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Prémio Sonae Media Art 2019

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José Marmeleira

Entre a opacidade do processo tecnológico e a liberdade da experiência

Num exercício comparativo com as edições anteriores, mencione-se a diferença que a exposição do Prémio Sonae Media Art 2019, patente no MNAC: Museu Nacional de Arte Contemporânea, proclama, nos processos e nas obras, no recurso a artefactos tecnológicos e ao conhecimento técnico-científico. Dito de outro modo mais rigoroso: assume o deslocamento de métodos e meios (habitualmente associados à produção artística) para o domínio das potencialidades e extensões da computação. Ainda é de arte de que os trabalhos falam, mas, mediante o contributo declarado da inteligência artificial e o emprego dos algoritmos, será pertinente entrever uma categoria artística sustentada num novo tipo de literacia e de escrita? Ou, pelo contrário, a new media art acabará diluída na miríade de fazeres e trânsitos que caracteriza a arte desde a modernidade? Qualquer que venha a ser o cenário dominante, deve ser olhado com a devida distância crítica e analítica.

Na história da arte não faltam exemplos de artistas que pugnaram pela integração da arte na tecnologia ou pela fusão de ambas, a fim de aniquilar a memória histórica ou produzir objectos que satisfariam necessidades virtuais ou imaginadas. Com efeito, é no modernismo das vanguardas que certa criação artística se abeira da invenção científico-tecnológica. A título de exemplo, recorde-se a atividade no final dos anos 30 de László Moholy-Nagy no Institute of Design de Chicago e a sua concepção do que devia ser o modelo de estudante da escola: artista, cientista e produtor de tecnologias. Os participantes nesta edição não correspondem a tal modelo, mas observam-no a uma distância cada vez menor.

No Museu do Chiado, dois elementos, assinalam, não obstante a singularidade de cada proposta, uma convergência: a tensão que se estabelece entre o processo e a obra final (e a sua experiência pelo espectador); e a ubiquidade do som, por vezes, da música.

De uma sala, chegam sons de disparos, pequenas explosões, batidas secas. Compõem um ritmo entrecortado, irregular, não harmónico, violento. São também imagens que se acendem e se apagam, em clarões sobre seis estantes de ferro. Tente-se descrevê-las: fogo de artifício em céus negros, constelações luminosas, rizomas coloridos — assinale-se, por curiosidade, a semelhança formal com algumas pinturas de Jorge Queiroz. Criadas por um algoritmo fotogramétrico que Diogo Tudela (Porto, 1987) programou para correlacionar imagens de artilharia e pirotecnia, reagem a um sinal constituído por ritmos sonoros sintetizados digitalmente. Deste trabalho de tradução (que, como se verá, é evocado noutros trabalhos) não há vestígios concretos. Mas é ele que, precisamente, despoleta Colision & Render Engines, teatro sónico e pictórico no qual a violência do mundo é afinal da violência da tecnologia.

Num universo menos bélico, Keystone I, II, III, IV, a proposta de Rudolfo Quintas (Porto, 1980), também coloca em acção a inteligência artificial, mas no interior de quatro peças escultóricas espelhadas. Olhando para o seu interior, os visitantes descobrem sequências de palavras e frases retiradas de contas de Twitter de jornais, políticos e partidos portugueses. Recombinadas pela software, que se esconde em cada volume, surgem, hesitantes, com uma ressonância melancólica e decetiva, quase distópica. Entretanto, o sentido dos títulos das esculturas (pedra angular na tradução portuguesa de keystone) afirma a ambiguidade do que vê e lê. Se as pedras têm um significado incontornável na construção do artificio humano, no trabalho de Rudolfo Quintas (Porto, 1980) dão o nome a volumes e superfícies que seduzem com um abismo: o de uma inteligência sem espírito.

Com uma preocupação similar, Retratos de Ninguém, instalação do Coletivo Tiago Martins, João Correia e Sérgio Rebelo, interroga-se acerca das implicações políticas e existenciais na apropriação silenciosa das imagens pelas novas tecnologias de informação. É um trabalho eficaz e direto que enreda o visitante no feitiço da interação. À entrada, um discreto dispositivo anuncia o convite: “faço uma imagem fotográfica do seu rosto”. Logo que aceite, a imagem desaparece num programa antes de aparecer fragmentada, diluída noutro(s) rosto(s) que vão aparecendo em projeções. A singularidade dá origem a uma singularidade reificada e instrumentalizada para fins de controlo político e social.

A inteligência artificial, a computação e os algoritmos pautam a exposição. Sob a opacidade da maquinaria, determinam as obras, mas estas, enquanto objectos e experiências, transcendem poeticamente qualquer estrutura ou lógica prévia.

Música Humana de Francisca Aires Mateus (Lisboa, 1992) consiste numa instalação de vinte de colunas de som, sob meia luz que dão a escutar vozes humanas, acordes e melodias musicais aqui e ali emudecidas. O visitante entra fisicamente na peça e é transportado para fora do espaço branco. Para onde? O movimento é duplo: para o exterior (a cidade, a rua, a vida com e dos outros), para a vida interior (recordações, reminiscências, desejos, expectativas). E, no entanto, permanece ali, naquela câmara a tentar a apanhar tons, ritmos, harmonias. Por detrás deste teatro de vozes, objectos e sombras, esconde-se um processo de tradução de traços emocionais e de personalidades (obtidos por meios de respostas de vários indivíduos a questionários) em propriedades musicais. Emoções de pessoas, quantificadas e calculadas estão na origem da música, se se quiser, constituem a sua pauta. Mas o processo não tem fins epistemológicos, não busca psicologizar o que quer que seja. Está ao serviço do encontro perceptivo, estético, fenomenológico com a obra da artista.

System Syntheisis, o trabalho do Colectivo Berru, o vencedor desta edição, o processo é o seu exterior, aquilo que é tornado visível. Na sala, vegetação urbana e selvagem vive condicionada por um ambiente monitorizado por um algoritmo. Luz, temperatura e ar são rigorosamente regulados e o movimento das plantas, provocado por quatro ventoinhas, cria, por sua vez, em sensores colocados numa grelha, harmonias sonoras que se vão repetindo. A tecnologia computacional assegura a sobrevivência do ecossistema, de seres vivos: faz vida e ao mesmo tempo depende dela para funcionar. Tem a sua razão de ser no próprio ambiente que cria. Dito de outro modo, e com alguma ironia, o gesto demiúrgico que subiste à instalação encontra um limite na própria vida. Antes da técnica e da arte, encontra-se, na sua irremediável vulnerabilidade, a natureza.

Prémio Sonae Media Art

MNAC-Museu nacional de Arte Contemporânea [Museu do Chiado]

Colectivo Berru

José Marmeleira. Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação Para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

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Vistas da exposição Prémio Sonae Media Art 2019 no MNAC (por ordem de entrada na exposição): Diogo Tudela, Rudolfo Quintas, Colectivo Tiago Martins, João Correia, Sérgio Rebelo, Francisca Aires Mateus e Colectivo Berru. Fotos: José Paulo Ruas (ADF/DGPC). Fotos Musica Humana Francisca Aires Mateus: José Paulo Ruas (ADF/DGPC) e Tomás Paula. Cortesia MNAC-Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado).

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