Ricard) entre paredes cobertas de frases tomadas a Cesariny.

O mistério, a surpresa, o fascínio da pertença ou a aflição da clausura que qualquer visitante pode experimentar ganham uma ampliada dimensão ao coincidirem, a incertas horas de certos dias, com a presença de Guilherme Leal ou Duarte Melo (encenados por João dos Santos Martins ).

A proximidade do corpo quase nú, vulnerável, exposto, de alguém que poderemos imaginar como prisioneiro ou anfitrião, parceiro, vítima ou amo, ator ou sedutor, soldado ou caloiro, amador ou profissional. Um corpo muito perto do nosso. Está sentado, parece que espera, toma duche, desce ao piso inferior, veste e despe blusões com inscrições evocativas de figuras familiares no imaginário de Cesariny (Rimbaud, Sá-Carneiro, Pascoaes, Artaud, Leal etc.). O rapaz desliza e flutua no tanque ao ritmo de memórias de Ofélia ou Tibério César Augusto; miragens de Capri.

Os Portugueses já têm corpo?

Em Portugal, por razões históricas que se podem considerar evidentes (a ditadura política e a hegemonia da religião católica, durante muitas décadas praticada apenas na sua vertente mais conservadora), não há uma linhagem explícita de “arte gay” (nem mesmo nos anos 60) e muito menos uma presença significativa das temáticas e debates “queer” na área das artes plásticas. Uma situação muito diferente da que se encontra, em Portugal, por exemplo, na história da literatura do século XX ou no cinema contemporâneo.

O trabalho de JPV + NAF, para além da sua centralidade ao longo das duas últimas décadas, no campo específico da escultura e dos “filmes de artista” — nomeadamente variações “queer”, ou “camp”, a partir de Moby Dick e Werther — tem uma relevância política e ideológica que em Portugal podemos considerar excecional; talvez só partilhada, na área das artes plásticas, na mesma geração e em moldes diferentes, por Vasco Araújo.

"Será que os portugueses têm corpo? A pergunta começa por parecer absurda mas corre o risco de se tornar inquietante à medida que se acumulam os indícios de que a resposta é negativa: os portugueses não têm corpo.

Tópico de observação corrente é o modo como os discursos maioritários abordam ou, para ser exacto, não abordam a sexualidade e sobretudo as questões de diferenciação, discriminação e repressão sexual que constituem a sua dimensão polémica. Pode-se defender que, em termos culturais, a suave omissão destes temas, inefável componente dos nossos brandos costumes, se traduz numa acrescida margem de manobra ou mesmo de tolerância implícita em relação às práticas e nessa medida constitui um ganho civilizacional que nos poupa ao desgaste de tomadas de posição arrebatadas e a confrontos tendencialmente histerizados. Mas uma tal peculiaridade não está isenta de riscos.

O sistema de tolerância implícita por omissão corre o risco de sempre que se tornam publicamente notórios casos polémicos se verem emergir do fundo dos tempos posições fundadas no mais brutal obscurantismo e no mais convicto desprezo pela liberdade alheia.“

Os três parágrafos anteriores são extratos de um texto que publiquei no Jornal Expresso há cerca de 30 anos. Espero que todos os leitores tenham reparado no anacronismo de algumas passagens mas infelizmente não tenho a certeza que o anacronismo seja absolutamente óbvio.

Não é impossível admitir que como em tantas outras paragens as coisas ou o que quer que seja que lhes queiram chamar se voltem a complicar.

“Dona Xica-ca  assustou-se-se ... “.

Veja-se a multiplicação de esforços, excitações e exaltações a respeito da reconstrução da direita, uma nova espécie de direita que não sabe se é ou não é extrema direita e também não sabe onde traçar as linhas que a possam distinguir do salazarismo, do nacionalismo, do anti-semitismo, do neo-fascismo e do neo-nazismo. Será interessante observar se o “humanismo personalista” da “democracia cristã” e mesmo a beatífica hipocrisia fundamentalista da Opus Dei se preparam para dar lugar a novas gerações de uma direita cada vez mais mal educada (em todas as aceções da expressão) se não mesmo algo boçal.

Quero “uma cama de alarme antes da eternidade“.

 

João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira

Cristina Guerra Contemporary Art

MAAT

Alexandre Melo. Nascido em Lisboa, é um crítico de arte, curador, ensaista e professor. Licenciado em Economia, doutorado em Sociologia e professor de Sociologia da Arte e Cultura Contemporânea no ISCTE. Escreve, desde a década de 80, para as principais publicações portuguesas, entre elas o Jornal de Letras, o semanário Expresso ou o Público, e internacionais, como o El País, e é também colaborador regular de revistas internacionais de arte contemporânea como a Flash Art, Artforum e Parkett. Foi autor do programa de rádio "Os Dias da Arte". Comissário da representação portuguesa na Bienal de Veneza 1997, com Julião Sarmento e na Bienal de São Paulo 2004, com Rui Chafes e Vera Mantero. Curador das colecções do Banco Privado (em depósito no Museu de Serralves) e da Ellipse Foundation. Colaborador na escrita do argumento de "O Fantasma" de João Pedro Rodrigues. Co-realizador de "Fratelli" de Gabriel Abrantes. Argumentista e autor dos textos dos documentários Colecção Geração 25 de Abril. Foi Assessor Cultural do Primeiro Ministro de Portugal José Sócrates de 2005 até ao final do mandato do mesmo.

 

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Imagem de capa e slideshow: João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira: Ama como a estrada começa, 2019-2020. Vistas da exposição no MAAT. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia dos artistas e Fundação EDP.

Imagem a meio do artigo: João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira. A Mão na Coisa, A Coisa na Boca, A Boca na Coisa, A Coisa na Mão. Vista da exposição na Cristina Guerra Contemporary Art, 2018. Cortesia dos artistas e Cristina Guerra Contemporary Art.

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